<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444</id><updated>2011-12-07T05:59:54.319-08:00</updated><title type='text'>Quando a Noite Cai</title><subtitle type='html'>Sou cego e caminho durante o dia. Podia fazer de outro modo. Pois, para mim, é sempre noite.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-7645551895479190449</id><published>2011-11-23T13:35:00.000-08:00</published><updated>2011-11-23T13:36:20.863-08:00</updated><title type='text'>9- A Gaiola Dourada</title><content type='html'>No dia em que desapareceu A. Tomic, ninguém estranhou a sua falta no café da esquina, que religiosamente visitava às quinze horas. Apenas o copeiro, o virtuoso Sr.K, alçou a mão para tirar uma imperial no momento exacto em que Tomic a costumava pedir, mas dando falta do freguês logo se entreteve com outras coisas.&lt;br /&gt;Podemos dizer que na pacata cidade de J. a ausência prolongada e, por vezes definitiva, de um dos paisanos, é considerada normal, senão mesmo desejável aos olhos de quem manda lá no sítio. A este propósito, convém acrescentar o vigor e persistência com os líderes apregoam as vantagens do desaparecimento. Mas a verdade é que são raros os testemunhos do além que nos possam afiançar do que quer que seja. Os poucos que regressam limitam-se a pronunciar uma ou outra palavra sem nexo, e são ainda menos os que podem formar uma frase completa como: “ninguém nos vê, ninguém nos conhece”.&lt;br /&gt;Precisamente pelo seu carácter dúbio, estas asserções não nos permitem pôr em causa a versão oficial. Pois se são tantos os que não voltam, é quase seguro que algo de muito especial existe para aquelas bandas.&lt;br /&gt;Há quem prefira ficar, mas sublinhe-se, duas vezes, quem quiser partir é sempre livre de o fazer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-7645551895479190449?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/7645551895479190449/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/11/9-gaiola-dourada.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7645551895479190449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7645551895479190449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/11/9-gaiola-dourada.html' title='9- A Gaiola Dourada'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-758786680534868951</id><published>2011-11-09T11:44:00.000-08:00</published><updated>2011-11-09T11:45:03.196-08:00</updated><title type='text'>8- Just like a Game</title><content type='html'>Tudo correu como o previsto. A neve caiu, o inverno foi-se, voltou a primavera com as minhas crises alérgicas irritantes. Não é maravilhoso quando tudo corre como previsto? Nem me espantou de ver durante o sono o implacável coordenador da empresa Y saltar à corda. Parecia divertir-se. Com um sorriso indicava um pequeno ecrã de fundo negro no centro da sala. Nele saltitavam sequências de números e equações a um ritmo vertiginoso. Uma sala enorme, diga-mos que com umas boas centenas de lugares (pergunto-me se os da retaguarda viam o que se passava no ecrã). Assistiam os homens impávidos. De resto, nada de especial… como previsto. O cão persegue o gato, o gato persegue o rato, o rato o escaravelho. E a toupeira? Diz-se que nos dias felizes oferece o lombo a umas mordidas. Mas regra geral, diga-se, regra geral, não tem predador na imensa cadeia alimentar.&lt;br /&gt;Entre toda esta monótona violência, apenas o coordenador implacável goza um bom bocado: « Bora lá rapazes”, “Just like a game”, diz extasiado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-758786680534868951?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/758786680534868951/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/11/8-just-like-game.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/758786680534868951'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/758786680534868951'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/11/8-just-like-game.html' title='8- Just like a Game'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-8277779173672829333</id><published>2011-11-06T07:22:00.001-08:00</published><updated>2011-11-06T07:22:57.569-08:00</updated><title type='text'>7- Os dissabores de um vencedor</title><content type='html'>Ninguém escreve nada para si próprio. Ninguém o é para si próprio.&lt;br /&gt;Posto isto e por isto, depois de um acidente que me molestou severamente as pernas, resolvi dar um revés no destino. Procurar dentro de mim as forças que são a chave de saída do impasse físico. Mas não o fiz só por mim. Fi-lo por todos.&lt;br /&gt;Resolvi adoptar a luminosa ética empresarial em todos os componentes da vida de um Ser-Humano. Assim como é possível optimizar os recursos de uma empresa com vista à melhoria até ao infinito, a vida quotidiana pode tirar proveito dessa maravilhosa lógica.&lt;br /&gt;Encontrar a redenção em diagramas de felicidade. Foi assim que nasceu o coaching e os seus frutuosos rebentos: o polígono da vida, o pentágono do amor, o trapézio dos negócios. Foi assim que me autopromovi em especialista da felicidade. Foi assim que a minha noiva me deixou depois de termos feito amor um sem-número de vezes. Na nossa última conversa, insinuou que quando o fazíamos, tudo não passava de uma espécie de masturbação a dois, sem verdadeira entrega – aqueles momentos – que entre nós se tornaram numerosos e permanentes, em que vemos o outro como uma realização da nossa fantasia. Tudo muito complicado, não é verdade?&lt;br /&gt;Depois… depois era vê-la passar na rua… perdida… irremediavelmente perdida, perguntando-me que força era essa que me impedia de a beijar e apalpar-lhe o rabo, coisa que nem vinte e quatro horas antes eu faria impunemente. Tudo muito complicado, não é verdade?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-8277779173672829333?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/8277779173672829333/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/11/7-os-dissabores-de-um-vencedor.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/8277779173672829333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/8277779173672829333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/11/7-os-dissabores-de-um-vencedor.html' title='7- Os dissabores de um vencedor'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-2220594120922757684</id><published>2011-10-26T13:01:00.001-07:00</published><updated>2011-10-26T13:01:42.021-07:00</updated><title type='text'>6- Les petites memoires</title><content type='html'>Hoje, soberana de madura idade, projecto-me respeitosamente num texto bucólico de um manual primário do estado novo. Aquela ingenuidade maldosa não podia senão fazer-me lembrar a tua pessoa.&lt;br /&gt;Confesso que decorei as tuas habilidades muito rápido. Nem eram assim tantas, talvez apenas as suficientes para unir dois desesperados da vida.&lt;br /&gt;Lembro-me como dispensámos as palavras na primeira vez que fizemos amor, vislumbrei de relance toda a porcaria e desolação que o nosso mundo abraçou, e uni-me a ti apenas num conjunto de verbos conjugados no infinitivo, proposições que pedem acusativo aguentam com um dativo e outras frases deliciosamente mal conjugadas.&lt;br /&gt;Depois, como previsto, afastei-me.&lt;br /&gt;Lembro-me como te embrenhaste numa montanha filosófica de rompante. Passava de manhã na biblioteca e via-te com duas torres de livros. Gritavas-me em furor: «olha, afina o Sócrates também era sofista! A filosofia começou com Platão!»; «olha, o Nietzsche é tão escolástico e romântico como os seus comparsas alemães!», olha..., olha… Confesso que muitas vezes foi a piedade cristã que me fez ouvir.&lt;br /&gt;Choveram ainda poemas! Centenas deles! Quadras, vilancetes, decassílabos, heptassílabos, rimas, paronímia e verso branco. A maior parte das vezes passavas desinteressado à cafetaria da esquina, olhando para um ponto invisível enquanto fumavas.&lt;br /&gt;Hoje, confesso, sei muito bem o que tudo isso significava. Aquela portentosa armadura conceptual, a parafernália de silogismos, as aliterações, oximoros, metáforas e antíteses: uma carta de amor, uma densa e interminável carta de amor.&lt;br /&gt;Mas que básicos que os homens são.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-2220594120922757684?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/2220594120922757684/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/6-les-petites-memoires.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2220594120922757684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2220594120922757684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/6-les-petites-memoires.html' title='6- Les petites memoires'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-4501651424768324271</id><published>2011-10-25T12:24:00.000-07:00</published><updated>2011-10-25T12:25:16.294-07:00</updated><title type='text'>5- Fim da História</title><content type='html'>Fui ensinada a acreditar. Afinal de contas, fui criada entre gente boa. Na minha infância era aquilo a que chamam uma wunderkind. As professoras apresentavam-me sempre como modelo quando havia inspecções na escola. Acontecia mesmo de não me deixarem responder às perguntas, pois sabiam de antemão que já era senhora daquelas lições. Esta foi a minha proto-história.&lt;br /&gt;A minha adolescência foi como que um alvorecer helenístico. Dominava como ninguém praticamente todas as línguas do mundo civilizado. Ainda a primeira borbulha despontava no meu rosto e já as prelecções de Tales a Aristóteles não me eram desconhecidas.&lt;br /&gt;Entretanto, o fim da adolescência abalou as minhas crenças e uma barbaridade desejos e sensações irrompeu pelas minhas fronteiras. Vesti-me de negro e deixei a pele empalidecer. A reclusão do meu quarto alternada com as saídas furtivas aos clubes góticos tornara-se um hábito, até que subitamente tudo me pareceu aborrecido e prepotente.&lt;br /&gt;Entrei na Idade Moderna da minha vida e dois amores me deixaram como uma terra escombros, o primeiro, por ingenuidade, o segundo, por vingança de ódios antigos…&lt;br /&gt;Disseram-me que a história se compunha com uma espécie de equilíbrio misterioso, algo profundamente misterioso mas certo.&lt;br /&gt;Hoje vejo a minha figura reflectida no espelho, o cabelo começa a perder elasticidade, as carnes tornam-se flácidas cada dia que passa e dos olhos despontam já as primeiras rugas de expressão. Já assim, na idade do respeito, tratam-me como uma criança que necessita ser corrigida, a mim, desempregada, só, um pouco fútil. Fim da história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-4501651424768324271?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/4501651424768324271/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/5-fim-da-historia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/4501651424768324271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/4501651424768324271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/5-fim-da-historia.html' title='5- Fim da História'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-2780425434205207814</id><published>2011-10-24T12:23:00.000-07:00</published><updated>2011-10-24T12:27:08.668-07:00</updated><title type='text'>4- A viagem</title><content type='html'>Construí a minha casa numa colina em Dahir-es-Salem. O clima não é tão agreste como se pensa por aí. Na verdade, é bastante ameno a maior parte do ano. A terra é cor de sangue e ventilada de tempos a tempos com as areias queimadas do deserto. As árvores frutificam, como o previsto, e o rio presenteia-nos duas vezes ao ano com um estranho milagre de multiplicação.&lt;br /&gt;A minha casa é espaçosa. A entrada encontra-se dividida em duas abóbadas ao jeito dos califas, ricamente ornamentadas cada vez que há festa, o que infelizmente acontece frequentemente. De resto, a maior parte do ano é o silêncio…&lt;br /&gt;Foi por esta altura que comecei a ouvir a voz.&lt;br /&gt;Inicialmente, nos fins de tarde pachorrentos de verão, sussurrava-me apenas uns gemidos difusos. Levantava-me na esperança de ver apenas qualquer altercação entre a criadagem, mas enquanto nada descobria a voz voltava.&lt;br /&gt;Digo num suspiro que com o tempo se tornou mais intensa e audível, dando-me a impressão, no intervalo do grito, de pronunciar um ou outro nome desenterrado do mundo dos mortos.&lt;br /&gt;Não tive alternativa senão fugir, fugir para longe, percorrer esse país infinito onde, em certos lugares a escassez de água mataria até o mais sagaz dos viajantes.&lt;br /&gt;Apenas nas noites instáveis do deserto, depois de deitado tudo ao poço da perdição, a verdade desenhava-se com clareza no fumo da fogueira, e via o nome dela escrito nos astros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-2780425434205207814?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/2780425434205207814/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/4-viagem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2780425434205207814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2780425434205207814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/4-viagem.html' title='4- A viagem'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-58304418053043461</id><published>2011-10-22T08:34:00.000-07:00</published><updated>2011-10-22T08:35:33.766-07:00</updated><title type='text'>3- Américo V., da vila de S.</title><content type='html'>Que vulto é aquele que se expande lentamente? É nada menos que Américo V., emérito cidadão da vila de S.&lt;br /&gt;Américo tem cerca de sessenta e cinco anos, estatura baixa, cabeleira grisalha e farta. O seus olhos ensanguentados conservam ainda o fulgor suevo que habitou já aquelas paragens.&lt;br /&gt;Américo claudica, tem uma bicicleta velha e a sua boca não alberga um único dente são. Bate na mulher todos os fins-de-semana, não porque isso lhe proporcione prazer mas por espírito de dever. Ela aceita os sopapos resignadamente.&lt;br /&gt;Américo gosta do clube de futebol da terra e de música popular. Sabemo-lo porque assiste religiosamente todos os domingos aos jogos, acompanhado pela esposa que lhe transporta o velho rádio tailandês de onde escuta o relato de outros jogos em simultâneo. Sabemos também que todos os sábados, e por vezes também aos domingos, coloca a sua música favorita no terraço de sua casa em alto volume. Os vizinhos divertem-se.&lt;br /&gt;Américo descobriu tardiamente que era insignificante e a música subiu de volume.&lt;br /&gt;Não se sabe até quando durará Américo. Porém suspeita-se que quando sentir a morte por perto, a música tocará a um volume nunca antes ouvido e fará um chinfrim danado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-58304418053043461?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/58304418053043461/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/americo-v-da-vila-de-s.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/58304418053043461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/58304418053043461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/americo-v-da-vila-de-s.html' title='3- Américo V., da vila de S.'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-7128218783749257454</id><published>2011-10-18T13:35:00.000-07:00</published><updated>2011-10-18T13:36:09.861-07:00</updated><title type='text'>Histórias tristes para pessoas alegres</title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-7128218783749257454?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/7128218783749257454/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/historias-tristes-para-pessoas-alegres_18.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7128218783749257454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7128218783749257454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/historias-tristes-para-pessoas-alegres_18.html' title='Histórias tristes para pessoas alegres'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-7383546160812296579</id><published>2011-10-18T11:50:00.001-07:00</published><updated>2011-10-18T13:35:40.978-07:00</updated><title type='text'>2- Manelito, o Maneta</title><content type='html'>Na aldeia onde cresci sempre fui feliz, principalmente durante a infância. Os miúdos reuniam-se sempre ao fim da tarde para fazer das suas. Tínhamos sempre a agenda muito preenchida. Ora eram as pequenas rixas entre nós, ora a caça de grilos que posteriormente eram usados como gladiadores, ora as idas aos ninhos, ora as épicas demandas de sardões assustadores.&lt;br /&gt;Pela altura das festas, fazíamos bombas com a pólvora seca dos foguetes que não rebentavam. Foi numa destas brincadeiras que o Manelito, o mais valente entre nós, perdeu a mão quando tentava cortar um foguete com uma faca de cozinha. Lembro-me como se fosse hoje de ver a sua mão desfeita em sangue e pedaços de carne. O alvoroço que não foi…&lt;br /&gt;Crescemos e estas brincadeiras foram substituídas por uma que agradava a todos: o galanteio das mocitas da zona. O Manelito também ia connosco, nervoso, cabisbaixo. Quando avistávamos uma ou duas mocitas conhecidas de algum de nós fazendo gazeta no muro da escola ou nas imediações do supermercado, os mais ousados logo se punham a tagarelar, e o Manelito enfiava o toco que lhe restava no bolso. Se não o conhecessem, talvez por alguns momentos ainda pensassem que era um rapazito vulgar com a mão no bolso. Lá se desenrolava a conversa (sobre quê?) e o Manelito lá se via obrigado a tirar a mão do bolso. Quando o fazia, as moçoilas logo descobriam o seu segredo. Então surgia uma súbita e inexplicável atenção para com o Manelito, e risinhos amáveis, e amaciamentos de pêlo, e o Manelito gostava, e o Manelito corava.&lt;br /&gt;Chegava-se a hora de jantar e voltávamos a casa. O Manelito agarrava um pau com a sua mão sá, e um pouco afastado dos restantes varejava tudo o que encontrava pelo caminho: pedras, casas, flores, chão, paredes, mato. Depois olhava-nos de relance com um ar de incompreendido. O silencia começava a reinar entre nós. Pelos vistos, todos o compreendiam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-7383546160812296579?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/7383546160812296579/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/historias-tristes-para-pessoas-alegres.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7383546160812296579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7383546160812296579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/historias-tristes-para-pessoas-alegres.html' title='2- Manelito, o Maneta'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-6012757002332461501</id><published>2011-10-18T11:49:00.000-07:00</published><updated>2011-10-18T11:54:55.413-07:00</updated><title type='text'>1- História e vida da Abécula</title><content type='html'>A história da Abécula é uma história triste. Portanto, desenganem-se os que procuram neste texto algum desanuviamento para as canseiras do dia-a-dia. Aqui não encontrarão consolo. Correm ainda o risco, se forem tão perspicazes como o autor que adiante atentamente se subscreve, de verem retratadas de forma crua as vossas frustrações na história da nossa triste Abécula. Fujam, mudem de canal, vão ver televisão ou comprar um daqueles romances bonitos enfezadinhos envoltos em cetim à venda nas prateleiras!&lt;br /&gt;Aqui encontrarão a dureza da vida em toda a sua violenta monotonia.&lt;br /&gt;E tenho dito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Abécula nasceu nos loucos e gloriosos anos 60, anos de hipes e de rocalhada e droga e folia. Consta que foi nesses anos que um artista americano do roque enfiou um balde de dejectos na cabeça em pleno concerto. Diz-se também que algumas seitas prodigalizavam o sexo como forma de libertação; outras bebiam sumo de laranja envenenado para encontrar os anjinhos mais cedo; outras adoravam os ratos, outras odiavam os ratos; algumas amavam os homens e outras afirmavam ser o homem a única e possível salvação de si mesmo e outras tolices que tal.&lt;br /&gt;Onde a nossa Abécula nasceu não existia nada disto. Apenas meia dúzia de casas, muita terra para trabalhar, um café e uma igreja com padre. Emparedada neste mundo, dois extremos se debatem na sua vida com igual veemência: os jogos de futebol dos gaiatos, único espectáculo que lhe é permitido porque conciliável com a lide de casa, já que a janela da cozinha tem vista para o terreiro; dois: o pau de marmeleiro do pai, cujos contornos, como diria o romancista, eram já seus velhos conhecidos. O caminho de casa para o ribeiro é trilhado quase unicamente pelos seus pés, mas um malfadado dia outros pés fazem o caminho desse ribeiro, e a virgindade da nossa Abécula é profanada por um velho putanheiro lá da terra.&lt;br /&gt;Não se sabe, como é óbvio, se a pobre da moça tirou algum prazer do acto. É possível que não, é possível que sim. De qualquer das formas, se não tirou deveria ter tirado, porque por aqueles breves momentos de penetração desajeitada haveria de pagar toda a sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho cometera a malvadez (e convenhamos, vulgaridade) de ejacular dentro das entranhas da rapariga. Os dias foram passando… o velho, como se não bastasse, teve ainda a desfaçatez de morrer de ataque cardíaco, a barriga cresceu e os pais da moça, que não eram tão católicos ao ponto de acreditar na virgindade da virgem Maria, ou então que a sua Abécula era uma Maria virgem, puseram-na fora da porta depois de uma valente sova de pau de marmeleiro. O pai esmerara-se na sova, de forma que toda a aldeia ouvisse essa requiem final da Abécula ao som da sinfonia de dor na qual era algoz e maestro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça fugiu para a cidade, e como era (apesar do que diziam na aldeia e ao contrário do que lhe chamou um puto com cara de rafeiro no último olhar que lançou ao amontoado de casas) uma moça séria, não foi pelo caminho da vida fácil, tentação a que se entregam muitas campónias mal se vêm livres das amarras do campo.&lt;br /&gt;Empregou-se como sopeira já com sete meses de gravidez, e graças à boa vontade da governanta, pôde dar à luz e ficar de cama uma semana sem correr o risco de despedimento.&lt;br /&gt;Entretanto, o rapaz cresce, e diga-se que não foi preciso crescer muito para que a moça compreendesse que se não quisesse que o seu filho fosse um indigente e ela uma pedinte toda a vida, teria que encontrar rapidamente um outro trabalho. Encontrou. Como empregada de balcão num centro comercial. Neste momento, o seu horário de trabalho dividia-se da seguinte forma: das 07h00 – 18H30 - sopeira; das 19h00 às 23h00 – empregada de balcão.&lt;br /&gt;O rendimento melhorou bastante. Resolveu comprar uma casa a prestações e meteu o filho num infantário privado. Acontece que os dois salários tornaram-se também insuficientes, pelo que decidiu arranjar um terceiro emprego: caixa de estação de serviço. Assim o seu horário de trabalho passou a ser: das 7h00 às 18h30 – sopeira; das 19h00 às 23h00 – empregada de balcão; das 24h00 às 05h00 – caixa. Com um pouco de jeito ainda durmo duas horas nos transportes, pensou.&lt;br /&gt;Alguns vizinhos lembram-se da moça. De todo o emaranhado acessório que contaram, apenas duas notas fortes e credíveis ressaltam: 1- ao pequeno nunca lhe faltou nada; 2- Tinha umas olheiras até ao rabo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-6012757002332461501?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/6012757002332461501/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/1-historia-e-vida-da-abecula.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6012757002332461501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6012757002332461501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/10/1-historia-e-vida-da-abecula.html' title='1- História e vida da Abécula'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-3408125143560327772</id><published>2011-09-05T13:00:00.000-07:00</published><updated>2011-09-05T13:01:01.714-07:00</updated><title type='text'>Eu e a minha miúda</title><content type='html'>Eu e a minha miúda gostamos muito um do outro. Porém, ao contrário do que se possa pensar (e pensa-se tanto hoje em dia!), esta relação a que eu chamo, sem mais delongas, de uma relação de amor, não nasceu espontaneamente, como uma flor de alecrim brota da terra nas condições mais inóspitas. Foi apenas depois de uma aturada reflexão, e sobretudo muito civismo de ambas as partes, que chegamos a um ponto que em economia chamamos de “ponto óptimo”.&lt;br /&gt;Passo a contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde muito cedo compreendemos que éramos profundamente diferentes. Ela gosta de pintura. Eu sei disso. Eu tenho um fascínio genuíno por dinheiro e gente rica. Ela também sabe disso. Embora tudo apontasse para um choque imediato de personalidades, as nossas almas sentiram que ninguém, por si só, é compatível com um único ser humano em todo o nosso vasto e azul planeta. Cognoscentes desta realidade, resolvemos alargar deliberadamente as nossas esferas de individualidade, unindo-nos apenas nas ocasiões estritamente necessárias, digo, estritamente necessárias. Quando quero sair saio. Não dou satisfações a ninguém. Ela tem a mesma liberdade. Por isto mesmo, o tempo que passamos juntos é sempre maravilhoso e cheio de novidades, incólume a toda essa pestilência sentimental de que se nutrem as relações doentias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não contamos as nossas desilusões, nem os nossos desejos. Mesmo as nossas virtudes parecem sair discretamente pela porta das traseiras quando nos inebriamos apenas com a presença um do outro. Foi desta engenhosa maneira que racionalizamos a nossa relação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes ela chega tarde e embriagada. Deduz, presumo, que àquela hora já estarei a dormir o sono dos justos. Mas não. Tenho o péssimo hábito (que nunca lhe contei), de acordar todos os dias, pontualmente, às seis horas da manhã, deixando o meu corpo repousado na cama até à hora de ir para o trabalho, enquanto a minha mente vaguei pelos locais mais insuspeitos. Sinto que ela se aproxima da cama e me observa, embora eu não a veja. Quando finalmente se deita, depois de arrastar vagarosamente as suas roupas para fora do corpo, uma miscelânea de cheiros invade o nosso leito quase conjugal: álcool, tabaco (muito) e sexo (muito). Percebo imediatamente que anda a dormir com outro ou outros homens. Não lhe pergunto nada nem a censuro por isso. Afinal também não sou nenhum santo.&lt;br /&gt;Recordo que acontece também o contrário. Quando chego a casa e a encontro prostrada no sofá, sei imediatamente que algum dos seus encontros furtivos falhou à última da hora, facto que, por um milésimo de segundo me provoca aquilo a que vulgarmente se chama prazer. Ela pergunta-me qualquer coisa muito rápida, e quando ouve uma qualquer sms chegar vitoriosa ao meu telemóvel, sinto no seu olhar algo a que podemos chamar ciúme, embora se desvaneça rapidamente.&lt;br /&gt;Foi num desses momentos em que, não há muito tempo, resolvi partilhar o sofá com ela. Coloquei-me por detrás e abracei-a. Tentei-a beijar e ela recusou. Conformado, encostei o meu ouvido ao seu peito, e pareceu-me mesmo que ouvia uma espécie de gotejar inaudível na sua respiração. Essa cadência fluía para um charco sem fundo, de onde se esvaía uma fumaça que rapidamente inundava a sala de estar. Nela pairavam nomes sem corpo, corpos sem nome… vidas e indulgências fingidas. Senti-me como que aturdido. Levantei-me bruscamente e dirigi-me à varanda para fumar um cigarro. Enquanto assim fazia, pensava em como as grandes cidades e civilizações forjaram os seus gloriosos impérios em planícies e vales ricos em água, que só por um grande acaso normalmente se localizam sobre falhas tectónicas, locais de risco elevado para a ocorrência de sismos e erupções vulcânicas. Pensava também nos mistérios do corpo e do ser humano, e de como neste século em que graças às maravilhas da ciência médica, nos achamos condenados a uma longa vida. Na minha mente, milhares de terminações nervosas e fluxos arteriais teciam o labirinto infinito do ciclo vital, enredado num fluxo agora muito bem conhecido da ciência, ao mesmo tempo que pensava que fenómenos raros como a alergia à água (algo insólito tendo em conta que o nosso corpo é constituído em sessenta por cento deste elemento), continua tão misterioso como há quinhentos anos atrás.&lt;br /&gt;O último episódio que guardo destas demonstrações de fraqueza aconteceu quando há pouco ela se cruzou comigo. A pobre não me viu, nem podia ver uma vez que uma larga avenida nos separava. Reparei nela por acaso. Vi que se entretinha a olhar para uma montra qualquer, com ar inocente e distraído. Nesse momento senti um abalo e um aperto enormes no peito que por pouco não me fez desfalecer. Nauseado, agarrei-me a um poste de iluminação pública e tentei recuperar o equilíbrio. Durante breves segundos, o meu cérebro implodiu num turbilhão terrível, até que me restabeleci. Voltei a cabeça para o local onde a vira, recobrei os sentidos e a vida voltou ao seu trilho.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-3408125143560327772?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/3408125143560327772/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/09/eu-e-minha-miuda.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3408125143560327772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3408125143560327772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/09/eu-e-minha-miuda.html' title='Eu e a minha miúda'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-2640086816184934134</id><published>2011-08-26T13:31:00.000-07:00</published><updated>2011-08-26T13:32:53.550-07:00</updated><title type='text'>Jonas e a Baleia</title><content type='html'>Consta que, em tempos, um homem viajou durante três dias dentro de uma baleia. Julgo não serem necessários mais alongamentos nesta matéria, não só porque esta é, a par de todos as outras profecias dos evangelhos, uma das histórias reproduzidas de sempre (e só não terá sido teatralizada tantas vezes como a Paixão de Cristo, dadas dificuldades de produção de tal espectáculo e ausência de uma quadra específica para o fazer); como também pelo facto de, e incorrendo já no risco do provincianismo, ser sempre importante tirar grandes e proveitosas ilações morais, como por certo o leitor o fará.&lt;br /&gt;Para a nossa narração, apenas dois factos nos parecem relevantes:&lt;br /&gt;a) Jonas decidiu empreender uma viagem. Fosse porque Deus assim o quis, fosse porque se encontrava acossado pelos inúmeros inimigos de Israel, ou por vontade missionária ou simplesmente para mudar de ares, o que é facto é que empreendeu de forma mais ou menos voluntária. Era contudo, aquilo a que podemos chamar um exilado da pátria, isto porque não temos critérios tão estreitos como a moderna teoria das relações internacionais que não considera assim os refugiados económicos, vulgo – imigrantes;&lt;br /&gt;b) Jonas teve um acidente de percurso durante a viagem marítima que o levava às praias douradas do oeste, e tendo sido jogado borda fora pelos companheiros de fortuna, que sabiamente adivinharam nele a pestilência do azar, foi resgatado por uma providencial baleia, que generosamente o alojou no seu ventre durante três dias e três noites até o devolver à segurança do solo firme.&lt;br /&gt;Como bom cristão que sou, tirei deste episódio bíblico algumas conclusões bastante proveitosas.&lt;br /&gt;Durante a minha vida recheada de peripécias, fui, eu próprio, exilado várias vezes, a maior parte das quais de livre vontade. Primeiro, por necessidade de aventura, de conhecer… enfim! Todas aquelas coisas em que os jovens se julgam inteiramente originais e que ao fim de contas são mais comuns. Durante as minhas aventuras dentro e fora da pátria mater, tive dezenas de quartos, companheiros de casa, discussões com senhorios e aventuras sexuais. A maior parte das vezes faltou-me dinheiro, mas era precisamente nessas alturas malfadadas que descobria a verdadeira utilidade das coisas. Descobri porque é que as gentes de Leste e os asiáticos bebem tanto chá. Segundo a minha dedução empírica, uma vez que estes povos periodicamente são assolados por vagas de fome, é de todo proveitoso que bebam chá com fartura. Pois sendo uma bebida que (venham lá com as histórias que quiserem), é basicamente água quente com um pouco de aroma, tem por efeito dilatar o estômago e assim se alivia a sensação de fome.&lt;br /&gt;Descobri também porque é que os italianos chamam “pomodoro” ao tomate. O termo italiano faz mais sentido do que todos os outros, porque “maçã de ouro” é ao que o tomate mais se assemelha. Realizei esta importante descoberta quando, estando eu refugiado em Itália, se me acabou o dinheiro. Gastei os meus últimos tostões num maço de tabaco de contrabando num beco de Nápoles. Note-se que chegar ao local com o dinheiro intacto era já um feito!&lt;br /&gt;A minha patroa da altura, vendo as minhas carnes diminuir dia para dia, e ficando um pouco sensibilizada com isso, já que trabalhava para ela em regime “não pago”, resolveu matar dois coelhos de uma só cajadada: fazer caridade e contribuir para a salvação da sua alminha (e quem sabe fazer caridade a mais alguém). Passou a oferecer-me, todas as sextas-feiras, um cesto de tomates, que eu, claro está, agradecia com o melhor sorriso e levava para casa. Lembro-me que a primeira vez que o fez, rifei-lhe umas moedas de 50 cêntimos de colecção que ela tinha expostas e fui comprar pão. Cheguei a casa e fiz uma bela sandes de tomate, que passou a meu menu diário.&lt;br /&gt;Estas e outras histórias que, estou certo, qualquer pé-rapado as deve ter em número bem mais abundante e recheadas de bastantes mais pormenores de fazer chorar as pedras da calçada, fizeram-me tirar bastantes conclusões úteis para a minha vida (e haverá coisa mais útil do que a utilidade?). A mais importante de todas, confesso, é que mais vale rico e com saúde do que pobre e doente.&lt;br /&gt;Quanto a Jonas e à baleia, lembrei-me deles, quando há pouco molhava os pés no mar. Olhava para o longo firmamento (onde algures será a América) e pensava que talvez um dia a baleia voltasse e me trouxesse algo. Por momentos, imaginei-a à beira mar a vomitar alguma coisa minha. Talvez uma par de calças rotas, umas meias e uns óculos de sol antigos.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-2640086816184934134?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/2640086816184934134/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/08/jonas-e-baleia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2640086816184934134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2640086816184934134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/08/jonas-e-baleia.html' title='Jonas e a Baleia'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-833730212917263906</id><published>2011-02-27T03:29:00.000-08:00</published><updated>2011-02-27T03:30:33.382-08:00</updated><title type='text'>V - O Poço da morte</title><content type='html'>Sim, conheci-o na minha infância. Era um rapaz muito calado, mas inteligente. A verdade é que quando alguém lhe ligava alguma, o que acontecia sempre por razões negativas, perdia amiúde a vontade de repetir a experiência. Você acredita nessas pessoas cuja existência se funda exclusivamente na expiação? Creio que o António carregava esse estigma. Bem, estigma? Será que lhe podemos chamar assim? Não sei.Ainda na escola primária fui um dos poucos que se interessou pelo seu caso. Sabe como é, aquela amizade pueril das crianças. Já pensei muitas vezes nesta questão nos seguintes termos: a infância constitui aquilo que podemos chamar um segundo regresso aos tempos primitivos. Pense bem: a formação de grupos, uma estratégia de sobrevivência tão antiga como o ser humano; a selecção dos mais fortes como líderes do grupo; a demarcação de territórios. Em tudo isto as crianças podem representar a mais encarniçada crueldade e o mais bonímio dos seres. A minha relação com o António baseava-se na amizade, mas não aquela amizade zoófila que alguns têm pela diferença. Não penso que fosse, de todo, um miúdo nervoso ou fraco. Pelo contrário, era daquele tipo de crianças que dão, em toda a sua figura, um aspecto geral de fragilidade, mas quando chamadas a responder a qualquer situação surpreendem pela valentia. Mas o pobre não podia ter feito muito mais do que o que fez. A professora e alguns dos amiguinhos ganharam-lhe um ódio de estimação. Ninguém sabia porquê. Lembro-me que andava já no quarto ano quando ele entrou para escola, e todos os intervalos lhe via as mãos negras da palmatória. Aquela era uma professora à antiga. Disseram-me que fazia uma espécie de divisão social na sala: os meninos ricos na frente, os remediados no meio e os pobres atrás. Assim, como uma ordem de preferência de aprendizagem. Um nojo! Como deve imaginar, o pobre do miúdo encontrava-se nesta última classe.Lembro-me que uma vez acabou-se-lhe o caderno. O miúdo estava preocupadíssimo, por isso emprestei-lhe um dos meus cadernos da catequese. Quando a professora descobriu isto, chamou-nos a todos da nossa classe fora da sala, trouxe o António por uma orelha e deu-lhe um arraial de bofetada ali mesmo na nossa frente. Pobre miúdo...!Um outro episódio estranho que se deu nessa escola foi quando descobriram um poço no meio do recreio, assim, um poço sem mais nem menos! Aconteceu quando um dos rapazes que jogava à bola tropeçou num buraco. Rapidamente os miúdos repararam que não se tratava de um buraco qualquer, para já, porque apesar do diâmetro reduzido, parecia ser mais profundo do que o habitual. A rapaziada juntou-se em torno daquilo, começou a escavar com as mãos e o buraco ia alargando, alargando. Chamaram os professores, que apercebendo-se do perigo da situação chamaram os homens da junta de freguesia para ver o que se podia fazer. Os homens chegaram, isolaram o buraco para os miúdos não se aproximarem e começaram a investigar, assim com ares de burro a olhar para um palácio. Como não sabiam o que fazer com aquilo, os homens chamaram malta da Câmara Municipal, que de imediato procedeu às investigações necessárias. Claro! Tudo com a competência que os operacionais camarários nos habituaram. Puseram-se a medir a profundidade do poço, mediram e mediram e não tinha fim, pelo que diziam os funcionários mais linguarudos. Chamaram os homens do ministério que, após algumas investigações, puseram cimento (literalmente) sobre o assunto e não se falou mais nisso. O recreio foi mudado de lugar e a zona foi isolada.O acontecimento em si talvez não seja tão insólito como se pensa, até porque isso do poço não ter fundo foi um mito que correu lá pela rapaziada. O que verdadeiramente me intrigou foi o António. Desde que descobriram o poço, passava dias e dias - todas as horas que tinha vagas a olhar para o poço. Olhava, acocorado sobre as suas pernas delgadíssimas, com os braços formando um trapézio sustentado nos joelhos para apoiar a cabeça. Mexia os lábios como se mastigasse em seco, esgueirava os olhos como se conseguisse ver o que ninguém via, o fundo do poço ou talvez outra coisa qualquer. Nunca lhe perguntei o que via ele, aliás, todos sabíamos que o miúdo era estranho, por isso, ou ninguém se deu ao trabalho de lhe perguntar, limitando-se a apupar ou, no meu caso, aceitar essas "fraquezas" do meu protegido como parte da embalagem.Esse episódio coincidiu também com uma das últimas vezes que vi o António enquanto miúdo. Sei que depois os pais mudaram-se para outro lado, e com toda a certeza ele também mudou de escola. Depois disso, voltei-o ver cá na terra, tinha ele já uns dezasseis ou dezassete anos. Estava com os pais a passear, por altura das festas da Nossa Senhora das Aflições, digamos, uma festividade que ninguém que se diga filho desta terra pode perder. O António estava já um homem feito para a idade que tinha. Apenas o reconheci pelos dentes e pelos olhos, duas características que tinha inconfundíveis. Continuava franzino, como sempre fora. Olhei de relance, hesitei ainda um ou dois minutos antes de o abordar, mas depois vi bem aqueles olhos e aqueles dentes e pensei: não, de certeza que é o António. Acho que ficou contente por me ver. Falamos durante um bom bocado de tempo. Disse-me que estava com o pai, que tinha vindo passar uns dias à terra e daí a pouco tempo voltava para Torres.Voltei-o ver uns dias mais tarde. Confesso que o achei um pouco sinistro, de semblante carregado caminhando sempre na mesma direcção. Foi nessa mesma semana, no domingo, que o encontrei na cercania de uma atracção conhecida por Poço da Morte. Uma das mais foleiras, por sinal. Não compreendo bem porque é que quem quer que seja se submete a um espectáculo degradante daqueles, melhor, paga para isso...! Talvez já tenha visto, já? Bem, aquilo é uma espécie de construção em forma cónica, toda de madeira claro está, uma vez que se destina a ser desmontada e transferida para outro lugar periodicamente. Normalmente, o cume dessa construção cónica é coberto por uma tenda normal, semelhante às do circo. O objectivo daquilo consiste em um, dois ou mais motociclistas tornearem o barril a alta velocidade. Por efeito dessa mesma velocidade, a moto ganha equilíbrio, dando a sensação de que se está a fazer a coisa mais perigosa do mundo, e porventura seria, se por algum momento de loucura um deles resolvesse travar ou lei da gravidade resolvesse abrir um excepção. Aquele poço da morte que vi lá na terra, por sinal, era dos mais velhos e decadentes que alguma vez havia visto. Cá fora, em frente da barraca, um jovem com os seus dez anos, montado em cima de uma moto que se mantinha em funcionamento enquanto rolava por duas esferas instaladas no chão, punha-se de pé na moto, largava pernas, braços, uma espécie da demonstração de perícia que esperava os espectadores lá dentro. Ora, o António vidrou-se naquilo, tanto foi o que compreendi pela conversa que tivemos cá fora. Segundo me contara, ele e o pai tinham ido a um desses espectáculos no domingo anterior. E não é que o moço engraçou com aquele espectáculo degradante?! Foi isso que percebi, a julgar pela primeira vez que em conversa com ele toquei nesse assunto. Ele ria-se e desculpava-se sempre de forma lacónica, o que era bem característico seu.Quando já se aproximava o fim da semana de festividades, e suponho, os tipos do Poço da Morte se preparavam para abalar para outra terra, vi-o novamente a passar para o mesmo sítio, especado em frente da entrada. Não resisti e perguntei-lhe:- Mas ouve lá, então porque é que voltaste este fim-de-semana a comprar o bilhete para ver esta porcaria? Vista lá algo de especial? Aquilo tem alguma graça?- Não sei! É suposto ter graça?...- Diz-me tu! Nunca vi ninguém tão fascinado com esta merda! Se queres que te diga, acho que isto nem devia ser permitido!&lt;br /&gt;- Porque dizes isso? Perguntou. Porque é perigoso?- Nada disso! Exactamente pelo contrário! Porque é uma fraude. Para fazer aquela bosta basta manter a velocidade da mota estável e não ter amor-próprio bastante para ganhar dinheiro à custa dessa proeza!&lt;br /&gt;- Explica-te melhor, continuou ele,&lt;br /&gt;- Oh António! Não evitei o riso. Parece que não és deste mundo!- Não Carlos, aquilo não tem que ter graça nenhuma, explicou-me. Apenas tive algumas ideias curiosas durante o espectáculo da semana passada.- Curiosas? Como curiosas?- Já te digo. Por exemplo, na semana passada, enquanto observava os primeiros motards que faziam o círculo perfeito a toda a velocidade, ocorreram-me algumas ideias que podes achar interessantes.- Então que ideias foram essas?- Pensei que o que impedia aqueles homens de cair das motos era a própria natureza.- A natureza...- Sim, a natureza, as leis da física. A força propulsora da velocidade, conseguida graças ao peso do objecto, cria aquilo que permite este tipo de movimentos assumir um equilíbrio gravitacional: o referencial de inércia.- Hmm. Parece interessante. Mas continuo a achar que vamos sempre saber o que é a lei da gravidade, bem como as suas excepções, sem que precisemos de saber o que é um referencial de inércia...- Carlos, para que saibas, o referencial de inércia é precisamente a lei da física que estabelece o equilíbrio necessário para que a terra descreva, em círculos concêntricos, as sua rotações em torno de si mesma e em volta do sol. No fundo, é graças a essa lei que todos vivemos.- Então e se algum dia ela se lembra de abrir um excepção? Gracejei eu...- Não sabemos. É possível. Aquilo a que chamamos leis da física, grosso modo, independentemente da regularidade e evidência que apresentem, terão sempre na sua base aquilo a que se chama "believe", ou seja, a crença de que assim vai continuar a ser até à eternidade.- Pois bem António... E se um dia as leis se defraudam a si próprias e abrem a tal excepção, por exemplo, para aqueles desgraçadotes que andam lá de moto de um lado para o outro.···- Precisamente esse é outro das coisas que me fascina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles, seguindo esta ideia do believe, são mais crentes do que todos os outros. Estão mais dependentes da lei da física do que todos os outros. Podemos mesmo dizer que a constância das leis da física é para eles o seu modo de vida, por isso o risco é para eles também um estilo de vida. Pois se um dia a física resolve abrir uma excepção de que tanto falas, serão eles os primeiros de todos nós a senti-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, pensei que tudo poderia fazer sentido numa lógica dentro da lógica. Pensava em grupelhos, seitas e outras merdas. Uma religião que adorasse um rato, e que se fosse fundamentada com o mínimo de rigor, poderia convencer um, dois, uma dúzia ou duas de malucos que saberão todas as suas canções e preces e para mim, um ser racional e pós-religioso, quando me deparasse com essa cena grotesca rir-me-ia interiormente (ou até na cara deles, quem sabe). Se tão só soubesse que agora mesmo, neste momento em que me afasto do António e daquele maldito poço penso em como tudo é estranho, como o acaso escolhe as pessoas que entram nas nossas vidas e como elas permanecem estranhas. Aquela moça, sim aquela, a da barriguinha saliente, não, não outra … a outra da mala verde. Mas seria verde a mala, poderia ser castanha ou aquela que gosta de rock ou hardcore ou metal ou house. Ah, como é belo este mundo e como é belo Portugal. Sempre que chego a uma cidade nova tudo me parece mágico, como são amáveis e dóceis as pessoas do meu país e como ele e eu (sim, ele e eu) permanecemos com os nossos destinos de mãos atadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra vez encontrou-me, e sem que me desse qualquer oportunidade (vinha com uns estranhos olhos esgazeados) de dizer um bom-dia que fosse, contou-me uma história bizarra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes Carlos, a história daquele tipo, já não me lembro onde e em que circunstâncias, estava preso numa espécie de prisão mongol. Foi deixado durante três longos meses numa cela minúscula, sem qualquer janela ou saída de ar, na solitária, portanto. Ao bom estilo mongol, já nem sei se eram mongóis os tipos que o prenderam, nem a cortesia de um balde para as necessidades tiveram a amabilidade de lhe deixar. O nosso malogrado homem, que apenas por acaso era um famoso matemático que o destino levou àquele país de loucos, viveu durante três meses, envolto numa atmosfera pútrida, com 200 gramas de pão por dia e a dormir e sentar no mesmo lugar onde cagava e  mijava, percebes? Acontece que era matemático, e a maneira mais proveitosa de escapar à solidão, violência e loucura foram os cálculos. Sim, os cálculos. Passava o dia a fazer cálculos, claro que sem qualquer meio para os anotar onde quer que fosse. Mediu com os pés a largura da sua cela (que, segundo sei, rondava os 1,20m) e calculou o número de passos, através do cálculo proporcional que o distanciavam do seu país, um país muito distante… a liberdade.&lt;br /&gt;- É um bonita história.&lt;br /&gt;- Sim, bonita e real. Mas será que o teu herói atribuiu algum significado transcendente à sua reclusão ou fez isso por puro instinto de sobrevivência, tal como um cadáver cuja electricidade estática faz o cadáver mexer os braços?&lt;br /&gt;- Não sei o que dizes. Se é o que penso, não acho que seja assim tão importante. O que é importante é que sobreviveu. A única forma de escapar à barbárie… um último reduto da dignidade, o seu intelecto que nem o mais bárbaro dos mongóis poderia tirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é apenas um dos exemplos interessantes das conversas que mantivemos nessa curta estadia do António.&lt;br /&gt;Sei apenas que com este tipo de comédias, como o observar um espectáculo ridículo sem que qualquer lógica sustente, pode enlouquecer um homem. Acho que é nessas ocasiões que um homem enlouquece, quando aprende a pensar a lógica fora da lógica, como se visse algo tão aterrador, ainda que por um minuto – a loucura para o resto da vida.&lt;br /&gt;Depois foi o que se soube.&lt;br /&gt;Mais uma vez, sem que qualquer lógica o sustentasse, o António, um rapaz inteligente, se bem que com um feitio peculiar, é verdade, juntou-se àquela máfia de bêbados fura-vidas. Não acha cómico tudo isto?&lt;br /&gt;Depois disso não soube muito mais dele. Ouvi dizer que fugiu com um sujeito lá para os quintos dos diabos. Não sei… Sinceramente não sei…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-833730212917263906?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/833730212917263906/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/02/v-o-poco-da-morte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/833730212917263906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/833730212917263906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/02/v-o-poco-da-morte.html' title='V - O Poço da morte'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-3025442052898549917</id><published>2011-02-13T09:39:00.001-08:00</published><updated>2011-02-13T09:39:25.688-08:00</updated><title type='text'>IV- Pióguin e o Palhaço</title><content type='html'>1.-&lt;br /&gt;Um dia sucedeu comprar um desses jornais sensacionalistas. Para começar, não sou um habitué neste tipo de leituras, aliás, abomino a imprensa tablóide. A verdade é que tinha boas razões para isso. Desejava evitar o confronto com uma certa pessoa - um chato que me perseguia há já algum tempo, e a maneira mais eficaz que encontrei de o fazer foi esconder a minha pesssoa num desses quiosques de rua. O jornal chamara-me a atenção apenas por uma notícia que figurava na capa. Falava de um jovem"asfixiado e degolado de seguida", algo insólito mesmo para quem já viu um pouco de tudo. Exlicava-se que a vítima apresentava escoriações na zona do pescoço, uma marca típica de asfixia mecânica, assim como um golpe, por sinal bem profundo, na mesma zona. Porque o faria o agressor, uma vez que a autopsia provara que a vítima já se encontrava morta aquando da segunda agressão? Seria algum ritual? Alguma força oculta exacerbada pelo ódio? Bem, não sabemos.. A verdade é que este tipo de agressões post mortem são relativamente raras, estado estritamente relacionadas com factores culturais e até históricas: veja-se o caso da damnatio ad eternum, largamente usada entre os povos da antiguidade.Telefonei ao meu colega Pereira, que a essa hora estaria no laboratório, e perguntei-lhe se sabia alguma coisa do cadáver. Respondeu-me que o o cadáver já não se encontrava na morgue, tendo sido naquele mesmo dia resgatado pela família. Porém, quem o tinha autopsiado dois dias antes confirmou, grosso modo, a informação do jornal - o corpo apresentava escoriações ligeiras na zona pélvica, hematomas diversos, um trilho de cicatrizes antigas (que são um verdadeiro livro da história pessoal do falecido). O relatório relevava, tal como o jornal, a cicatriz post mortem (facto que se afere pela coagulação sanguinia no local do golpe, que aliás, foi produzido por uma arma corto-contundente. Finalizava ainda que o jovem era cadáver há vários dias, apresentando livores na zona lombar (mais um sinal cadavérico bem clássico) e rigidez acentuada.&lt;br /&gt;Assim que tive algumas folgas do serviço, resolvi usar a minha influência junto dos órgãos da administração e seguir o rasto do jovem. Pedi algumas informações ao Pereira e dirigi-me ao registo civil, onde trabalha o meu caro amigo Serafim. Pedi-lhe nada menos que uma busca de identificação civil pelo nome, um meio eficaz e certeiro de chegarmos a bom-porto, oo qual se nos desvelou passados alguns minutos de pesquisa: o finado (embora a data de óbito ainda não figurasse no registo) chamava-se António Manuel Moreira, nascido em Setúbal, a 2 de Março de 1976, filho de Maria do Rosário Galvão e de Manuel Moreira. Por aqui pudemos constatar o seguinte: o jovem tomara o primeiro nome de seu pai como segundo nome; nascera dois anos depois da Revolução dos Cravos, e pouco mais.&lt;br /&gt;Depois de três dias de preparativos, fiz a minha primeira viagem até Setúbal, onde o GPS do meu carro me levou sem dificuldade até à morada que constava no registo civil de António. Como todo o bom detective que pretende resultados rápidos, dirigi-me ao tasco da zona, bebi um café e meti conversa com aquele que se veio a identificar mais tarde como o proprietário. Quando digo mais tarde, refiro-me ao facto de ter passado largos minutos em frente do balcão sem que vivalma se apresentasse para me servir. Um grupo de velhos locais jogavam um qualquer jogo, um outro velho mais abandonado fazia uma raspadinha no canto do café e um grupo de jovens, quiçá desocupados, falavam furiosamente à porta do café. Com esta cena tive o meu primeiro impacto com a cidade de Setúbal, se bem que este poderia ser o pano de fundo de uma qualquer narração em qualquer cidade dessa portugalidade profunda. Foi então que já preparado para sair, um dos velhotes que jogava às cartas se levantou e me perguntou o que desejava. Pedi uma bica e desejei que o homem não voltasse ao seu jogo, desejo este que se realizou (pelos vistos, a presença de clientes no balcão intimidavam-no). O silêncio já pesava entre mim e o velhote, e já cansado de fingir ler o jornal, resolvi-lhe falar do rapaz e da notícia do jornal. Como é mais do que óbvio, o bom senhor sabia perfeitamente de quem se tratava, não só porque conhecera os seus pais e o próprio quando ainda era pequeno, como também era assinante do jornal. Então pensei que a notícia tinha feito furor entre os habitués durante aqueles dias, a julgar pelas duas ou três cabeças que se voltaram na minha direcção quando ouviram alguns fragmentos da conversa.&lt;br /&gt;-É essa paneleiragem que anda praí, meu caro! Essa paneleiragem! Atirou o dono do café.O rapaz, pelos vistos, andava com um homem mais velho para todo lado. Talvez daí se tenha presumido que ambos eram homosexuais. Achei estranha esta catalogação imediata da vox populis, dado que não existia nenhuma referência à orientação sexual dos visados na notícia, sendo certo que esse facto, a ser conhecido, não escaparia à curiosidade do jornalista. Ainda segundo o proprietário, o rapaz "não era muito de vergar a mola", "de maneiras que se meteu por aí a vadiar, crava este crava aquele, pega neste pega naquele, e vai que quando já estava queimado em terra se aventurou no mar: Lisboa". Esta parte da biografia do moço já não era tão bem conhecida do proprietário, pelo que se depreende que todos os seus relatos desta época da vida do defunto se baseiam em suposições e conjecturas. Sabia que o moço, a dada altura, se meteu com essa malta do circo: os saltimbancos, e andava aí pelas terriolas a dar música à malta. A partir daqui, ao conjectural do relato juntou-se o caótico, tornando-se impossível discernir os factos. Resolvi tentar a minha sorte noutros lados. Perguntei ao homem se sabia onde viviam agora os pais do rapaz, ao que ele me respondeu que "lá prós lados de Alhandra".É óbvio que não confiei.&lt;br /&gt;Tentei novamente a minha com o Serafim a minha sorte para procurar a morada dos pais do António, e se da primeira vez me livrei das perguntas, o mesmo já não aconteceu da segunda vez em que lhe fui pedir um favor:&lt;br /&gt;- Mas ouve lá! O que é que tu pretendes com isto afinal? O homem é da tua família? Devia-te alguma coisa? Perguntou o Serafim.&lt;br /&gt;- É pá, não! Estou a fazer um trabalho lá para o meu departamento e achei o caso deste moço interessante. Não tenho nada com o defunto, mas ele apresentava algumas lesões post-mortem que me interessam para um trabalho que estou a fazer sobre o papel da coagulação sanguínea na determinação do momento da morte. Fui lá a Setúbal, mas não encontrei nada de especial.&lt;br /&gt;O Serafim abanou a cabeça como quem não compreende os incógnitos desígnios da Medicina Legal, os meandros da tanatologia que tanto sucesso faz hoje nas séries televisivas, e voltou à pesquisa pelo nome, aos resultados que já conhecíamos, a uma outra pesquisa pelas declarações de IRS, também inconclusiva, uma outra pesquisa pelo registo da segurança social, o que finalmente revelou alguma coisa. Os pais do rapaz não viviam para os lados de Alhandra, como tinha dito o raio do bêbado, mas sim na zona de Torres Novas, numa vilazita lá perto que me propus visitar no primeiro fim-de-semana que tivesse livre&lt;br /&gt;Cheguei a Torres Novas por volta das três da tarde, onde utilizei uma técnica semelhante àquela infrutuosa da visita a Setúbal. Fui ao café da zona, perguntei pelo Sr. Manuel e pela Sra. D. Maria Rosa. O dono do café conhecia-os mal, "só de de vista", mas sabia de um tipo da limpeza do condomínio que os conhecia melhor. Talvez me pudesse dizer onde os encontrar. Assim esperei mais uma hora no café, tempo estimado pelo dono para encontrar o tal sujeito, que de facto chegou. Contei-lhe o motivo que me levava lá e foi-me sugerido que esperasse pelas seis. Enquanto a hora se aproximava, as incertezas assaltavam-me. Como iria lidar com duas pessoas que acabavam de perder um filho, para mais de forma tão trágica? Como me apresentaria? Jornalista? Psicólogo do Estado? Quanto à primeira hipótese, se é certo que pessoas há que se desnudam diante dos jornalistas sem que lhes seja necessário pedir duas vezes, a verdade é que casos há em que os visados fogem dos homens do microfone como os gatos da água. A jogar pelo lado mais arriscado, decidi-me apresentar como enviado do Instituo Médico-Legal que, de resto, era o que estava mais próximo da realidade. Deveria falar tão rápido e sem menor hesitação, tão natural como a respiração.&lt;br /&gt;Encontrei os senhores passava já um pouco das seis da tarde. Eram um casal com cerca de 60 anos cada um, aparentavam humildade e preparavam-se para abrir as portas do edifício.&lt;br /&gt;- Boa tarde! O meu nome Gabriel Silva, venho do Instituto Médico-Legal e gostaria de lhes fazer algumas perguntas, se for possível... O homem olhou-me com olhar pesaroso, exibindo duas olheiras enormes de quem já não dorme correctamente ou simplesmente não dorme há vários dias. A senhora lançou-me um olhar um pouco mais evasivo, uns olhos vermelhos de tanto enxugar como se estivessem marejados de lágrimas durante vários dias.&lt;br /&gt;- Entre, faça favor, disse o homem a meia-voz. Subi.&lt;br /&gt;2.-&lt;br /&gt;A conversa começou de forma entrecortada, como não poderia deixar de ser, com uma breve apresentação da missão da minha visita. Enquanto falava, pude observar alguns dos retratos que enfeitavam a sala-de-estar. Vi molduras do casamento dos pais de António, algumas fotografias nas quais figuravam três elementos, pelo que supus que esse terceiro seria o seu filho. Em todas as fotos que aparecia era criança. Pelo menos, não consegui ver uma única foto em que reconhecesse os traços da criança num adolescente ou num adulto.&lt;br /&gt;Explicaram-me que o António fora sempre uma criança sossegada e, realce-se, com um talento natural para a escola. A mãe, aviltando para o céu uns olhos azuis aguados de loucura, dizia-me que o António tirava notas excelentes a tudo. Começara na escola muito entusiasmado, mas a dada altura, sem que ninguém o conseguisse explicar, começou a andar triste e cabisbaixo. Não se lhe conheceram amigos de brincadeiras ou aquelas namoraditas de escola que todos os miúdos têm, como explicou o pai. Ia para a escola, regressava a casa e enfiava-se no quarto. Não tinha posters de super-heróis nem de “heroínas”. Ao que parece, o seu fiel companheiro, mesmo quando não transportava consigo a sacola, era o seu caderno, que o acompanhava para todo lado.&lt;br /&gt;Assim andou até que se mudaram para Torres. Nessa altura tinha já idade de ir para o liceu, no entanto, ainda segundo a mãe, a rotina do jovem não sofrera quase nenhuma alteração, até que um belo dia avisou os pais que ia mudar de cidade. Ninguém o conseguiu impedir, pelos vistos, a esse rapazola que já era maior de idade. Depois soube a mãe por pessoas conhecidas, que o António se tinha junto a um grupo de saltimbancos e seguiu a carreira de palhaço. Pelos vistos, quem o metera lá fora um tal de Pelagio, um velho bêbado lá de Torres.&lt;br /&gt;- Se o vejo ainda lhe rebento com a cabeça, explodiu o pai. Esse paspalho bêbado desencaminhou o meu filho. Ninguém sabe o que lhe fizeram para se juntar àquele grupo de ociosos ignorantes! Se não tivesse encarreirado por aí talvez ainda fosse vivo e tivesse uma boa vida.&lt;br /&gt;Mas Deus assim não quis, acrescentou a mãe.&lt;br /&gt;Perguntei-lhes se sabiam onde podia eu encontrar esse tal de Pelagio, ou talvez a sua morada. O pai disse que não sabia ao certo, mas ouvira dizer que o sujeito estava num lar de terceira idade lá em Torres. Sabia ainda que, pelos vistos, o velho ainda bebia como uma cabrita.&lt;br /&gt;Não difícil encontrar o Lar onde supostamente se encontrava Pelágio. Bastou o primeiro nome na recepção para que me respondessem afirmativamente.&lt;br /&gt;Conduziram-me a um quarto velho por entre uns corredores de tinta descamada, uma espécie de antecâmara e representação do ser que albergavam.&lt;br /&gt;Talvez o termo "acabado" definisse com precisão toda a figura de Pelágio e o ambiente que o circundava. Os seus cabelos escasseavam no cimo da cabeça como as espigas erectas escasseiam num campo de milho após a poda; o seu bigode esbranquiçado ostentava uma enorme mancha amarela que nos fazia adivinhar o seu hábito desde há muitos anos. A sua estatura era mais para o baixo do que para o alto. As peles descaídas enfeitavam uma dessas caras que já viram muito , deformadas pelo cortejo de horrorres da vida, e um dia já viram tudo e continuam perdidas nessa floresta de enganos. Víamos numa pequena dobra acima da testa as canseiras do dia em que se acabou o dinheiro para comprar leite para a filha ainda bébé, e como desesperado correu toda a vizinhança à procura de um mísero pacote de leite e todos o negaram até que em desespero se dirigiu ao hospital e conseguiu alimentar a menina. Aquela pálpebra a pender sobre o olho fala-nos de todos esses trilhos e caminhos de terra que percorreu com os miseráveis do circo, as tardes inteiras a montar tenda e abalar a sete pés quando a coisa corre mal. Do fundo do olhar transparente, vê-se a imagem de uma menina que não queria ser miserável, cantar cançonetas num circo de terceira e apanhar porrada do pai, e um dia se torna-se uma bela mulher, embora já longe, muito longe...&lt;br /&gt;Encontrava-se sentado numa cadeira de repouso junto à cama dos anos vinte que lhe tinham generosamente cedido. Via televisão, um qualquer programa da manhã, parado, como quem está e não está. Quando o segurança lhe anunciou que tinha visitas, Pelágio olhou com indiferença na minha direcção, como que estranhamente esperando a minha visita, ou tomando a nossa visita pela visita de outra pessoa. Apertou-me a mão, revelando um vigor inesperado dos braços, embora fosse claro pelo seu estado de ânimo, que não era mais um desses pobres velhinhos que aproveitam qualquer oportunidade para pôr a conversa em dia, falar das suas aventuras passadas, do seus amores (sempre concretizados). Pelágio parecia escapar a este estereótipo. As primeiras palavras que me lançou pareceram sair a contragosto. Talvez por isso resolvi ir directo ao assunto e perguntei-lhe se tinha trabalhado no circo "Irmãos Carvinali".&lt;br /&gt;-Ah sim, esses bandalhos! Tive a infelicidade de os acompanhar durante algum tempo da minha vida.&lt;br /&gt;- E conheceu um rapaz que era palhaço? O António?&lt;br /&gt;- Sim, também me lembro desse bandalho. Andou por lá alguns tempos, pelo menos enquanto ninguém teve coragem de lhe dar um chuto no cú. Andava sempre bêbado como um cacho, se bem que eu, e todos nós, preferiamos ver o tipo bêbado. É que quando estava sóbrio dava pena olhar para ele. Sempre melancólico com os olhos no chão, a pensar na morte da bezerra. Um dia perguntei-lhe em que é que raio é que ele pensava. O safado apenas me respondeu :"-coisas". E prontos, lá estava... Só fazia porcaria! Olhava com cara de estúpido para toda a gente, uns olhos estranhos os daquele bardameco... Ficava com as bochechas e a ponta do nariz vermelhos como um tomate e abria um risinho estranho com os dois dentes da frente muito abertos à vista de toda a gente.&lt;br /&gt;- Então e quanto tempo andou ele convosco?&lt;br /&gt;- Eh sei lá! Aí uns dois anos. Um dia demos uns espectáculos aí numa terriola onde Judas perdeu as botas e as coisas deram pró torto. Houve um Domingo em que ficamos sem som e sem trapezista. Esse também era um bom bandalho, era... O gajo partiu as costelas, esteve no hospital uns tempos e depois ninguém mais o viu. Já o bandalho do Tony (assim chamava ao rapaz), um desses dias lá na terriola, foi lá um gajo falar com ele depois do espectáculo. Era um velhote careca, com cara de quem é mais mau do que a ferugem! A malta chegou a dizer que os dois eram ravetas. Não digo que não!... O outro gajo tinha uns olhos tipo... verdes .... e fundos... sem expressão. Parecia o raio de um demónio!&lt;br /&gt;- Não sabe, portanto, o que lhe aconteceu depois? Continuei.&lt;br /&gt;- Eh pá, não sei ao certo. Sei que um dos nossos, O Sansão, a quem nós chamavamos assim porque o tipo era o homem de ferro lá do circo, viu-os uma vez em Lisboa a dar espectáculo na rua. Na altura disse-me que não percebeu bem o que os gajos estavam ali a fazer. Só reparou que o careca falava alto para um grupo de pessoas e o Tony estava vestido à zé-povinho, com aquela cara de estúpido a olhar pra toda a gente. Vá lá um gajo saber... Se calhar eram mesmo paneleiros!&lt;br /&gt;- Olhe, Sr. Pelágio, sabe onde anda agora esse tal Sansão?&lt;br /&gt;-Ah, esse sei! Esse é bom moço! É trabalhador! E Moço esperto! Parece que agora é segurança numa casa de meninas lá em Lisboa. Ai esse bandalho!&lt;br /&gt;- Obrigadíssimo Sr. Pelágio, nem sabe como acaba de ajudar!&lt;br /&gt;- Mas lá o bêbado do Tony meteu-se em alguma foi?&lt;br /&gt;Pensei um pouco antes de responder, e como não estava com tempo nem disposição para explicar tudo de novo, esperar todo um coro de interjeições e bandalhos para trás e para diante, resolvi abreviar a conversa limitando-me a responder que não, que eram só os pais que queriam saber dele.&lt;br /&gt;- Entretanto precisa de alguma coisa, Sr Pelágio?&lt;br /&gt;- Meu amigo, se me pudesse arranjar um cigarrito. Aqui ninguém vende e já cravei demasiadas vezes os mesmos macacos.&lt;br /&gt;Dei-lhe o que restava do meu maço.&lt;br /&gt;3.-&lt;br /&gt;Há momentos em que não se faz nada de produtivo. Essa doce sonolência que a rotina traz aos dias abateram-se sobre mim como um torpedo nos dias seguintes à conversa com o "bandalho" do Pelágio. Tentei pôr as ideias no lugar e desenhar as futuras estratégias para seguir o rasto a António. Porque tinha ele abandonado os pais para se juntar a um bando de saltimbamcos no limiar da miséria? Porque deixou ele tudo para ir com aquele homem sinistrio com dotes de orador? Seria a sua homosexualidade, se de facto era homosexual? Porque tudo vale o que quer que seja, talvez o acto mais nobre da vida de um homem seja pôr cobro ao anonimato de uns e outros que passeiam pela vida, esses, que mortos viverão na memória de alguém. Mas a vida e identidade de um vale o anonimato de todos, um único organismo: as sensações, amor, sofrimento, alegria, tortura, injustiça de todos.&lt;br /&gt;Não foi fácil encontrar Sansão, pois porque Sansão não era o seu nome verdadeiro. Depois porque o Pelágio só sabia o primeiro nome do homem de ferro, pelo que se bloqueou a hipótese de recorrer novamente à ajuda preciosa do Serafim. Resolvi seguir por um caminho espinhoso. Não sendo eu frequentador desse tipo de estabelecimentos desdobrei-me em esforços para visitar uma dessas casas de perdição, conhecida de passagem.&lt;br /&gt;A minha primeirissima experiencia nesses ambientes foi péssima. Apenas acabado de chegar, uma mulher cuja cara parecia já ter sofrido topo tipo de injúrias, albergado todas as agressões e secreções humanas, perguntou se lhe pagava um copo. Repugnou-me, como me repugnavam todas outras. Bebi apenas uma imperial (que me custou os olhos da cara), dirigi-me ao segurança e perguntei-lhe se conhecia um tal de Vítor, segurança como ele numa casa da "especialidade", na esperança de ser verdade aquele mito que diz que no mundo incógnito da noite todos se conhecem (para o bem e para o mal). Talvez fosse um bom ponto para começar. De resto, acertar à primeira era quase impossível, pois Lisboa tem tantas casas de putas como o as flores abundam no jardim, facto bem conhecido desde o célebre General de Eça de Queirós.&lt;br /&gt;O segurança franziu a testa com estranheza e disse que não. Lembrei-me então de perguntar pela alcunha: o Sansão, e esse sim, que conhecia, que trabalhava lá numa casa para os lados do Cais do Sodré. Mas porque queria falar com ele afinal, perguntou-me o troglodita. Respondi-lhe que era colega do guinásio e precisava de conversar com ele sobre uns assuntos. O troglodita franziu mais uma vez a testa, não deixando de achar estranho que uma figura franzina como eu frequentasse o ginásio, mas lá aceitou a resposta por boa.&lt;br /&gt;Chegado ao outro local, trôpego no sufragar convidativo da noite Lisboeta, jovem virginal durante o dia, puta durante a noite, do local retive imediatamente o aspecto geral de chique foleiro, a luz vermelha ténue que sai das janelas e as mesmas caras que havia visto no lupanar anterior. A luz amarelada do Cais do Sodré, donde outrora se esperava a chegada de um Messias, estendia o seu braço de maresia de mortos ao mundo dos vivos, lambendo generosamente o edifício. A primeira figura com que me deparei à entrada foi um homem com os seus 34 anos, ligeiramente calvo e de aspecto robusto, embora não do género bovino como o seu colega. Deu-me uma boa noite em maus modos, e apeava-se já contra a parede para me ceder passagem, quando estranhou a minha hesitação na entrada. Perguntei-lhe se era ali que trabalhava o Sansão.&lt;br /&gt;-Talvez... Quem deseja falar com ele?&lt;br /&gt;- O meu nome é Gabriel e preciso de falar com Vítor. Um amigo dele, o António, faleceu há umas semanas atrás.&lt;br /&gt;- É da polícia? Quem lhe disse que o Vítor era amigo do António?&lt;br /&gt;- Se era amigo ou não, disso não tenho a certeza. Estou aqui pelos pais do António, que estão em grande sofrimento e precisam de ver esclarecidas as circunstâncias da morte do seu filho.&lt;br /&gt;- Já não vejo esse sujeito há alguns anos. Há dias reconheci a foto dele no jornal.&lt;br /&gt;- É você o Vítor?&lt;br /&gt;- Sim, sou eu. A malta chama-me Sansão mas prefiro que me trate por Vítor.&lt;br /&gt;- Muito bem! Encantado!&lt;br /&gt;- Isto fecha daí a uma hora. Por volta das quatro já estarei disponível para falar consigo. Encontramo-nos aqui à porta.&lt;br /&gt;- Muito bem, combinado, disse eu.&lt;br /&gt;Resolvi não me afastar muito do local. Embora esteja arredado destas lides nocturnas há já alguns anos, sempre que me lanço no seu abraço negro atrai-me, como diria o contista, "uma estranha força". Resolvi então apear-me numa roulotte da cercania de uma discoteca e comer alguma coisa enquanto observava os grupos de jovens (alguns muito jovens) cambaleando embriagados para os bares e discotecas. Via alguns grupos ainda maiores, às vezes com raparigas apenas, numa embriaguez em que até as pedras da calçada parecem caminhar bêbadas, vacilantes a cada passo que as pisa, flutuando em ebriez geral com os edifícios decadentes.&lt;br /&gt;Acabei o cachorro e caminhei a passo acelerado para a porta do lupanar, onde encontrei Vítor à minha espera fumando um cigarro.&lt;br /&gt;- Peço desculpa, esperou muito por mim?&lt;br /&gt;- Não, estou aqui só há dois minutos. Não se preocupe. Podemos ir ali a um after comer alguma coisa e falar um pouco.&lt;br /&gt;- Venha, podemos ir no meu carro. Está ali estacionado, disse eu.&lt;br /&gt;- Não se preocupe. O after é já na rua paralela. Podemos ir a pé.&lt;br /&gt;Caminhamos lado a lado, eu e Vítor, em silêncio, cruzando-nos com os mochos piadores habituais de Lisboa, os mesmos grupelhos, jovens de ar sinistro, prostitutas de rua, sem-abrigo. Encontramos o after, que me pareceu uma tasca normalíssima e sentamo-nos. Apenas dois bêbados enfeitavam o balcão com a cabeça apoiada nas mãos.&lt;br /&gt;- Então, come qualquer coisa? Perguntou Vítor,&lt;br /&gt;- Não não! Muito obrigado! Acabei de comer.&lt;br /&gt;- Então vou pedir alguma coisa para mim.Vítor pediu uma bifana e uma imperial. Comia sem me dirigir a palavra. O silêncio começava a tornar-se pesado, quando resolvi quebrar o gelo. Afinal sentia-me nessa obrigação, já que tinha sido eu o provocador de tudo aquilo.&lt;br /&gt;- Porque é que acha que aconteceu aquilo, Vítor?&lt;br /&gt;- Aquilo o quê? fez-se de desentendido.&lt;br /&gt;- Aquilo com o António. Leu a notícia, não leu?&lt;br /&gt;- Sim, li. Não me espanta nada.&lt;br /&gt;- Porque é que diz isso? Há uns dias atrás falei com um senhor que disse ser seu antigo colega dos tempos em que trabalhava no circo. Conhece o Sr. Pelágio?&lt;br /&gt;- Sim coheço! Isso foi há muito tempo. Sinceramente, é uma parte da minha vida que prefiro esquecer.&lt;br /&gt;- Mas porquê, não gostava do que fazia?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;A partir daqui compreendi que não valia a pena insistir no assunto, pois que o meu interlocutor se mostrava de todo indisposto para continuar nesse tema.&lt;br /&gt;- Mas ainda não respondeu à minha pergunta, Vítor. Porque acha que aconteceu aquilo ao António. Acha que ele se meteu com más companhias? Foi isso que o Pelágio insinuou...&lt;br /&gt;- O Pelágio é um velho bêbado! Desde que se zangou com a filha que não bate bem da bola.&lt;br /&gt;- Ele disse-me que o António abandonou o circo para ir com um homem sinistro que conheceu após um espectáculo desastroso. Lembra-se disso? O Pelágio insinuou mesmo uma relação homosexual...&lt;br /&gt;- Não me parece, cortou Vítor. O António estava doente.O que aconteceu depois foi apenas uma conclusão natural do que já era suposto acontecer.&lt;br /&gt;- Estava doente? De que tipo de doença sofria? Os pais do António não me falaram nada sobre isso.&lt;br /&gt;- Estava doente mas não de uma doença daquelas que se curam com medicamentos, umas visitas ao médico e uns dias de cama. A sua era uma doença da alma, uma espécie de cancro na alma que si ia espalhando até se tornar fatal.&lt;br /&gt;- Como é que sabe isso?&lt;br /&gt;- Reconheço-o pelos sintomas...&lt;br /&gt;- Pelos sintomas? O Pelágio disse-me também ter sido você foi o último a saber o paradeiro do António. Viu-o cá em Lisboa com o tal sujeito sinistro, não foi?&lt;br /&gt;- Pióguin. Esse sujeito chama-se Pióguin.&lt;br /&gt;- E acha que o Pióguin tem algo a ver com a morte do António?&lt;br /&gt;- Não sei. Como lhe disse o bêbado, a última vez que o vi foi há algum tempo, talvez uns dois anos. Estava com o Pióguin perto do Chiado.&lt;br /&gt;- Mas estavam a fazer o quê, concretamente? Esta parte do relato do Pelágio não compreendi bem. O que fazia então esse Pióguin, e o que fazia o António com ele?&lt;br /&gt;- Pióguin é um pregador. Creio que lhe podemos chamar Pregador.&lt;br /&gt;- E o que prega ele?&lt;br /&gt;- Ao que consegui ouvir e ao que me disseram algumas pessoas que também ouviram, parece que falava num tal "Recomeçar da História". Não me pergunte o que queria dizer com isso. Tudo o que posso dizer é que tinha uma cabeça calva ameaçadora e um olhar vazio, mas tão vazio e tão amplo de espaço que tudo poderia caber lá dentro...&lt;br /&gt;- Que fazia o António com ele?&lt;br /&gt;- O António não fazia nem dizia nada. Limitava-se a ficar calado, vestido de palhaço, com aquele olhar e risos sinistros olhava fixamente todos os presentes como se os ameaçasse de algo, mas sem palavras. Lá ficava, com as bochechas e nariz rosadas, uma figura ainda mais cómica do que a do palhaço convencional, mas o que é certo é que ninguém se ria.&lt;br /&gt;- Então afinal o que vinha a ser aquilo? Disse eu.&lt;br /&gt;- Não sei. Sei que só o Pióguin falava em gestos lentos e decididos, enquanto o António acompanhava o discurso calado e sorrindo para todos. O mais estranho é que os presentes só olhavam para o António. Ninguém parecia olhar para o Pióguin.&lt;br /&gt;- Estranho... Faz ideia do que queria dizer ele com aquilo?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Recomeço da história... Acha que alguma vez a história parou?, disparei eu.&lt;br /&gt;- Acho que não, mas talvez aparente ter parado. A única coisa de que não tenho dúvidas é que personagens como o Pióguin surgem em contextos muito especiais.&lt;br /&gt;- Como assim? Perguntei eu.&lt;br /&gt;- Não é que eles não existam noutras épocas, mas como que ficam hibernados durante esse tempo, até que farejam a altura certa para sair do casulo.&lt;br /&gt;- Sim, compreendo... Qual achas que é o papel do António no meio desta história?&lt;br /&gt;- O António? O António é o palhaço! Conhece alguma comédia sem palhaços? Toda aquela gente que se fixava assustada no António via-o como o seu espelho de medo.&lt;br /&gt;- Mas medo de quê, perguntei eu?&lt;br /&gt;- Medo do que está para vir.&lt;br /&gt;- Então e você Vítor? Porque acha que tudo isso é como diz? O que acha que levou o António a acompanhar o Pióguin?&lt;br /&gt;- Não, sei. Talvez a mesma razão absurda que me colocou na posição de lacaio numa casa de putas de terceira, em vez de numa bela zona residencial da cidade, com uma esposa bonita e dedicada e com dois filhos inteligentes.&lt;br /&gt;- Compreendo Vítor... Mas isso incomoda-o assim tanto?&lt;br /&gt;- Já não incomoda. São apenas sombras, eu, você, o António e o Pióguin. Todos sombras.&lt;br /&gt;A partir daqui a conversa voltou a banalidades, como sempre acontece numa conversa de trintões, o tempode acabarmos de comer, pagar e sair.&lt;br /&gt;De novo na rua, uma estranha névoa da primeira luz do dia envolvia as ruas do Cais do Sodré, e os edifícios agora semi-descobertos pareciam-se conformar na sua inevitável ressaca, Despedi-me do Vítor. Observava-o enquanto atravessava a estrada, como o seu imponente físico parecia adelgaçar com a distância. Não se voltou nem percebeu que ainda o observava, nem mesmo quando, sem que ele me observasse, levantava a mão numa saudação eterna e dizia a meia voz:&lt;br /&gt;- Adeus homem-de-ferro! Adeus...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-3025442052898549917?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/3025442052898549917/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/02/iv-pioguin-e-o-palhaco_13.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3025442052898549917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3025442052898549917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/02/iv-pioguin-e-o-palhaco_13.html' title='IV- Pióguin e o Palhaço'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-1809245018979612301</id><published>2011-02-13T09:29:00.001-08:00</published><updated>2011-02-13T09:29:59.730-08:00</updated><title type='text'>III- Gabriel e o Anjo</title><content type='html'>1.&lt;br /&gt;Na quinta-feira passada decorreu a apresentação do primeiro livro de poesia de Gabriel Meteco, na casa do livro desta cidade. Sim, foi poesia que se leu, ouviu e comentou durante todo aquele tempo. Alguns pensam, quiçá com razão, que publicar poesia tornou-se um pouco obsoleto, mas o nosso herói já se habituou a lutar contra as adversidades, e após muita persistência e espírito de guerreiro, lá conseguiu publicar os seus versos.&lt;br /&gt;Existe ainda a questão levantada por algumas estranhas opções do mercado editorial, dando-se mesmo o caso de se publicar poesia sentimental. O que fazer, afinal, se mesmo os melhores dizem que se tornou impossível fazer poesia depois de Pessoa…!?&lt;br /&gt;Com Gabriel encontrava-se o director da editora, o senhor Marmeleto que, segundo se diz até à exaustão na imprensa da especialidade, tem sido um autêntico Porto-Seguro da produção literária neste país. Era um homem calvo, alto e de tendões bem salientes no pescoço, ainda mais destacados pela forma como se inclinava na direcção do público. De resto, o auditório da Casa do Livro estava, como se diz na gíria popular – refeitinho, decorado por uma assistência nada despicienda para eventos desta natureza. Entre os presentes poderíamos encontrar:&lt;br /&gt;*Marta Sofia Cavaleiro Miranda&lt;br /&gt;Carolina Martins&lt;br /&gt;Jennifer Collins&lt;br /&gt;João Ribeiro Mendes&lt;br /&gt;Carlos Meteco&lt;br /&gt;Tiago Martel&lt;br /&gt;Carlos Maciel&lt;br /&gt;Martim Pontes&lt;br /&gt;Júlia Crisóstomo&lt;br /&gt;Rui Martins Salcede&lt;br /&gt;Luís Miranda Neves&lt;br /&gt;Maria Quintanilha&lt;br /&gt;João Ferreira&lt;br /&gt;Paulo Cunha Martins&lt;br /&gt;Sandra Oliveira&lt;br /&gt;Helder Santos&lt;br /&gt;Helder Marques&lt;br /&gt;Silvia Meteco&lt;br /&gt;Vítor Matias&lt;br /&gt;Sérgio Ribeiro&lt;br /&gt;Bárbara Calisto Mendes&lt;br /&gt;Custódio Campos&lt;br /&gt;Patrícia Fialho.&lt;br /&gt;Não se pode dizer que fossem todos especialistas da matéria, mas eram, pelo menos, pessoas interessadas quer pelo tema, quer pelo autor. Em boa verdade, a maioria eram seus amigos e conhecidos, que pelo menos, honra lhes seja feita, se deram ao trabalho de estar presentes, o que não é coisa pouca neste tempo de iliteracia.&lt;br /&gt;No fim da apresentação, após a leitura de um par de poemas (o tempo era escasso), o nosso autor reiterou os agradecimentos que havia feito no início, não sem acrescentar um último poema, tirado do bolso num papel amarrotado à última da hora:&lt;br /&gt;"Se me dou a conhecer&lt;br /&gt;Fico fora do baralho,&lt;br /&gt;Comprai minhas obras,&lt;br /&gt;Remunerai meu trabalho"&lt;br /&gt;Os convidados sorriram e quase todos quiseram dar dois dedos de conversa com Meteco, nem que fosse apenas para o felicitar. Sabemos mesmo, de fonte segura, que um ou outro levava já empunhado o seu livro em caça do autógrafo. Falou-se muito e de tudo: sobre as crises, que vão e que voltam, não sem deixar alguns náufragos irreversíveis, como perspicazmente afirmou um senhor gorducho que desde o início da sessão apalpava o pescoço. O Senhor Esteves, segundo outros tantos, uma autoridade nas "Economias", como ele gosta de dizer, no plural, foi mesmo peremptório quanto à necessidade das crises. "Assim se limpa o mercado de quem não interessa", afirmou com poses graves.&lt;br /&gt;Segundo dizem os seus conhecidos, e o próprio Meteco confirma, as questões práticas, como sejam a economia, a política, o corta aqui e põe acolá, não lhe interessam, "porque todas ignoram o substrato essencial do ser humano, que é ser Homem e reflectir sobre e na própria existência". Certo que hoje, nesta assistência composta por gente mais ou menos aficionada, Gabriel não terá que se digladiar em argumentos desesperados com os desgraçados dos tecnocratas, esses que nunca tiveram tanta razão como nos dias de hoje. Normalmente, o seu trunfo tirado da manga consiste num "mas a técnica socorre-se das ferramentas da imaginação!" , coisa que resulta incompreensível para os seus ouvintes.&lt;br /&gt;Os petiscos continuam a rolar pela casa fora, servidos pelas mãos velozes dos funcionários da empresa de Catering, e os convidados lá vão conversando animadamente.&lt;br /&gt;Como anfitrião cortês que é, Gabriel vai deslizando de grupo em grupo, adaptando a conversa sempre que necessário, ora fazendo rir a senhora entradota, ora gabando a beleza da filha ou da netinha - "E toca piano, para além de ser boa-aluna", não raro lhe dizem as matriarcas. Sorri, desliza para o grupo dos cépticos, o grupo dos que nada sabem de poesia, dos que apenas conhecem as anedotas e temas eróticos do Bocage, mas que avaliam a qualidade de um dos seus pelo respectivo sucesso, seja em que domínio for. Cada um dos membros deste grupo tem uma espécie de pontuação imaginária, que sobe ou desce de acordo com os seus feitos, evolução da carreira, etc. Se se evolui no respectivo grau e título académico, o peito do visado incha um pouco no próximo evento social com os comparsas, que naturalmente já lhe prestam a devida reverência. Ninguém mais se atreverá a dar a garfada na área do nosso hiper-graduado sem pensar duas vezes, já que a presença da sumidade da matéria tem o efeito galvanizador de que o grupo "já se encontra composto" quanto àquela matéria. No caso de Meteco, a verdade é que foi sempre com alguma condescendência que o aceitaram, nas conversas de esplanada de Domingo ao. Meteco não passa de um vulgar funcionário público que, como se não bastasse o imobilismo já inerente à profissão, permite esta que os amigos saibam, em via aberta e publicada, cada movimento de progressão da sua carreira e respectivo salário que lhe acresce, de maneira que se encontra numa posição delicada para quem gosta de fazer "bluff". A atitude do grupo para com o poeta mudou radicalmente a partir do momento em que souberam que ia publicar algo. Digamos que, quando soou nos seus ouvidos a frase "O Meteco vai publicar um livro de poesia", apenas retiveram a palavra "publicar" de todo o conjunto. Depois, por associação, veio-lhes à mente a palavra "fama", a palavra "vendas" e "editora" e, não por remota associação, a palavra "dinheiro".&lt;br /&gt;Foi também do grupo dos cépticos que surgiu uma personagem estranha. Um homem com os seus quarenta anos, de calças de ganga coçadas e camisa à pescador, o que o distingue claramente, pela indumentária (e pela negativa) dos restantes. Apesar disso, os cépticos parecem não reparar nele, embora o integrem num círculo perfeito, como se um amigo de longa data se tratasse. Quando perdeu o fio à meada na conversa, Meteco resolveu dar dois dedos de conversa com o único elemento do círculo que permanecia calado. Quis saber quem era. Perguntou-lhe o nome,&lt;br /&gt;- Anjo.&lt;br /&gt;Meteco riu e elogiou o bom sentido de humor e disposição do seu interlocutor. Mas certamente que mesmo os anjos têm nome!!&lt;br /&gt;- Chama-me apenas Anjo…&lt;br /&gt;- Ok, um brincalhão... Pois então senhor Anjo, gostou da apresentação, está a pensar comprar o livro? O Anjo franziu a testa e respondeu-lhe a contragosto;&lt;br /&gt;- Pois tenho eu outro remédio senão dizer que gostei e que lhe vou comprar o livro? Meteco reagiu com um assombro momentâneo, logo controlado pela sua atitude aristocrática,&lt;br /&gt;- Pois calma meu amigo! Não é obrigado nada! Não fique maldisposto! Estamos aqui entre amigos e entre amigos não se encontra pruridos desse género!&lt;br /&gt;- Pois!, riu o Anjo, vai dizendo isso para ti próprio que ainda te convences! E desata numa risada maliciosa que irrita profundamente o nosso autor.&lt;br /&gt;Para disfarçar o nervoso miudinho que lhe percorreu todo o corpo, Meteco bebeu um trago largo de whisky. Quando voltou a olhar em frente já não viu o Anjo. Entretanto, para aliviar a tensão, voltou-se para o companheiro da direita e disse: - Viste-me só este tipo que estava aqui?&lt;br /&gt;– Qual tipo?&lt;br /&gt;– Este que estava aqui à minha frente de calças de ganga e camisa xadrez.&lt;br /&gt;- Deves estar a sonhar! Aí não estava ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela foi aquela a que podemos chamar: a primeira aparição do Anjo. Partimos do princípio, ainda sem dados suficientes, para afirmar que se tratou ipso facto de uma aparição. Vejamos melhor: segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa, Vol1, Verbo edit, p. 284 : "Aparição:(do lat. Apparitio, -õnis) (1) Acto de surgir, de aparecer – Aparecimento chegada (2) Manifestação súbita de um ser sobrenatural sob uma forma visível; (3) Visão de fantasmas, espectros ou de outros seres sobrenaturais; (4) Fantasma, espectro, alma do outro mundo; (5) Começo de alguma coisa – Aparecimento origem (6) Rel. Festa instituída pela Igreja Católica para celebrar o dia em que Cristo apareceu aos apóstolos, após a Ressurreição.”. Perante tal auxílio bibliográfico, não temos a menor dúvida em subsumir o insólito acontecimento no qual foi interveniente Meteco a qualquer um destes significados (excepto o referido em (6), como é óbvio). Assumindo igualmente que aos entes de outro mundo é suposto "aparecer", para que se lhes dê o estatuto de atrás referido, devem estes também "desaparecer" subitamente e sem deixar rasto. A segunda fonte de que nos podemos socorrer para atestar a "Aparição", prende-se com a briosa cultura do nosso país, onde (não tão raro como se pensa), senhoras vestidas de branco aparecem em cima de azinheiras a crianças de coração puro. Seguimos essa tradição, bem como os relatos da época, para classificar o insólito como algo de inatingível ao olho humano e, pois claro, algo de ímpar beleza. Aqui já não nos é tão generoso o apoio das fontes, dado que estamos já em condições de saber que o suposto ente aparecido nada tinha que se assemelhasse a angelical, sendo antes aparentado do marginal. Uma personagem semi-andrajosa que, como se não bastasse, insinua de forma não muito subtil aquilo que todos os lúcidos presentes já sabem: que a poesia de Meteco é lamentável e que é o próprio seu maior admirador. Não será mesmo difícil admitir, caso o talento não se repercuta nas vendas, que o autor atribuirá tal descalabro à nova censura levada a cabo pelo mercado editorial, à concorrência desleal do autores consagrados e até, quiçá, à terra que não se deixa salgar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que, como não poderia deixar de ser, houve lugar a uma segunda aparição, que ao contrário da primeira, não se poderá chamar com plena propriedade de aparição. Isto porque desta vez foi Gabriel que apareceu ao Anjo, e não o contrário. Viu-o debruçado num quiosque de rua, pouco antes de comprar um daqueles diários modernos que escorrem crime e assombro. Assim que reconheceu a figura do Anjo, o que não era difícil até porque a indumentária não tinha mudado, Meteco correu atrás da figura que se começava a confundir na multidão. O Anjo não desapareceu. Foi alcançado pelo poeta, que lhe colocou a mão no ombro e virou de forma suave. O Anjo reconheceu imediatamente a figura familiar e esboçou uma espécie de sorriso irónico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora viva! Bom os olhos o vejam! disse-lhe Meteco;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viva!, disse o Anjo não muito surpreendido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então lembra-se de mim? Sou Gabriel Meteco. Encontrei-o anteontem na apresentação do meu primeiro livro - um livro de poesia. O Anjo fitava-o com ar zangado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois, como poderia esquecer, se fui ver PRECISAMENTE a sua apresentação?! E se aí fui para o ver A SI! Meteco estremeceu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ena! Que mau feitio! Sabia que se lembrava de mim! Era uma pergunta retórica! Olhe, gostaria de continuar a nossa conversa devidamente irrigada por um cafézito? Podemos ir já ali à esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, claro..., responde o Anjo a contragosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegados ao café, o poeta ajeitava nervosamente as mangas do sobretudo, pois tornara-se já claro que a figura do Anjo o intimidava, essa figura semi-andrajosa recostada na cadeira de meio-sorriso cheio de uma ironia e segurança que faz tremer até os mais convictos.Sem saber como quebrar o gelo à discussão, Meteco arriscou algo bastante evasivo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então há muito tempo que gosta de poesia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, de boa poesia, há bastante tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- mmm.... Muito bem! Então gostou da minha apresentação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O anjo franziu a testa como quem evita responder, ou como quem já sabe o que vai responder mas não o faz para não matar logo à partida a discussão ou quem sabe, imbuído de paixão cristã pelo autor? Meteco compreendeu o que significava aquele gesto, por isso atreveu um pouco mais o discurso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com toda a franqueza, sei que por vezes nos inventamos como o reflexo do quem queremos ser. Pode ser também que as pessoas não são tão sinceras connosco quando se trata das nossas realizações, enfim! Por simpatia... Mas a si, que já vi que não é hipócrita… O que lhe parece a si? Sinceramente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Anjo irrompeu zangado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que é que isso importa compadre? Não acha que um dia todo fluirá para o mesmo caos, nada importando quem e o que é que se faz de bom ou mau?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não queria pensar em termos tão abstractos... Assim... quer dizer, nada valia a pena de nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se calhar não vale. O certo é que nada valerá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então como sabe? Adivinha o futuro? É algum bruxo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bruxo não sou e também não adivinho, mas porque não sou bruxo e não adivinho posso dizer que SEI, o que é bastante diferente de adivinhar não acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahh! Mas isto está a melhorar? Então afinal é mesmo um Anjo, e não estava simplesmente bêbado quando se apresentou há dois dias atrás?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah ah ah! Você para além de poeta é idiota!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem! Entra-se na brincadeira. Então diga-me lá, senhor Anjo, porque é que V. Exª, com tantas personalidades ilustres infinitamente mais importantes do que este humilde servo de Deus, resolve-lhe aparecer para anunciar banalidades?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Calhou, por acaso... Não pense que o Patrão está tão ocupado que não repara em si, mas quanto à minha aparição, isso, é puramente casual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas se é puramente casual, certo que tem algo para me dizer… Ou caiu do espaço só para anunciar que é um Anjo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O espaço... sabe Meteco, qual foi o primeiro homem no espaço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, sei. Foi o cosmonauta soviético Yuri Gagarin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe, em 1961, quando Yuri Gagarin foi lançado para o Espaço, houve uma grande expectativa quanto ao que ele poderia ver por lá. Como sabe, a humanidade sempre idealizou o céu como a "Casa de Deus". Quem sabe se Gagarin não poderia ver por lá o Reino dos Céus? Talvez por isso, numa das suas primeiras declarações após o regresso à Terra, tenha dito que não viu Deus, apenas matéria escura. Uma quantidade infinita de matéria escura...Meteco bocejava como quem não dá demasiada importância ao que se diz, tomando a pequena incursão histórica como mais uma zombaria,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, Sr Anjo, ainda não respondeu à minha pergunta... O Anjo recompôs-se e soltou com ar desdenhoso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, já me esquecia. Vim para lhe dizer que vossemecê está doente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meteco olhou com ódio o Anjo, como quem está prestes a impor um murro nas fuças, mas mais uma vez o seu sentido de humor o salva de uma situação embaraçosa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas agora o Patrão preocupa-se com quem está doente, é? Há milhões de pessoas doentes no mundo, e todos os dias umas adoecem, outras morrem de doença e outras curam-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De acordo Meteco. Também não vejo o que isso tenha de especial, mas insistiu tanto que lá tive que lhe dizer alguma coisa, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se o meu amigo o diz... E posso saber de que tipo de doença sofro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caramba Meteco! Também não sou médico! Sou um simples Anjo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um Anjo que se deu a todo este trabalho apenas para me dizer que estou doente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Exactamente! Os Anjos dos tempos modernos têm estas funções muito pragmáticas, muito terra a terra. Quantos Anjos destes não terá encontrado na sua vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não sei do que está a falar, respondeu zangado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alegre-se homem! Uma coisa lhe garanto: pior do que agora nunca será, compreende?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, muito bem Sr. Anjo! Mas posso saber então do que se trata?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh Meteco, mas acredita mesmo nisso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nisso? Em quê?,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso de existirem pessoas doentes e pessoas saudáveis? Olhe para ali! O Anjo apontou pela montra do café para uma multidão indistinta que caminhava a passo acelerado para a boca do metro. Crê que ali existe um único saudável?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Até pode ser que não, mas pelo menos não têm Anjos a profetizarem a desgraça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso é apenas um pormenor sem importância. O facto de eu estar aqui ao seu lado a dizer-lhe todas estas coisas, precisamente a SI e não a um DELES é pura casualidade. Agora, se me dá licença, tenho mais que fazer. Foi um prazer falar consigo Meteco. O Anjo levantava-se e preparava-se para sair;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espere, disse Meteco. Vou voltar a vê-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca se sabe, nunca se sabe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escusado será dizer que nos dias seguintes, a vida de Meteco deu uma volta considerável, para não dizer de 360 graus, como concluem os mais espirituosos. Encontrou-se subitamente num verdadeiro frenesi de procura de médicos, embora tivesse que começar, digamos assim, pelo início. Consultou o seu médico de família que, conforme os ditames das boas práticas profissionais, lhe prescreveu umas análises para avaliar a bioquímica - uma espécie de check-up. Fez os exames e passada uma semana voltou com eles ao seu médico. O médico não viu neles nada de especial, aliás, não virá nada de especial até ao momento em que resolveu efectuar um exame tópico de reflexos no seu paciente. Feito isto, emudeceu e limitou-se a escrever, escrever. No final da missiva indicou que gostaria que o nosso poeta fosse consultado por um médico neurologista, assim "só para ter a certeza", "para ficar-mos de consciência tranquila". Esqueceu-se apenas de dizer quem deveria ficar de consciência tranquila com a nova consulta, mas essa última parte também Meteco não teve curiosidade de saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco tempo depois consultou o médico neurologista, um homem jovem, de cerca de trinta e três anos, em quem era bem visível o pouco tempo que tinha de especialidade. O doutor fez o mesmo exame tópico que o médico de família lhe fizera, embora com um pouco mais de paciência e de desenvolvimento. Sentou-se na poltrona que servia de cadeira de trabalho e começou por escrever algo, e talvez Meteco compreendesse um pouco mais do que estava a ser narrado naquela missiva se soubesse ler de pernas para o ar. Acabada a carta, o médico neurologista fez um novo exame físico ao paciente, pressionando alguns nervos do braço esquerdo ao mesmo tempo que lhe pedia que contraísse os músculos. Gabriel colaborou em tudo o que lhe foi solicitado, até porque no relatório que o médico escreveu no seu computador pessoal contava, na rubrica: "estado psicológico do paciente", o seguinte: "Paciente calmo, coordenado e colaborante". Ordenou, finalmente, a Gabriel um exame conhecido por TAC (Tomografia Axial Computadorizada) para, segundo o clínico, obter um diagnóstico mais completo.&lt;br /&gt;Nesse mesmo dia, Gabriel ligou a um amigo seu médico, um homem muito competente e simpático - um progressista dentro da sua área profissional, segundo lhe chamam alguns colegas com quem simpatiza. Pois escreveu recentemente um artigo sobre o uso de células estaminais e manipulação genética que vai muito além do que alguns querem admitir, invocando estes últimos considerações de ordem ética para inquinar as investigações. Gabriel ligou ao seu amigo por duas razões: primeiro: porque não confia nos médicos. Sempre que as circunstâncias o obrigam a visitar essa espécie humana dotada de particular cinismo, segundo a sua opinião, tem a sensação de que lhe ocultam algo, seja porque é grave, seja porque não o consideram relevante. Em segundo lugar, porque para além da estranha sensação de não saber de tudo, Gabriel encontra-se quase paralisado por um medo animal que lhe percorria todo o corpo, impedindo-o de ter o mais breve pensamento positivo que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de narrar sucintamente o seu historial clínico recente, o amigo respondeu-lhe algo que já tinha ouvido por duas vezes. Que os sintomas dos quais se queixa são comuns a um número infindável de problemas, que apenas se pode tirar conclusões quando se tiver mais resultados de exames (daí a importância de um diagnóstico tão completo quanto possível) e que enfim, mais valia acalmar-se e descansar.&lt;br /&gt;Chegado a casa, razoavelmente mais tranquilo, Gabriel cumpriu basicamente todas as tarefas rotineiras que costuma cumprir, a saber:&lt;br /&gt;- Lavou a louça com detergente da loiça, marca "Lavatudo", recipiente de 250cl;&lt;br /&gt;- Cozinhou um magnífico rolo de carne (de porco e legumes), assado no forno com batata:&lt;br /&gt;- Bebeu quarenta centilitros de refrigerante, marca kopiCola;&lt;br /&gt;- Fumou um cigarro, marca Marbello;&lt;br /&gt;Quando terminou a ceia, Gabriel lavou novamente a loiça e procurou enfiar-se na cama. Ainda antes de dormir, continuou a leitura de um livro que há já algumas semanas figura em lugar de destaque da sua mesa-de-cabeceira: um livro de desenvolvimento pessoal chamado:”Como ser espontâneo em dez lições". Adormeceu no sono dos justos, mas por volta das quatro horas da madrugada acordou em silêncio, completamente suado. Virou a cabeça ainda zonza do sono para ligar a luz. Acendeu o candeeiro, tirou a camisa do pijama, bebeu um copo de água e voltou-se a deitar. Ainda antes de dormir, pensava no mundo e como há tantas coisas e tanta gente, e como a sua dor, vista universalmente, é insignificante. Pensava e via retratos imaginários na parede e um grito surdo que ecoa quase indistinguível de todo o resto, mas ali, presente. E porque ninguém vê, ninguém sente, esse grito que ecoa pelas paredes, como a vibração natural da terra desde o Big Bang.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, Meteco levantou-se com uma pesada dor de cabeça. Afrontou-lhe o seu rosto no espelho, as rugas que se lhe cravavam com cada vez maior nitidez nas fontes. Há muitos anos que olhava o mesmo espelho e parecia que desde então a sua cara não mudara, pelo menos desde a adolescência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo caminho encontrou ainda o seu amigo de infância - Colosso, um homem alto de 43 anos que lhe resumiu a sua vida recente. Despediu-se com um breve adeus que poderia querer dizer até já, ou até breve ou até nunca mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou ao edifício onde deveria fazer o exame marcado para aquele dia, fazendo pouco caso de como os edifícios que se ocupam da sanidade são exteriormente indiferentes a ela. A sua vez chegara. Despiu a sua roupa e subiu para a máquina que examinaria as suas entranhas. À medida que deslizava pelo tapete pareceu que faria aqui a sua primeira viagem espacial, o cosmonauta das entranhas. Convém dizer que o aparelho onde agora Meteco se encontra a postos para a sua primeira viagem é uma máquina de terceira geração. Quer isto dizer que mal deslizou para a forma esférica de cerca de setenta centímetros, o gantry, ou ampola de raios X que serão emitidos através do corpo do poeta e recepcionados pelo lado oposto da esfera, que por sua vez enviará a informação ao sistema informático instalado para o efeito. Recorde-se que este prodígio tecnológico só é possível graças ao "capital" que constitui o corpo humano, que ao recepcionar a radiação e assim dar uma imagem de acordo com a respectiva quantidade de radiação absorvida pelos tecidos (radiodensidade). A imagem assim transmitida permitirá ao analista identificar pontos nodosos ou simplesmente "duvidosos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A máquina descreveu mais uma volta completa, e enquanto o fazia Gabriel recostou a cabeça e viu ainda uma imagem fugidia do Anjo. Depois fechou os olhos e viu apenas matéria escura. Uma infinidade de matéria escura tal como outrora tinha visto Yuri Gagarin e que tanto desiludira o mundo dos vivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Os nomes aqui expostos foram compostos aleatoriamente. Qualquer semelhança com nomes de pessoas REAIS é pura coincidência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-1809245018979612301?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/1809245018979612301/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/02/iii-gabriel-e-o-anjo_13.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/1809245018979612301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/1809245018979612301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2011/02/iii-gabriel-e-o-anjo_13.html' title='III- Gabriel e o Anjo'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-6536012631293894615</id><published>2010-12-28T10:29:00.000-08:00</published><updated>2010-12-30T12:47:34.858-08:00</updated><title type='text'>II - O circo chegou à aldeia</title><content type='html'>Que cores são essas que se alongam pelo céu? Que barulho é esse que se espalha a toda a aldeia? O circo chegou, a aldeia é pequena mas nem por isso se pode dizer que não se fala de outra coisa. Os espectáculos são poucos, a televisão tem dois canais, a missa é de frequência obrigatória e o circo... o circo, só atrai as crianças...&lt;br /&gt;Durante a semana, os miúdos tinham organizado algumas visitas informais ao espaço onde se encontra acampado o circo. Diziam que havia ursos. Bem, fui ver os ursos, mas quando lá cheguei a criatura que se me deparou era mais magra e menos peluda do que o meu cão!  Atiramos algumas côdeas de pão ao pobre do bicho que as perseguia atarantado, tal era a fome que pairava por aqueles lados. Havia também um macaquinho ao qual os camaradas circenses davam o carinhoso nome de "chêta". O desgraçado mordia as grades com desespero cada vez que nos via, engolindo sem mastigar os pequenos pedaços de pão que lhe atirávamos. O urso rugia e abanava o atrelado, furioso e ciumento da popularidade do seu compincha! "-Olha lá os bichos Venâncio!", dizia um dos circenses para outro. "-Se vejo um destes fedelhos a atirar pedras aos bichos dou-lhes um tareia que nem sabem onde se metem!" Olhamos receosos e pensamos em ver aquela fauna em acção no Domingo.&lt;br /&gt;Estamos nos anos noventa, e noventa por cento da população na região dedica-se à indústria. Em terra de operários não há muitos divertimentos, excepto aquelas historietas que vão passando de boca em boca, do fulano que anda com fulana, os cortes na casaca, os maridos que batem nas mulheres, as santinhas que fazem milagres, os bruxos e bruxas e endireitas cujo conhecimento da anotomia humana espanta todos os que a ele se dirigem. As raparigas casam aos dezanove anos com o primeiro namorado, que quando tem a "caça assegurada" só quer partir para outra, mas elas não querem porque é pecado e porque as cuscuvilheiras da vila vão comentar o caso, e porque nenhuma moça que se preze quer ser comentada ou ser como a fruta da feira que todos apalpam mas nenhum leva. As mais jeitosas vão mantendo a auto-estima em alta, mas os anos vão passando e as ondas crescem à sua volta como na ermida de S. Simião, e cercam-lhe as ondas e que grandes são...&lt;br /&gt;O Domingo chegou para pôr cobro à nossa ânsia. Estamos a caminho da tenda, antes um campo abandonado, agora palco de proezas que nos vão deixar estonteados. Começamos por ver uma estranha fumaça ao longe, próximo do local da bicharada. Intrigamo-nos com aquilo. À medida que nos aproximávamos, víamos que o fumo provinha de algo vivo que se abanava em movimentos uniformes. Essa espécie de turbina castanha balançava-se ao ritmo da música pimba que saía dos holofotes. Quando chegamos suficientemente perto do local para ver do que se tratava, vimos que a turbina castanha era o ursito magro que ensaiva um desajeitados pulos, sucedâneos de uma espécie de dança certamente aprendida "a toque de caixa". Estranhei quando distingui claramente as costelas salientes no lombo do urso. Um rapazito vestido de palhaço de olhar triste na entrada da tenda suja dá as boas vindas aos recém-chegados com um aceno de mão mecânico tão forçado que dá pena. Entramos. As bancadas do circo rangem por todos os lados, dando a impressão que se vão despenhar a qualquer momento. Sentamos-nos, para desgraça nossa, tarde demais, junto de um funcionário da escola, o que nosso entender deveria senão impedir pelo menos limitar as nossas expansões. Começa o espectáculo. Uma senhora de meia-idade anuncia o início das hostilidades e apercebemo-nos que isso está para acontecer e o nosso coração dá três pulos de alegria. Entra o trapezista com corridas para trás e para diante, joga com um cone, dois, três quatro, tudo ao mesmo tempo. A criançada rejubila, o artista corre para trás e para diante. O número mais arriscado é anunciado pela apresentadora: "- E agora, o nosso trapezista Paquito vai tentar o seu número arríscadíssimo em conjunto com a sua filha: a pequena Natasha! Para realizar este número o nosso artista conta com um colchão, um belo colchão de paralelos!!" Quando acaba de dizer paralelos, a anunciadora desata uma gargalhada enigmática e triunfal, como se fôssemos testemunhas de algo inédito, que por grande sorte, para nossa grande sorte de campónios, estivessemos no ponto de ser brindados com a primeira vez em que um grande trapezista de longa carreira arrisca a sua vida. Correu bem, o levantamento da pequena Natasha para o trapézio, mesmo com a mão magoada de Paquito. Má sorte, a gargalhada da senhora acabaria por se tornar profetizadora. Logo de seguida, o nosso Paquito volta às habilidades em chão firme - o equilibrismo de pratos, mas eis que enquanto corre de uma fila a outra cai com o seu corpo no "colchão de paralelos" em grande estrondo soltando um grito lancinante. Todos nos levantamos e gememos como se partilhássemos da estupefacção e dor de Paquito, que quase heroicamente se levanta e continua o número com sacrifício visível.&lt;br /&gt;A apresentadora entrou de novo e desculpou-se pelo sucedido e irrompeu com um inesperado périplo sobre a perigosa vida de artista e anunciou a vinda dos palhaços. Os palhaços entraram, pobres, com pouco jeito, um mais velhote que faria o papel de palhaço "sério", outro mais novo e já com olhos de bêbado, que faria o papel de palhaço sem-juízo. Mal tinham acabado as primeiras piadas do género: "-Lembras-te quando os teus pais casaram? Lembro!", o sistema de som falhou. Os palhaços olham um para o outro, olham para a apresentadora, olham para o público. Ninguém compreende o que se passa. A apresentadora ausenta-se um pouco e em breve está de volta em frente do público. Anuncia uma falha técnica no sistema de som do circo. Pede o silêncio geral do público para o a performance, já que agora os comediantes terão que actuar sem microfones e adverte os espectadores, quiçá inutilmente, que devido ao problema de som os estes poderão não compreender uma série de piadas. Acaba-se o espectáculo dos palhaços de forma tão desastrada que o público parece com vontade de chorar em vez de rir. Segue-se um novo número, um número com animais selvagens, anúncia a apresentadora. Entra um domador que mais parece arrumador (embora não existissem na altura) que coloca uma tábua entre dois barris. Entra o urso/cão, o pobrezito de costelas à vista, que para além de dançarino parece que também é trapezista. Sobe para um dos barris, o domador bate com uma vara e o urso começa a travessia. A habilidade do urso parece tão ridícula aos presentes, mormente quando recobra forças para uma nova passeata, que um dos espectadores solta: "-É bem mandado, esse caralho!" O resto do público solta uma  risada geral. Termina-se, sem deixar saudade, o número do urso esfaimado. Entra o número dos animais domesticados: os cães - disputam um acirrado jogo de bola arbitrados por um tipo vestido de fato-macaco azul. Os canitos lá começam a partida, ora hesitando, ora correndo atabalhoadamente, ora ganindo, o árbitro lá os vai conduzindo. Subitamente, sem que ninguém o esperasse, sobretudo de cães com um aspecto tão frágil e maltratado, começam uma terrível briga entre si, forçando o árbitro a distribuir pontapés a torto e a direito. Não tinha ainda terminado a briga quando uma porca (ou porco) de dimensões consideráveis (parecia o único animal correctamente alimentado naquele circo) corre pela arena levando os cães a direito na sua fuga furiosa. O treinador tenta impedir a porca, lançando-se de braços abertos para o animal, que guina para o lado. Aqui o público solta pela primeira vez uma gargalhada poderosa e sincera. Nós os miúdos, até ali um pouco tolhidos pela presença intimidante do funcionário, perdemos todo o nosso escrúpulo quando vimos o nosso algoz completamente extasiado, ainda mais extasiado do que a porca. Dois outros circenses acorrem ao local e conseguem enxotar a porca a pontapé para a saída da arena. Ficamos sem saber se tinha sido capturada ou não. Número seguinte: a cantoria! Um menina com os seus dez anos entra na arena para cantar "a Cinderela", de Carlos Paião. Sobranceiro aos seus lindos cabelos, ostenta um portentoso olhos negro, sobre o qual interrogamos o funcionário: "-Sr. Chico, será que a menina caiu?", perguntamos;  "-Elas é que lhe devem ter caído!", responde com uma gargalhada o pândego do funcionário. Faltava ainda a actuação do homem de ferro, que pelos vistos era a principal atracção daquela noite, a julgar pela ordem cronológica dos performers. Um jovem dos seus vinte anos entra na arena já em tronco-nú. Um lacaio de serviço dá-lhe algumas vergastadas no lombo para comprovar a sua robustez aos presentes. Ficam apenas as marcas da vergasta nas costas do jovem, e quiçá se não o acompanharão para ao resto da sua vida? Parte algumas garrafas de vinho e deita-se em cima, naquilo a que a apresentadora chamava orgulhosamente de "O Colchão". Quando se levanta, traz ainda alguns vidros colados às costas, sacudidos pelo capataz. As marcas da vergasta permanecem.&lt;br /&gt;Continuam as trapalhadas até que o circo dá, finalmente, por encerrada a sessão. Olhamos uns para os outros com um ar triste e contido. Passamos pela cela onde novamente pontificam o urso/cão e o macaco "Chêta". Os circenses levantam a tenda no dia seguinte e ninguém mais os vê pela terra . Mais tarde, correria um rumor pela aldeia que o homem de ferro namorou durante essa semana um rapariga da terra, e que chegou mesmo a ligar-lhe algumas vezes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-6536012631293894615?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/6536012631293894615/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/ii-o-circo-chegou-aldeia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6536012631293894615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6536012631293894615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/ii-o-circo-chegou-aldeia.html' title='II - O circo chegou à aldeia'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-2150310547532297790</id><published>2010-12-25T06:44:00.000-08:00</published><updated>2010-12-25T06:47:34.874-08:00</updated><title type='text'>I - Um Homem Bom</title><content type='html'>João Silva é aquilo a que podemos chamar “Um Homem Bom”. Tem 45 anos, uma família (uma bela esposa, dois filhos inteligentes, uma casa, um cão), uma casa de duas assoalhadas e um carro de classe média. Na linha daquilo que tem sido nos dias de hoje uma raridade, João tem também um emprego. O seu emprego é bem pago e permite-lhe cobrir quase todas as despesas com a casa e a família. Recentemente começou a encetar esforços sérios para escrever de acordo com o novo acordo ortográfico. &lt;br /&gt;Certa vez, em conversa com os seus amigos, alguém suscitou o caso de João ter aquilo a que se chama um emprego estranho. Digamos que seu emprego consiste em nada menos do que entrar numa sala (bastante limpa), sentar – se numa cadeira de madeira e carregar num botão. Alguém mais sagaz do grupo teve a curiosidade de lhe perguntar o que fazia em concreto. “Como em concreto? Carrego no botão e já está! É sobretudo um trabalho de paciência. Devo repetir o gesto de hora a hora, pelo que o controlo rigoroso do tempo é essencial! Reconheço que de início custa um pouco, isto é, torna-se um pouco monótono, mas com o tempo a gente habitua-se.” Um outro elemento do grupo, o qual poderíamos chamar de “o maledicente”, sorriu, como não poderia deixar de ser, com maledicência, e acrescentou: “Ok! Já percebemos isso! Mas queremos saber em concreto para que serve o que fazes. Os seus efeitos, compreendes? O que é que se produz?” João sorriu nervoso e respondeu que não sabia. Que se limita a carregar no botão. Depois, em jeito de justificação, teceu graves considerações sobre a especialização do trabalho, a informatização, a terciarização da economia de que o século XXI é o expoente máximo. Falou ainda na hiper-especialização e na informatização e na mudança do valor do trabalho. Quando terminou, poder-se-ia dizer, sem exagero, que todos estavam razoavelmente esclarecidos. &lt;br /&gt;Dirigia-se para casa e reflectia sobre aquilo que havia pouco tinha dito. Não tinha pensado nisso nunca e sentia-se mesmo tentado a comentar o caso com a esposa, que foi o que fez. &lt;br /&gt;O único comentário tecido pelo cônjuge ao recente problema existencial do marido não o satisfez. Limitou-se a dizer: “Cada um sabe de si e Deus sabe de todos!”. Com a esposa não se pode comentar o caso, parece líquido. &lt;br /&gt;No dia seguinte voltou ao trabalho convencido daquilo que fazia. Daí que não surpreenda a segurança e convicção com que premiu o botão na primeira hora do dia. Mas dêem ao homem tempo e motivo e acabará por viajar aos quatro cantos da terra sem sair do quarto. Em boa verdade, o seu trabalho também se prestava a reflexões, já que não exigia muito de si. Para que fosse correctamente cumprido, bastava ter uma mão (já que uma chegava), dito de outra forma, uma mão com dedos (admitindo que se pode ser legítimo possuidor de uma mão sem dedos) e, sobretudo, a pontualidade de um britânico. &lt;br /&gt;Na segunda hora, depois de ter premido pela segunda vez o botão, o bichito que tinha surgido no dia anterior depois da fatídica conversa, ganhou-se ares e cresceu a olhos vistos. Foi então que o nosso bom homem tomou uma das decisões mais arrojadas da sua história pessoal contemporânea : ainda antes do almoço interrogaria o seu Imediato sobre a questão. Foi o que fez. De início, o Imediato franziu a testa, notando-se algumas rugas jovens de quem não tem por hábito franzir a testa. A sinfonia de expressões inclui ainda um encolher de ombros, um levantamento de mãos e uma contorção de lábios, como que antecedendo a resposta de que não, que não sabia. João perguntou-lhe se poderia interrogar alguém potencialmente sabedor da resposta. O Imediato franziu novamente a testa, embora desta vez, à rugazita da perplexidade se tenha junto uma outra (como que renascida) a que poderemos chamar a ruga do medo. João compreendeu a situação, pois apesar de tudo é um homem perspicaz. &lt;br /&gt;Há horas que maldizemos e que se nos afiguram determinantes, e esse hora maldita em que alguém colocou a felicidade de João em cheque parecia ter mudado o nosso bom-homem.  A esposa queixou-se da sua atitude, que classificava de “estranha” e “apática”, dois adjectivos que bem poderiam ter sido proferidos pelo seu círculo de amigos mais próximo. Não era, porém, apatia que nascia na face do nosso homem, mas um certo tipo de curiosidade, quiçá, aquele tipo de curiosidade tão perigoso que tanto sofrimento espalhou ao longo da história. &lt;br /&gt;Os dias de trabalho seguintes foram penosos para o nosso herói. Já não avançava com o dedo com aquela determinação que o antes o caracterizava, mas vacilava, hesitava, tremia com o dedo, chegando mesmo a padecer de ligeiros atrasos no cumprimento do seu dever periódico. Inspeccionava com o olhar, e tão só com o olhar, o espaço circundante ao botão, a parede asséptica que o abraçava e que parecia engolir todo o espaço envolvente, a cidade, a alma. Perguntava-se o que haveria para além da parede aparentemente inviolável. Começara a reparar no edifício onde trabalhava, um colosso de vidro e de metal e procurava pensar onde acabaria o edifício reproduzido em toda a cidade, envolto e pequenos casulos, envolvendo tudo.  &lt;br /&gt;Um dia resolveu ir um pouco mais longe. Aproveitara o fim-de-semana para inspeccionar o local, e qual não foi a sua felicidade quando encontrou uma fissura nas traseiras do prédio. Tratava-se de um pequeno rectângulo por onde era evacuado o lixo que se produzia no interior. Tendo penetrado no seu interior, João foi vencendo os sucessivos obstáculos que se lhe deparavam com o seu cartão de identificação, que ao contrário do que pensava lhe permitia a entrada em praticamente todas as repartições. O labirinto de corredores inexpressivos começava a desesperar João. Apenas distinguiu do resto da paisagem uma pequena passagem onde entrou sem dificuldade. Do outro lado da parece de cartão parecia surgir um gemido, mal confundido com o som monótono de um motor de um aparelho electrónico. Talvez o silêncio que reinava lhe permitisse distinguir esse som nunca antes revelado. Além disso, será que mais ninguém o ouvira? Saiu.  &lt;br /&gt;A condição psicológica de João detiorou-se a olhos vistos nos próximos dias. Os seus sintomas convergiam numa espécie de vertigens que se acentuavam quando caminhava ou nos momentos de cansaço extremo. As horas passadas no trabalho eram penosas. As vertigens voltavam ciclicamente, soando-lhe no ouvido o grito ou gemido indecifrável que ouvira na véspera. Ponderou desistir do emprego, mas o forno não estava para empadas. A situação do mercado de trabalho era lamentável e não parecia vir a melhorar num futuro próximo. Quem pagaria as despesas?  &lt;br /&gt;Embora se resignasse à sua função, isso não impediu que um dia perguntasse ao Imediato de onde viria esse gemido que não lhe largava ou ouvidos, e se mais ninguém o ouvira, e porque seria assim, e o que estaria do outro lado do botão. Um momento após pensava friamente a sua condição, vacilava um pouco e premia o botão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-2150310547532297790?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/2150310547532297790/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/i-um-homem-bom.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2150310547532297790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2150310547532297790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/i-um-homem-bom.html' title='I - Um Homem Bom'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-2207694046759800866</id><published>2010-12-25T06:42:00.000-08:00</published><updated>2010-12-25T06:43:47.543-08:00</updated><title type='text'>Ciclo de Histórias</title><content type='html'>A vida é feita de equilíbrios impossíveis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-2207694046759800866?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/2207694046759800866/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/ciclo-de-historias.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2207694046759800866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2207694046759800866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/ciclo-de-historias.html' title='Ciclo de Histórias'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-7728559069909995515</id><published>2010-12-07T10:10:00.000-08:00</published><updated>2010-12-07T10:44:28.542-08:00</updated><title type='text'>Os cães</title><content type='html'>Um dia saí de casa para voltar. Descia o elevador e premia o botão de todos os dias, o que me leva ao rés-do-chão. Passava pelas ruas de sempre e via os prédios em estilo arquitectónico cretino. Sabia que um dia me iam engolir, a mim  e à minha vida. Fiz as minhas tarefas rotineiras (e, confesso, encontrei aí algum prazer). Diz a ciência moderna que o cérebro procura a rotina para evitar o stress. Depois pensei em chá e em água com gás, e que os bebem abundantemente na Europa de Leste e na Ásia (quiçá como lenitivo da fome?). Voltava para casa. No verão, era ainda de dia quando isso acontecia. No inverno, acendiam-se já os primeiros candeeiros de iluminação pública. Depois pensava que Marx e Engels tinham já candeeiros de iluminação pública no seu tempo. Talvez sonhasse com Marx e Engels atirando pequenas pedras aos candeeiros em noites ébrias. Quando chegava à porta de casa, dois cães açaimados (por quem?) ladravam-me. Estranho! São de boa raça. Que estranho que dois cães de boa raça me ladrem, talvez intimidados pela minha estatura? Depois pensei em pernas e braços e beleza. Olhei pela janela e uns olhitos azuis troçavam de mim. Esperei mais um pouco e vi os cães de boa raça ladrar a uma criança negra, que corria espavorida, salva à última da hora por um benemérito mecânico miraculosamente perto do sucedido - "Calma! Calma!! Não mordem", diz apaziguador. &lt;br /&gt;No dia seguinte, enquanto fazia o jantar e pensava na extinção dos corais da Polinésia, ouvi os cães ladrar a uma senhora com uma criança ao colo. Percebi que dizia (ou chamava) alguma coisa. Um jovem dos seus dezoito anos, boné, estatura baixa e cabelo ralo, chamava-os e fazia-lhes festas. Mais uma destas e ligo para o canil, pensei. Qual o sentido, pergunta-se, de haver cães e senhora e vida, se nada parece fazer diferença? Porque é que  sombra dos seus rabos se estende cada vez mais, invadindo as varandas na ténue luz da noite, cada vez que se afastam?&lt;br /&gt;Talvez o compreenda, se numa numa dessas noites precoces de Inverno me dirigir a casa  e vir duas sombras no quarteirão anterior ao meu. Pode ser que veja cães junto à minha porta (ou, quem sabe, dois lobos?) e estes avancem para mim em silêncio. Com um pouco mais de sorte, talvez veja ainda um terceiro desconhecido junto à porta, uivando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-7728559069909995515?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/7728559069909995515/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/os-caes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7728559069909995515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/7728559069909995515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/12/os-caes.html' title='Os cães'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-1694197119103735083</id><published>2010-09-22T13:30:00.000-07:00</published><updated>2010-09-22T13:37:39.622-07:00</updated><title type='text'>Na pressa dos jornais</title><content type='html'>Na pressa dos jornais, encontro alarve, &lt;br /&gt;Palavras salteadas, rimas rebuscadas,&lt;br /&gt;Edições originais, títulos sensacionais,&lt;br /&gt;Letras de imprensa a saltar,&lt;br /&gt;Desgosto, alegria pl'o ar&lt;br /&gt;Papel gasto pl'as mãos,&lt;br /&gt;Gosto de cortesãos,&lt;br /&gt;Misérias que tudo apagam,&lt;br /&gt;Mudos que somem&lt;br /&gt;Estrelas que falham,&lt;br /&gt;Máquinas raivosas,&lt;br /&gt;De sangue humano ciosas&lt;br /&gt;Tudo! Tudo... sombras funestas&lt;br /&gt;Ocultam o teu rosto,&lt;br /&gt; Na noite camuflada, à luz do dia&lt;br /&gt;Nunca pululada de alegria,&lt;br /&gt;Mas que sonho então, que sentido&lt;br /&gt;Me traz assaz e me leva a sós comigo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-1694197119103735083?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/1694197119103735083/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/09/na-pressa-dos-jornais.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/1694197119103735083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/1694197119103735083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/09/na-pressa-dos-jornais.html' title='Na pressa dos jornais'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-2144767553688044405</id><published>2010-08-27T08:46:00.001-07:00</published><updated>2010-08-27T08:46:55.309-07:00</updated><title type='text'>Por um final feliz</title><content type='html'>Vivia num apartamento de merda na periferia há vários anos, por falta de dinheiro, falta de trabalho, falta de vontade, falta de tudo, enfim…! Os meus colegas de redacção olhavam para mim com um ar de comiseração, de quem já nada se espera, como aquele aluno medíocre que falha todas as lições e nem os professores lhe perguntam o que quer que seja, apenas o deixam andar, por ali… Não por que fossem mais ricos, bem sucedidos ou bem mais qualquer coisa, mas porque é apenas esse o sentimento que o pobre pode despertar no pobre. As notícias sensacionalistas despertavam a avidez dos bravos. A concorrência dos jornais gratuitos (que publicam lixo e mais lixo) dera a estocada final na nossa redacção. Os patrocinadores, esses, começaram por retirar paulatinamente os seus fundos, os mais recentes primeiro, seguidos sem grande delonga pelos mais fieis anunciantes “– É a crise!”, diziam eles; crise que, no entanto, não os impedia de publicar num qualquer jornal gratuito para ler no metro em vinte, dez ou cinco minutos. “-É o tempo que vivemos!”, diz o Sr. Gedeão, director do jornal. As pessoas não estão para perder tempo a ler coisas maçudas! Querem coisas simples! Notícias que entrem pelos olhos adentro.” Notícias?! Não! Factos!” O Sr. Gedeão é um humanista. Melhor dizendo, é um neo-humanista, mas de um humanismo tão aberto, onde cabe qualquer manifestação, digamos… humana? A terrível inexistência de factos que se vem sentindo desde há uns anos para cá provocou uma súbita avidez por notícias. No início, dizia o Sr. Gedeão, a imprensa retirava as pessoas da ignorância e do obscurantismo. Todos devem saber ler! Nem que seja apenas para ler jornais. As pessoas devem estar informadas sobre o que se passa no mundo. Porque não haveria de suscitar tanto interesse a queda de um prédio em construção na esquina, como o tufão que assola as margens do pacífico? É a natureza em toda a sua força! O público avaliza com os seus votos, diga-se, compras, as tiragens dos jornais mórbidos. Pois sim, diria o Sr. Gedeão, pois é a natureza do ser humano conhecer a faceta mais sombria da sua própria existência. Quando os passatempos e as anedotas começaram a encher as páginas dos jornais, disse o Sr. Gedeão, é o lazer que enobrece a alma do Ser-Humano. Pois se a dignidade do mercado editorial se reflectir em vendas, tanto melhor! São duas cajadadas de um só coelho! &lt;br /&gt;Por decisão do conselho editorial, o Sr. Gedeão inaugurou uma nova rubrica no nosso jornal: o obituário. Embora este ocupe já as páginas de vários jornais, o que o conselho editorial pretende é inovar. Assim algo ao estilo inglês, disse o Sr. Gedeão. Algo com pinta! O Conselho editorial estabeleceu contactos com a conservatória, que fornece os óbitos, sendo que, só no primeiro dia em que coloquei mãos à obra, recebi duas listas repletas de nomes. Na ausência de qualquer critério para a publicação do obituário, resolvi começar por escolher os nomes mais catitas, assim aqueles nomes estrangeiros esquisitos. Comecei por este:&lt;br /&gt;“ João Francisco Ribeiro Kanh&lt;br /&gt;Faleceu no dia 26/07/2010 o Sr. João Francisco Ribeiro Kahn. O finado, cuja cessação de funções vitais em tudo roçou a santidade, encerrou definitivamente as pálpebras para as fugazes imagens mundanas na sequência de uma doença prolongada. A coragem com que enfrentou a traiçoeira maleita a todos impressionou, sendo a sua luta contra a força aniquiladora da natureza um exemplo para quantos os que tiveram o privilégio de privar com o falecido. A solene cerimónia fúnebre realiza-se hoje, pelas catorze horas, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal acabara de realizar esta primeira obra, apoderava-se de mim uma sensação de vazio, algo oco, um lapso de imaginação. Supus que ninguém lia todos os obituários, assumindo que estes apenas interessam ao circulo de familiares, amigos e conhecidos do falecido. Tanto melhor… Tanto melhor…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei um segundo:&lt;br /&gt;“ Carolina José da Costa Arromanches&lt;br /&gt;A luz do dia viu hoje apartada dos seus raios uma das suas mais belas participações. O solo que abraça esta nossa pátria ficou mais pobre com o desaparecimento de uma das mais queridas filhas. A ilustre falecida, brutalmente privada das suas funções vitais na sequência de um terrível acidente de viação, em tudo pautou a sua conduta para melhor sorte. Deus chama para junto de si aqueles que mais ama, e dito isto o seu nome será sempre lembrado com saudade pelos seus amigos e familiares, que tão desoladamente anunciam a sua cerimónia fúnebre para hoje, às dezassete horas, no Cemitério dos Prazeres, Lisboa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sensação de cansaço agravou-se consideravelmente com o passar dos dias. As fontes abrasam, não conseguindo mesmo voltar a cabeça para onde quer que seja. Quando me tento levantar, uma terrível náusea martela o lopo frontal.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, e talvez para bem da minha saúde, a minha carreira como escritor de obituários seria curta. Dois meses depois de iniciar funções nesta nova rubrica, o jornal encerrou definitivamente as portas, deixando para trás, não apenas todos os seus funcionários numa situação delicada do ponto de vista laboral, como também uma legião de credores. Decretado o processo de insolvência, o edifico onde funcionava a redacção viria a ser vendido em hasta pública por meia dúzia de tostões, poucos, - demasiado poucos - para a avidez dos credores insatisfeitos. &lt;br /&gt;Chegara ao último acto da minha tragédia pessoal, de onde só o pathos ressaltaria, sem catharsis, sem catharsis… Se pudesse denominar esta fase da minha vida chamar-lhe-ia de “Fase da vertigem”. Pois sentia-me como das alturas de um precipício, ao colocar os meus dados biográficos num cv, na rigidez das datas e das palavras. Um medo animal percorria todo o meu corpo. Enviei o meu cv para tudo quanto era sítio, num assomo de loucura mitigada pela bondade, enviei os meus dados para as ONG’s e imaginava-me já, um derrotado material elevado ao mais alto nível espiritual. Imaginava os pretinhos apinhados à minha volta a puxar-me as calças e a camisa e chamar-me papá, titi e sussurrar-me: “o branco é bom! O branco é gentil! O branco é bonito!” Eram sonhos belos e todos eles bons, e mesmo a morte (que raramente ocorre nos sonhos) me parecia agradável numa estepe africana, com uma girafa como pano de fundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontraria novamente um emprego como redactor, mas desta feita de uma forma bem mais original. Fui colocado numa empresa onde tive de prestar testemunho das minhas qualidades, assim como jurar fidelidade ao patrão. Fosse pela minha inexperiência no sector empresarial, fosse pela minha natureza destemida (nesta fase estava muito desprendido), estranhava que cada vez que um dos subalternos pronunciava o “P” de patrão, um ligeiro tique nervoso se lhes desenhava na testa, tendo mesmo visto um deles franzir o olho num horror espasmódico quando me guiou pelos corredores assépticos do edifício. O meu Cicerone, depois de aberta a porta e anunciado em voz alta o meu nome, desapareceu novamente na primeira porta que encontrou. Quanto ao patrão, parecia um porreiro. Isto apenas veio acentuar a sensação de incompreensão que experimentei quando fui confrontado com o nervoso miudinho dos subalternos. Estava sossegado, nem as pernas me tremiam embora me assolasse uma terrível dúvida: qual o título pelo qual o devia tratar o bom do meu patrão: Dr., Engº, Arqº, -  nunca um reles Sr.  Em caso nenhum, um ordinário “você”. Pois um homem com um ar tão distinto nunca contentaria toda a sua responsabilidade com um simples Sr. Era alto, espadaúdo, pescoço delgado mas não magro, coroado por um belo crânio de ossatura germânica. Senti-me esmagado ao ter a honra de ser abordado por um Adónis daquela natureza, um Hércules dos tempos modernos, um príncipe da nova ordem. Quase de imediato me começou a tratar por “tu”, numa familiaridade que me provocou pele de galinha. Fez-me várias perguntas, sempre de forma surpreendentemente afável, às quais respondi com uma modéstia e sinceridade calculadas, como sempre foi do meu jeito. As minhas funções seriam nada menos do que escrever “menções honrosas”, “cartas de incentivo” e “cartazes alusivos” aos trabalhadores da empresa. Para os incentivar, rematou o meu Adónis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei por trabalhar no ranking da empresa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta era, bem vistas as coisas, a minha primeira experiência no meio empresarial, encontrando-me a encabeçar um verdadeiro Ministério da Propaganda. Sabia que a minha anterior carreira na redacção não seria desprezada. Acredito que quando verdadeiramente nos esforçamos, lá encontramos a sociedade para nos recompensar com a sua mão invisível. &lt;br /&gt;Por sugestão do meu patrão, o primeiro galardoado com o título de “Funcionário do Mês” foi o homem do talho. Eis como me desembaracei na tarefa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Joaquim, o homem do Talho&lt;br /&gt;Quem não se habituou já ao tinir das facas?&lt;br /&gt;A este nome pelas manhãs, tardes e noites?&lt;br /&gt;Ele assegura a melhor qualidade de serviço, aliada a uma simpatia insuperável.&lt;br /&gt;A firmeza inabalável com que destrinça ossos e cartilagens tem-nos deixado&lt;br /&gt;a todos de boca aberta. Seja este um exemplo para todos nós – camaradas desta empresa, sempre a melhorar…” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me ocorria melhor final para esta pequena menção honrosa. Matutei por diversas vezes num final mas nada me ocorreu. Apenas melhorar, melhorar… Entretanto, e talvez por ter ficado agradado com o que lera, o nosso patrão encarregara-me de uma nova tarefa. Consistia em procurar, através de uma base de dados, todos os trabalhadores da nossa empresa e respectivos laços de parentesco com os restantes elementos da empresa. Mediante uma pesquisa por apelido, não foi muito difícil encontrar. Em nenhum momento foi feita qualquer referência à finalidade de tal projecto. A ideia desta procura intrigara-me ao ponto de remoer um bichinho dentro da cabeça que se foi tornando maior à medida que as horas passavam. Quando me encontrava já deitado e preparado para dormir, o bichinho era já um gigante. Ordens são ordens, e de momento é esta a informação de que disponho. &lt;br /&gt;Confesso que andava numa inquietação enorme, pois não é todos os dias que se dá uma responsabilidade destas a alguém com a sua auto-estima nas ruas da amargura. O meu patrão confia em mim. O meu patrão é bom e eu serei seu servo para sempre. Juro! Juro que nunca trairei a sua confiança, e nem só o medo me poderia ter tornado tão subserviente. Aqui na empresa encontrei um lar. Encontrei pessoas que me sabem valorizar pelas minhas capacidade – todos sabem distinguir claramente o seu lugar no mundo, -  e aquelas ideias nefelibatas que colocaram  sonhos de mundos perfeitos nas cabeças dos homens, como os da igualdade, fraternidade e liberdade, encontram aqui o seu irrefutável NÃO. Estamos no domínio privado, e no domínio privado cada qual faz o que bem lhe apetece. Por tal sorte, um recém-admitido numa categoria profissional inferior à minha sabe qual a posição dos olhos quando se cruza comigo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi-se o Verão e Chegou o triste Outono. O furor inicial que sentira quando entrei na empresa esvai-se como nas folhas em suave cadência das árvores. Quem diria que um dia voltarão a nascer…?  O meu estado não diagnosticado de hipocondríaco agrava-se, e de um momento para outro as pessoas parecem que saem da terra e dão pulos de alegria como cabritos ensandecidos. Eu sei, eu sei… Eles são bons, e se por vezes os invejo ou os acho presunçosos, sei perfeitamente que tais sentimentos apenas são transmitidos pela minha própria presunção. Porque sei tudo isto e muito mais, a minha cabeça tem dormido bem sobre o travesseiro. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas as coisas aqui na empresa mudam de forma muito mais rápida do que o tempo. Toda a gente tem que jogar para a estatística, e essa mesma estatística é a fonte onde vou beber. O meu patrão tem andado nervoso… Pelo menos, noto que o seu ar jovial se vai esvanecendo, e os músculos tão elásticos que vira adornando a sua face na primeira vez vão-se tornando rijos. O seu olhar decidido vai-se tornando vago, os gestos cheios de vigor flácidos e vazios. Perguntou-me pela lista há uns dias atrás. Disse-lhe que estava pronta. Respondeu-me - -“Óptimo! Óptimo”, mas o seu olhar desalentado permanecia”. Então e o resto como vai? – Perguntou-me, bem… bem… Óptimo! Óptimo! Coitado do meu patrão. Não aguentarei o peso da vergonha se um dia o vier a desiludir. È daquelas pessoas que merece toda a confiança do mundo. É para isto que existimos afinal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus comparsas esfriaram repentinamente as suas relações comigo. Não percebo porquê, se há bem pouco tempo se mostravam tão solícitos. Consegui apanhar alguns fragmentos de conversas em que se dizia “lista”, “lista”, “lista”, e penso, penso, penso. O meu colega de repartição, o Semedo, mostra também uma certa frieza no seu trato comigo. Penso… Penso… Ahhh! O mesmo medo animal de há uns meses atrás invade-me, congela-me os ossos e impede-me a concentração no que quer que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei a coligir alguns dos textos que havia escrito há umas semanas. A sua publicação faria parte de uma cerimónia de entrega de prémios que ocorreria na semana seguinte. Seriam seleccionados os melhores trabalhadores da empresa para receber os respectivos prémios. Li em voz alta as condecorações para ter a certeza de como soavam em público. Este dia traz-nos algo de especial, …, em boa verdade, …, os nossos mais queridos préstimos enquanto funcionários…., a satisfação e melhoria permanente, …, o prémio, …, a melhor, …, empresa, …, lista, …, medo, …, medo, …, medo… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, por entre o meu olhar desconfiado em várias direcções, corri para o pé do patrão logo que tive oportunidade para isso. O seu ar afável (uma afabilidade mais suspeita do que nunca) colocou-me num grande estado nervoso. Não tive alternativa senão de me prostrar a seus pés e dizer num arrebatamento piedoso: Juro! Juro! Juro! Que nunca farei mais nada de mal…, sabe, …, a lista, a lista! Todos os que pareciam alheados dos acontecimentos se levantaram, mostrando-se ainda mais solícitos do que os que prestavam maior atenção ao desenrolar da situação. O patrão, visivelmente embaraçado com o que se passava, chamou-me à parte ao gabinete. –“ Que se passa consigo, Artur?” “-Você está bem?”. Sim, estou, tenho apenas andado um pouco cansado… Nada de especial… “-Sabe o que você precisa Artur?”, e quando assim disse o meu crânio caído levantou-se como que esgotando a minha última reserva de vigor, à semelhança do que deve sentir o condenado à morte quando se lhe diz que afinal existe uma oportunidade de viver. Equilíbrio. Equilíbrio? Sim equilíbrio! O patrão estendeu a sua mão direita bem à frente da minha cara como os cinco dedos afastados. Ia nomeando, a vida constitui-se pelos seguintes elementos: Amor, Dinheiro, Saúde, Amigos, Família. Tal como Hipócrates definia o são equilíbrio pelo nivelamento dos bons e maus humores que escorrem nos fluidos humanos, a felicidade encontra-se no equilíbrio destes cinco elementos. De seguida, pegou numa caneta e num papel e desenhou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                Amor                          Dinheiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vida&lt;br /&gt;Família&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                               Saúde                            Amigos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuou, percebe Artur, se conseguir o equilíbrio perfeito entre estes elementos tudo lhe será garantido. Aconselho-o ainda a comprar o GPS da vida. GPS da vida? Sim, por intermédio de um complexo sistema de compatibilidades entre conceitos, consegue-lhe fornecer, numa base de optimização e racionalização, as melhores opções para cada um destes aspectos . Sirva de exemplo: Algum problema que tenha com a sua família: basta inserir as premissas do problema que o GPS fornece-lhe a resposta mais adequada com base num cálculo de probabilidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei a casa, e sentia-me de facto mais leve depois desta conversa com o chefe. Voltei a pôr mãos ao trabalho e escrever os textos que já há algum tempo se encontravam suspensos por falta de imaginação, o tradicional problema com os remates de textos. Escrevo, Escrevo e não encontro o final. Já nada dura até à morte… reticências, parêntesis, sem finais felizes…, …, lista…, medo, …, medo….&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-2144767553688044405?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/2144767553688044405/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/08/por-um-final-feliz.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2144767553688044405'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/2144767553688044405'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/08/por-um-final-feliz.html' title='Por um final feliz'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-750904764650695674</id><published>2010-08-11T07:34:00.000-07:00</published><updated>2010-08-11T07:41:38.974-07:00</updated><title type='text'>António foi peremptório - IV</title><content type='html'>Houve um dia em que toda a gente se fartou do rei. Nem se percebe porque o vinham aguentando desde há tanto tempo. As pessoas são pacientes aqui no reino de Nestum, e a vida foi construída para os fortes. Durante algum tempo achou-se alguma piada aos fracos e doentes. As senhoras deitavam-lhes as mãos pelas costas e cobriam-lhes o regaço, com pena. Pelo menos tinham essa função, a de alguém ter pena deles. Um dia fartaram-se deles e enviaram-nos para o campo pastar. Ainda antes disso, inventavam toda uma série de expedientes manhosos para se ver livres deles. Trocavam o nome das coisas: “-Vamos enviar os doentinhos para o campo, porque lá ó ar é mais puro”, diziam. Aproveitavam-se os que ainda sabiam jogar à bola, onde residiu a minha salvação. Era daqueles que chutava com os dois pés, de peito, cabeça, etc. Enviaram-me para outro sítio onde podia ser compreendido pelas minhas qualidades futebolísticas. Por mim, tudo bem… Pelo menos já não tinha que gramar com velhotas a espingardar, ou servir de reposteiro nas cerimónias. Por vezes eram simpáticas, as velhotas. Diziam, “-Olha que moço bonito e alto!” Passavam-me a mão no pêlo e nos tomates e eu ficava contente, embora ainda não tivesse ainda chegado àquela idade quando só queremos que nos passem a mão no pêlo e nos tomates. De resto, era também um tempo em que era encornado, e sabia-o bem e por quem! À semelhança da minha pessoa, todos eram encornados e não pareciam muito afectados por isso, afinal, já não estamos em tempo de soberanias. De hoje em diante, todos devem estar preparados para ser cornos, porque os cornos, mesmo sendo cornos (e ninguém o pode negar) passam por um belo chapéu se forem bem enfeitados. Ao mesmo tempo via gente que se dizia realista e lúcida, que me chamava constantemente a atenção para a minha cornadura e diziam: “- Porque não fazes nada, meu? Vai ter com ela parte-lhe a cara! As contas que tens a acertar não são com o gajo que a anda a comer, porque esse faz o trabalho dele, e se a como é porque ela deixa”. Dizia que sim, que sim, que sim. Davas duas voltas ao bilhar grande e voltava à mesma indiferença. Soavam-me as palavras irónicas de Dostoievsky: “A traição é um acto de protesto da feminilidade oprimida! Eu, marido responsável, não só devo aceitar esse protesto como, se for preciso, arranjar um amante à minha mulher. Não há nada como os russos para abstracções. &lt;br /&gt;Até que chegou o dia em que conheci Patrícia, lá no campo. Tinha os seus trinta e poucos e um porte de dama romana, terrível e sensual. Era daquelas pessoas cheias de vitalidade, mas de uma vitalidade maldosa. A maldade e o apetite sexual pareciam ser o seu único móvel, o seu Demiurgo e a sua razão de ser. Cair nas mãos de Patrícia era desastroso por duas razões: se caíssemos nas suas más graças, seria capaz de nos arrasar pelo motivo mais fútil. Se o contexto de proporcionasse (e se tivesse garantias quanto à sua impunidade), seria capaz de torturar e matar sem o mínimo remorso. A sua lógica era dominar e o seu prazer máximo o poder absoluto. A segunda razão para a temermos era a sua pujança sexual. Percorreria também todo o alfabeto latino conosco: sodomizatio, fellacio, cunnilinguis, e talvez nos amasse por isso, situação que é sempre de temer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-750904764650695674?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/750904764650695674/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/08/antonio-foi-peremptorio-iv.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/750904764650695674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/750904764650695674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/08/antonio-foi-peremptorio-iv.html' title='António foi peremptório - IV'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-513140808359016610</id><published>2010-07-23T11:50:00.000-07:00</published><updated>2010-07-23T11:51:24.565-07:00</updated><title type='text'>III – Trivialidades</title><content type='html'>Foi por acaso que à chegada encontrei o meu amigo F na primeira esquina da avenida principal. F surpreendeu-me com uma série de perguntas para as quais parecia ter resposta, ou melhor, as perguntas eram de tal forma insondáveis à percepção do comum mortal que a resposta parecia residir unicamente ali: em F. F, a grande resposta, o da visão acutilante, atavismo do guerreiro que em tempos de paz afoga as mágoas no álcool, a pobre camponesa que na cidade perdeu o rosadinho das faces, isto, aquilo e mais aquilo, isto, isto e mais aquilo. Falou-me dos progressos da ciência e de como esta resvala paradoxalmente para o ocultismo, ciência e ocultismo, pois, porque a ciência sem a fé é cega, é cega, percebes? Fala-me das montanhas de vidro e de aço e de personagens e de cortes e de austeridade e de cintos que apertam e fronteiras que alargam e culpa! Meu Deus, a culpa...Se te calasses F, falar-te-ia de uma aldeia, uma olaria, um rio. Falar-te-ia de casas de louça, festas populares, vinhos a escorropichar da pipa, carne a assar, fé, porque não, mas não a grande fé, apenas a pequena, essa pequena fé de cada um que resolve os pequenos problemas do dia-a-dia: essa que cura as dores de costas, a que alivia as dores de dentes, que ajuda a vizinha a tirar a carta de condução. Falar-te-ia no bêbado da aldeia ( como os há em todas as terras que conheço), no padre que apela à abstinência (até da masturbação, vejam lá!), o solteirão e solteirona do sítio, e vá-se lá saber as razões porque nunca casaram. Depois, se fores um bom menino, F, e te calares um pouco, falar-te-ia das moças bonitas da aldeia e digo-te, meu amigo, que ainda que o não pareça são muito mais arrojadas do que as da cidade. Verias as motas e o seu soar estridente, os bois, o cheiro a estrume, as velhinhas, as mulheres bigodudas, as mal e bem casadas, a chegada dos imigrantes em Agosto, os sapatos de domingo brilhantes de verniz, a meia branca a contrastar, os rebuçados embrulhados em papel vegetal, as discotecas de domingo à tarde, os banhos no lago da aldeia, os amores de verão, esses, eternamente desavindos e eternamente desfeitos e refeitos. Falar-te-ia de todas essas coisas. Essa história interminável sem passado e sem futuro. Invejo a ignorância com que se passa pelas coisas, a magia com que todas as desgraças do mundo passam como leves brisas nos rostos inexpressivos. Tanto faz, rei ou presidente, que a bolsa desça, suba, rodopie, e a minha opinião do mundo fosse sempre essa, o lado histórico que une os crentes e acólitos. Descansa que será um dia essa mesma história que nos julgará a todos, sábios e tolos, na vala comum das datas e factos. O esquecimento. Amantes da mesma mulher, quiçá, o limbo dos apaixonados de onde apenas podemos sussurrar: sabes, querida, o que fazemos aqui, andamos praí, na luta. Somos sempre os mesmos e a causa também não inova, juntos, aqui, na luta. Seria melhor que nos cuspissem e insultassem na rua, esses ilustres desconhecidos, ou então violassem a nossa amada diante dos nossos olhos, ou nos sentássemos no comboio para a Ilha de Malmequer onde cultivaríamos o sorriso das revistas côr-de-rosa, ou o sorriso dos meninos esfomeados do Haiiti depois de uma bela refeição. Poderíamos visitar o Haiti, por acaso, o clima é bom. Se afinal o Bom Deus nos desse sol e praia e miúdas descascadas toda esta confusão tornar-se-ia clara como água. Pode ser que o estado nos ponha todos a passear, nós, os eternamente jovens, os resistentes, hein? Cerejeira fez um bom trabalho, apenas em vez de prostrarmos o joelho vaidoso na missa de domingo alardeamos títulos e prémios e coisas, coisas e coisas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-513140808359016610?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/513140808359016610/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/07/iii-trivialidades.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/513140808359016610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/513140808359016610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/07/iii-trivialidades.html' title='III – Trivialidades'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-6069135382887377581</id><published>2010-06-04T16:46:00.001-07:00</published><updated>2010-06-04T16:46:52.377-07:00</updated><title type='text'>II- Um dia à volta das horas</title><content type='html'>A nossa carruagem segue mais rápida do que o tempo. É com prazer que vejo os meus camaradas de viagem esperançosos. Cresce-lhes na face um estranha luz cada vez que se lhes fala em ouro. Alguns começam já a fazer discursos pomposos ( os que são dotados do dom da eloquência, é claro), mas tratando-se de ouro, até o mais embrutecido dos viajantes se lhes dá para sonhar. E é vê-los deleitados a olhar pela janela, fazendo discursos sobre as aplicações financeiras do ouro, a própria possibilidade remota de ouro é já em si um factor de riqueza. Aguçam a razão prática e lembram as velhas lições dos professores universitários. Como o púlpito é injusto, diriam alguns, que se ao mais brilhante pensador enleva o discurso, ao mais modesto fá-lo parecer ainda mais ridículo. &lt;br /&gt;Leandro, um dos meus afortunados amigos, fala na filosofia do ouro. Diz que a apetência humana para o ouro é uma dádiva da própria natureza, e quem ousa contrariar a natureza, hein? Mais vale deixá-la fluir, como os diversos rios que desaguam no mar infinito, como se a felicidade humana fosse essa eterna viagem.&lt;br /&gt;Recesvindo, mais prático, fala na melhoria contínua do ouro, um processo que exige a habilidosa mão humana, a vontade de um escultor que faz nascer da rocha inerte a arte e sabedoria. Mas essa não é uma arte livre, por assim dizer. Antes segue uma ordem muito peculiar que deve ser imperiosamente seguida. &lt;br /&gt;Proculeiano fala da filosofia do ouro, uma vertente reconhecida recentemente que se identifica com uma certa inclinação para a filosofia analítica, a que a própria matéria em questão induz. Conhecem-se-lhe raciocínios do género &lt; O ouro é Dourado/Nada mais existe que o ouro/ Nada mais existe que o ouro dourado. &gt;&lt;br /&gt;Martinho fala da aplicação casuística a que o a filosofia do ouro nos leva, ou melhor, o seu alcance prático. Há várias semanas que ninguém lhe tira da boca a fórmula “Eu não faço juízos de valor!”. Ainda se desconhece até que extremos levará este princípio.&lt;br /&gt;Pangeu, o poeta, aproveitando os poucos momentos de sossego espiritual dos comparsas, recitou-lhes um poema:&lt;br /&gt;“Não se leva ouro da vida,&lt;br /&gt;Nem amores nem nada,&lt;br /&gt;Mas apenas o que damos fica&lt;br /&gt;Para uma nova alvorada.”&lt;br /&gt;Geneceu, o chefe de facto, irrompeu agressivo:&lt;br /&gt;“- Mas o que quer dizer essa merda?”&lt;br /&gt;“-Não sabes, Geneceu?”&lt;br /&gt;-“Não faço ideia!”&lt;br /&gt;-“ Não compreendes, filho-da puta?”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-6069135382887377581?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/6069135382887377581/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/06/ii-um-dia-volta-das-horas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6069135382887377581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6069135382887377581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/06/ii-um-dia-volta-das-horas.html' title='II- Um dia à volta das horas'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-6744320103321514198</id><published>2010-05-31T15:24:00.001-07:00</published><updated>2010-05-31T15:24:41.550-07:00</updated><title type='text'>Minas de Ouro</title><content type='html'>I- A estepe infinita&lt;br /&gt;Todos se apinham no comboio à hora de trabalhar. O sol está hoje está mais ameno do que o costume, talvez porque o astro-rei se enternecesse com as coisas cá de baixo. Afinal, já vivemos num pais tropical, este recanto do sul da Europa onde já passearam ursos, e já temos sol, bandidos, já só nos faltam as gajas boas para que este seja um paraíso tropical. Há duas cosias que não compreendo na vida: uma delas são os comboios, esse meio de transporte obsoleto ainda me espanta pelo temor que inspira, mas agora vagueiam sós, só com mercadoria, partem em direcção a determinados destinos e depois regressam pelo trilho oposto. Regressarão ainda hoje, esta manhã solarenga em que o menino não pára de puxara a sotaina do padre. Coitadinho, tem sono, ou talvez só porque é pequenino, o menino. A sua mãe aperaltou-o para a chegada do rei de Portugal, afinal não é todos os dias em que o rei faz anos nem que nos visita um rei estrangeiro. Dizem que é rei de Portugal, o safado, um grande país encostado ao Atlântico, dizem os sabedores que é impossível atravessar os montes Hermínios em direcção a ocidente sem esbarrar com esse grande país. O seu rei D. João V dos Braganças vem cheio de ouro e boas promessas. Parece que descobriu ouro e escravos e pau preto numa das suas províncias, às quais só se chega depois de atravessar um enorme lago. Trouxe um elefante ( parece que em Portugal há muitos) para que sua santidade visse, mas não se sabe se o animal vai sobreviver. O caminho é longo e desde Aníbal, o cartaginês que ninguém tenta uma proeza semelhante. Vem e espalha ouro, o safado do rei, bondoso com o nosso pobre povo, alimentado anos e anos a fio com sermões de missa, promessas vãs, luzes fugazes de folgazana financeira ou sexual, repito, a minha vida, luzes efémeras de fartura económica e sexual mas... no fim e bem analisadas as coisas, um magnífico, um olímpico falhanço. Talvez a vinda do rei de Portugal não seja mais uma dessas efemérides para bobos e traga realmente algo de bom e permanente, afinal o homem espalha ouro pelas ruas, e até os empedernidos funcionários públicos, com calo no rabo das horas sentados, voz rouca de reclamar e das greves, dedos amarelas das sucessivas gerações de beatas que lhe passaram pelos dedos, se tentam safar o melhor que podem com uns sorrisos amarelos. Digo que este espécimen nunca achará por exagerado o que se lhe der. O seu afinco e rigor metódico, a sua atenção ao pormenor são sempre de louvar, principalmente nos dias de hoje em que o pormenor é tão importante. Ah... o pormenor. Porque será que o Luís XIV quer ter controlo até do mais ínfimo regulamento que saia de terras gaulesas? Porque é assim que a ordem natural das coisas se nos apresenta, Deus também não descurou o pormenor. Foi isso que pensei um dia destes em que se me deu para admirar a rara beleza exótica de uma menina cigana que se me prostrou em frente. Era essa beleza inexplicável do pormenor que fez de Estaline um homem grande, e que me fez reparar na minha primeira namorada de escola, isto é, aquela a quem primeiro dei um beijo molhado, os que nos fazem descobrir a maravilha da química já em fase de consciência semi-adulta, já que a primeira grande experiência química foi o nosso contacto primordial com o oxigénio, esse momento em que saímos da noite dos tempos e respiramos pela primeira vez, banhados em placenta, em líquido de placenta, em sangue e em merda. Essa minha primeira namorada tinha um estranho menear de ancas, um menear de ancas que é sempre igual, independentemente do estilo musical que o DJ submete ao seu capricho. Esse menear de ancas meneava também o meu pensamento e idealizava o dia em que poria as mãos nessas ancas, que acerta altura me pareciam de plástico. Agarrava o meu copo de sumo barato com toda a força e um dia lá ganhei coragem, e as ancas passaram-se a menear dentro dos limites apertados da minhas mãos.... até que um dia inexplicavelmente essas ancas menearam-se pelas pistas de dança de todo o mundo e passei novamente a apertar copos de sumo de todo o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o rei de Portugal torneou o arco do trunfo, os miseráveis que se encontravam nas redondezas, cujas peles pareciam penduradas nos ossos, gritaram quase em uníssono: &lt;- Vamos para Portugal, onde o ouro nasce das pedras!&gt;, e respondemos todos &lt;-lá vamos nós para Portugal, o pais onde o ouro nasce das pedras&gt;, e chegamos à primeira estação de comboio que encontramos e perguntamos: &lt;- Quando é que parte o trem para Portugal, esse pais onde o ouro nasce das pedras&gt;; e o maquinista respondeu: &lt;- O próximo parte já de enfiada para Portugal, esse magnífico pais onde o ouro nasce das pedras&gt;. E fomos. &lt;br /&gt;A certa altura da viagem, eu e os meu comparsas perguntamos: &lt;-Quando chegamos a Portugal, esse magnífico país onde o ouro nasce das pedras?&gt;, -, ao que o maquinista respondeu &lt;- Não o alcançam os meus olhos&gt;, &lt;Corre corre marujinho, a esse mastro real, vê se vês terras de Espanha, areias de Portugal&gt;, &lt; Não vejo terras de Espanha, areias de Portugal, vejo sete espadas nuas, todas para te matar&gt;. Então eu e os meus comparsas começamos a pensar em alguma sorte de auto-organização. O primeiro dos meus valorosos que assomou da porta do maquinista chamamos-lhe “Ministério da Informação e do Entretenimento”, pois para além de transmitir as novas que vinham da cabine do maquinista  fazia equilibrismo com as garrafas de tinto no nariz. Ao colega encarregado de vigiar o bom sono dos seus camaradas chamamos-lhe “Ministério da Administração Interna”, ao colega encarregado do ócio chamamos-lhe “Ministério do ócio”, embora houvesse quem lhe chamasse “Clark Gable”. Quando já nada havia a fazer olhávamos pela janela a pensar na morte da burra, ou a contemplar o espectáculo curioso da vida animal, os carros de matrículas tão diferentes que se apressavam no caminho em direcção à linha de horizonte da estepe. Quando até esse hobby terminava, batíamos punhetas colectivas e saltávamos na primeira estação. A primeira estação em que descemos chamava-se Tajiquistão. Perguntamos a uma senhora onde estávamos e ela disse: &lt;-Tajiquistão&gt;, &lt;-O que existe além das árvores&gt;, A senhora emudeceu e passei a informação ao Ministério da Informação: &lt;-Minas de Ouro rapazes! Minas de Ouro!...&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-6744320103321514198?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/6744320103321514198/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/05/minas-de-ouro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6744320103321514198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6744320103321514198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2010/05/minas-de-ouro.html' title='Minas de Ouro'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-8846636754663344998</id><published>2009-12-16T09:21:00.000-08:00</published><updated>2009-12-21T04:10:27.890-08:00</updated><title type='text'>A fantástica viagem de Pedro ao país do nada</title><content type='html'>I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz pouco tempo que Pedro está nesta cidade, mas o pouco foi já suficiente para criar um pequeno núcleo de amigos. Mudou-se de uma pequena vila, não muito distante, para o núcleo urbano Y, em busca de um pouco de tudo, trabalho, cultura, amigos, amor (o que quer que isso seja). &lt;br /&gt;Encontrou trabalho como vendedor de uma conhecida empresa de cosméticos, não obstante as suas reservas intelectuais ao culto do corpo. Depois de algumas visitas a certos estabelecimentos de estética, chegou, afinal, à conclusão, que as coisas do corpo não formam uma realidade tão horrorosa como a pintam os intelectuais. Há certas ocasiões em que a beleza vale por si, disso ninguém pode duvidar…&lt;br /&gt;A cidade é pré-fabricada, e nem de perto se pode dizer que seja acolhedora, particularmente para quem vem de fora. O exotismo deixou de ser moda há já muito tempo nas cidades europeias. Tempos houve, pensa, enquanto come pausadamente a sua sandwich/almoço, em que as pessoas acharam piada à diferença. Ao provinciano, ao estrangeiro, ao sotaque, ao moreno, ao loiro, ao religioso, ao ateu. Mas ninguém acredita nisso nos dias que correm, o que não deixa de ser certa forma paradoxal em tempos de globalização, quando o superavit de informação deveria tornar a sociedade mais cativa à aceitação do estrangeiro. Enfim, não se pode exigir tudo, e mais vale aceitar o olhar carrancudo com que o olham as velhinhas que passeiam o cachorrito no jardim do que o deserto da sua cidade natal.&lt;br /&gt;O seu grupo de amigos, restrito mas perfeitamente compatível consigo em termos de afinidades, partilha dessa opinião. Com efeito, inventou já toda uma gíria e institucionalizou toda uma ritualística em torno do assunto. Por exemplo, a teoria da folha branca. Segundo esta teoria, quem vem de fora deve fazer da sua mente uma folha branca à data da chegada à cidade. É aí que a experiência urbana deve imprimir a sua marca. Um exemplo, entre muitos outros, que iremos explanar à medida que o nosso enredo se for desenvolvendo. &lt;br /&gt;Como não pode deixar de ser nestas coisas, o amor, que o nosso herói conhece já sobre contornos tortuosos, é sempre importante numa cidade onde a solidão é a regra. Mas a própria solidão encontra-se institucionalizada de tal modo que, mesmo assim, é facilmente colmatável. Basta ligar para um desses números que enchem os fóruns todos os dias, e o amor surge... Não que Pedro se deixe seduzir por essas formas fáceis e consumistas das relações afectivas, que o próprio sexo, por mais desinteressado que seja, leva inevitavelmente consigo. Aliás, é da opinião que deve ser a prática a ditar as regras à teoria, isto é, devem ser as necessidades do dia-a-dia, a espontaneidade, que levam a uma configuração mental das coisas, a enformar as nossas escolhas de vida. Daí que pense que o amor não se procura, o amor encontra-se, o que, sejamos honestos, não é uma posição de todo ingénua, indiciando mesmo algum tacto para a coisa…&lt;br /&gt;Correndo o risco de ser profilático em relação à conduta deste nosso herói, podemos mesmo dizer que ele é um “bom”, no sentido mais quotidiano do termo, como já ironizaram muitas das personages que foi encontrando ao longo da sua vida. É nestas alturas em que o seu eu, a sua maldita cara e o seu maldito corpo, que envelhece todos os dias, lhe lembra a maldição de ser sempre o mesmo, ainda que em constante mutação, passando como um espelho ao longo dos espaços e diante das gentes, sempre esse presente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se começa a desenhar o esboço de um personagem, começa-se, e é por aí que se deve começar, pela vida afectiva. Primeiro, porque esta, quer queiramos quer não, é sempre a mais importante e determinante de tudo o resto. É o alicerce de bronze de todas as outras vertentes, de tal forma nos condenou a mãe natureza, diria Pedro, quando tiver voz na narração, o que acontecerá dentro de pouco tempo. Já nas suas conversas de café, Pedro não pode deixar de notar, e esta realidade é particularmente viva aos seu olhos, que o tema sexo é o único no qual todos podem participar com um nível bastante aceitável de profundidade, não obstante a sua origem social, sexo, idade, educação, estatuto. Daqui, não custa depreender a importância que o assunto tem na vida das pessoas. Também não custa compreender que esta tenha sido uma das primeiras preocupações de Pedro logo após estarem resolvidas as questões mais essenciais à sobrevivência: trabalho e habitação. &lt;br /&gt;Foi nesta ordem sincrónica de escalagem da pirâmide das necessidades que Pedro conheceu Sissy. Antes de maiores desenvolvimentos quanto a esta personagem, que por certo conquistará a simpatia do leitor, é nosso dever acentuar, em jeito de prolegómeno, o seguinte: primeiro, não se deixem iludir pelo “ar” porno do nome Sissy, não só porque estamos a falar de um exemplar acabadinho da burguesia do século XXI, isto é, aquela que trabalha no sector dos serviços, a família trabalha no sector dos serviços, todos os seus amigos trabalham no sector dos serviços, e nem por sombras se lhe assomaria a ideia de escolher um companheiro que não um membro desse mesmo sector económico. Para Sissy, os frangos nascem das árvores já depenados e embalados, prontos a distribuir nos supermercados, e a fruta com caroço será objecto da investigação científica com vista à sua alteração genética. Segundo, se o nome indicia algo de ingénuo em relação à pessoa, partindo do princípio, às avessas no nosso grande Nobel Saramago, que o nome tenha alguma relação com a pessoa que identifica, desencantem-se já dessa ideia. Sissy, no decurso dos diversos encontros preliminares que teve com Pedro, esses encontros que servem de protocolo para “algo mais”, viria a demonstrar uma hábil racionalidade prática que nenhum Kant, nos seus monótonos passeios por Könisberg, poderia adivinhar.&lt;br /&gt;Por tudo isto, e porque algumas situações, só por si, apenas pelo facto de existirem e serem reais e perceptíveis, são cómicas, chamaria a esta subdivisão do texto de “O alegre capítulo de Sissy”, não fôssemos nós, como somos, desprezadores natos da forma em prol do conteúdo.&lt;br /&gt;Como já foi dito, Sissy era um membro, par excelence, dessa burguesia promovida a nobreza dos serviços, enriquecida muito antes desse mesmo sector dos serviços, também ele, se proletarizar, invadido pelas hordas de camponeses novos-ricos intelectuais. Era loura, de um louro que Sissy fazia questão de evidenciar ainda mais recorrendo à coloração e a tratamentos capilares, que Pedro sabia bem caros dada a sua experiência profissional no ramo. Media cerca de 1,78 de altura e revestia a sua ossatura de formas sumptuosas que, de forma algo invulgar, não evidenciava em demasia, o que agradou ao nosso herói. Abaixo da sua testa curta e pálida, que tentava disfarçar recorrendo a base de cor assentando-lhe uma tez trigueira de tom artificial, jaziam dois olhinhos pequenos e bem delineados de cor castanha e tom vago. Destaca-se o seu queixo bem desenhado, secundado por uma boca de lábios finos belíssimos, simplesmente belos. Pedro sabia que Sissy se encontrava livre para amar, sem namorado, há já um par de meses, e que desde então buscava novo amor, em jeito dessas vedetas que desfilam pelas páginas das revistas de socialite. De facto, Sissy pertencia a esse grupo de mulheres surpreendentemente grande, que quando não tem namorado o mundo desaba à sua volta. Tudo lhe parece solitário e ameaçador, hostil, foge-lhe o chão dos pés. Portanto, era este o estado de coisas que Pedro encontrou quando se fez ao mar revolto, onomatopeico símbolo da cabeleira loura de Sissy. Era também essa fragilidade emocional da nossa personagem feminina que lhe conferia uma certa receptividade a Pedro, não obstante o facto desta, em circunstâncias normais, nunca o ver como uma possibilidade real e efectiva, e foi com a mesma incerteza no valor das palavras e dos actos, que Sissy acedeu logo ao terceiro sms de Pedro de convite para um café. Como sabemos, nós, pessoas experientes na arte da sedução, a quem não aterrorizam todas essas descobertas draconianas da ciência que proliferam nos dias de hoje, procurando explicações e fenómenos bioquímicos para tudo, analisando de uma perspectiva animalesca os rituais de acasalamento dos mamíferos, incluindo os humanos, uma realidade que, de resto, os cientistas consideram tão evidente que nem sequer encontra oposição entre os membros mais conservadores da Igreja, o que não deixa de nos causar uma certa desilusão. Sabemos, dizia, que a assimetria de posições sociais conta nestas coisas, assim como outros factores. E sabemos que Pedro tinha perfeita noção disso quando resolveu “lançar o barro à parede”. Portanto, o embaraço que Pedro já sentia, naturalmente, com os exemplares do sexo feminino, agravou-se ainda mais quando deu de caras com Sissy, frente-a-frente, ali, para ele, para ele, Pedro, lutar por ela, conquistar, convencer, persuadir, que ele, Pedro, era o homem ideal para preencher a lacuna que o último namorado de Sissy havia deixado no seu coração. Esse facto, o de Pedro encarnar agora um potencial, entre outros, correctamente ordenado e de número de contacto actualizado na lista telefónica de Sissy, colocar-lhe-ia um outro peso sobre os ombros que o nosso herói não havia sentido até então. Expliquemo-nos melhor. Quando foram apresentados e se desenrolaram os primeiros fios de conversa, Pedro era ainda, na imagem simplificada de Sissy, um exemplar vindo de não-se-sabe- de-onde que, sem prejuízo do facto de ser bem parecido, parecia carregar nos ombros uma herança pesada, a mais pesada de todas, na opinião de alguns, a herança da pobreza. Ora, essa impressão em nada contou no desenrolar da conversa, que inserida no contexto de promiscuidade controlada de noites ébrias nada tem de acutilante. As coisas mudaram de figura com um vibrar inusitado quando Pedro enfileirou, como já referimos, a lista de potenciais. Aqui, recorrendo à preciosa ajuda da metodologia, podemos classificar alguns dos caminhos que Sissy empreendeu para dissecar a figura de Pedro. &lt;br /&gt;Usou, em primeiro lugar, o método indiciário. O que é que isto significa afinal? Significa que Sissy construi o cv de Pedro usando um intricado e muito pessoal método maiêutico, do qual, suspeita-se, fazia uso por sistema. Começou pela identificação: nome e apelidos. Em tom de gracejo sobre certos apelidos de significado actual duvidoso, Sissy observou que o apelido de Pedro nada tinha de invulgar, tudo em tom de gracejo, como é óbvio, ou seja, que o seu apelido era compartilhado por mais uns milhões de portugueses, dito de outra forma, que uma parte nada despicienda da lusofonia possuía um apelido semelhante. Pedro levou-se em tom de brincadeira, embora não pudesse evitar que as suas faces se ruborizassem ligeiramente. Enquanto dizia isto, Pedro pensou que algumas mulheres, por mais estúpidas que sejam no sentido intelectual do termo, possuem um instinto feminino que lhes indica as perguntas certas na forma certa e no momento exacto. Sissy volta à carga. Chegamos à parte da residência, embora se confesse que, nesta sede, Pedro não saísse completamente desfavorecido aos alhos interessados de Sissy. Morava na baixa da cidade, e se bem que a baixa seja ainda associada à criminalidade, aos bairros, aos pobres, o inferno sissyano, havia recentemente uma tendência de os jovens de boas famílias e posses assentarem arraiais na baixa da cidade, em bairros especialmente requalificados para o efeito ou condomínios fechados. Por isso mesmo, esta parte não ofereceu particulares dificuldades. A parte da formação académica foi apenas ventilada, resumindo-se a pormenores fúteis de jantaradas e bebedeiras siderais. Passou-se à parte da competência linguística, quando Sissy lhe perguntou “que línguas falava”, ao que Pedro respondeu: Inglês, francês, italiano, espanhol e até um pouco de alemão, se bem que a sua preferida fosse a sua língua materna, o português, nacionalismo este que Pedro não sentiu nada abonatório em seu favor, já que Sissy era uma adepta incondicional e fervorosa do cosmopolitismo que as suas heroínas exibiam nas revistas. Foi a este propósito que falou nos países que gostava de visitar, na Índia e no TajMahal, onde, pelos vistos, segundo Sissy, se alojavam príncipes em mil e um quartos para mil e uma noites, nas piscinas fantásticas do México onde as suas referências biográficas se sentavam debaixo de um céu azul para beber água de coco. Gosta de italiano, Sissy, por isso mesmo pediu a Pedro que dissesse algo em italiano. Para lhe fazer o gosto, Pedro disse “ma che bella dona tu sei!”, o que agradou a Sissy, que lhe agradeceu com um sorrisinho plástico. Depois de uma breve passagem pela experiência profissional, Sissy chegou ao ponto mais almejado da construção do seu cv: o “Incomming”. Pedro sentiu isso quase imediatamente. Sentiu que a parte do Incomming era essa caixa de Pandora que lhe permitia tirar todos os segredos que Sissy, a começar, e principalmente, pelas roupas da moda que naquela tarde oprimiam de forma algo insolente as suas apetitosas carnes. Sentiu que, de facto, se esta parte fosse satisfatória aos olhos de Sissy, a menina burguesa amá-lo-ia com sinceridade. Perguntou se, vivendo Pedro a X quilómetros da localidade Z, onde trabalhava, lhe “compensava” fazer o trajecto casa-trabalho/trabalho-casa todos os dias. Pedro compreendeu que este “compensava” levava em si todas as coisas reais e toda a metafísica do mundo. Compreendendo que a conversa ficara subitamente pesada, Pedro falou um pouco do Natal que se avizinhava, e que bom que era, reunir com a família, as prendas e essas coisas todas. Sim, respondia Sissy, esperava que o Pai Natal, quando largasse da sua terra Natal, a Polónia, se lembrasse dela. Pois, o Pai Natal, da Polónia… Nesse momento, Pedro ensaiou um riso à Pai Natal meneando os ombros e rindo de forma idiota, o que soou ridículo aos olhos de Sissy, já que as coisas em si nunca são ridículas, tudo dependendo de quem as faz. A quem é rico é que fica tudo bem. Nesse gesto de meneio dos ombros, Pedro tocou ao de leve num dos mamilos vigorosos de Sissy, tendo recuado muito ligeiramente para trás com um sorriso espontâneo cheio de malícia, disparando imediatamente um clima erótico na sala, um templo asiático cheio de aromatizantes e opiáceos onde Sissy, a idiota das belas carnes, era a poderosa Afrodite.&lt;br /&gt;Despediram-se poucos minutos depois, e Pedro ficou com a impressão que não voltaria a ter novas de Sissy. Nessa noite, dormiu um sono leve pejado de sonhos sem sentido. Sonhou com o Pai Natal, que desenlaçava uma das suas renas da porta principal do campo de concentração de Auschwitz. Pouco depois o Pai Natal sobrevoava a sua cidade com uma torrencial chuva de prendas. Na imagem seguinte surge Sissy no trenó, em vez do pai natal, semi-nua, belíssima, debaixo de uma tempestade de dinheiro. Oh Sissy! Como a beleza vale só por si, por mim, por todos os idiotas morais deste mundo. Quantas ideias nobres não abandonaria para poder morder a tua cervical, que de forma tão perfeita adorna e coroa o cume das tuas costas, essas costas que formam duas colinas despegadas. Percorreria esse vale com a língua até chegar à beleza erótica das tuas nádegas. Como eu mergulharia voluntariamente nessa mediocridade da vida a dois se pudesse suspender com os meus lábios o teu queixo, beijar fogosamente as tuas maçãs do tosto, morder levemente os teus mamilos, cheirar a tua carótida, percorrer levemente com as minhas orelhas frias o teu abdómen até chegar á beleza oculta do teu sexo, onde tocaria ao de leve com a ponta da língua as terminações nervosas do teu clitóris. Sissy percorria a minha cidade de trenó sob uma chuva torrencial de notas e moedas. Passado um pouco, encontrava-se já no meu quarto, onde inadvertidamente se lançou de pernas abertas para a minha boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há já tantos anos que tenho a sensação de ouvir a mesma música. A mesma música em todo o lado, como se a história não tivesse imaginação, ou como se a imaginação, nestes tempos do Fim da História a abandonasse de uma vez por todas. Mas é a mesma, essa música terrível e monótona, que soa em todo lado, e há tanta gente e tanta coisa em todo lado, e tantas histórias na história, histórias de vida deveras admiráveis, de gente comum, que se banqueteia no início do mês e castiga o estômago lá para o fim, a história ressurge, na forma de uma música, um remix, uma voz isolada, uma orquestra, de início irreconhecível, mas que, mal os olhos se avivam, e estamos já prontos para a vomitar.&lt;br /&gt;Por isso é sem surpresa que dou por mim nos cantos e nas esquinas, ouvindo os mesmos argumentos, gastos pelo tempo, mas que de alguma forma a estupidez generalizada não deixa de validar com os seus votos de gente. É também por isso que, se alguém me sorri, acredito na sinceridade do sorriso ainda que este leve em si toda a ignorância do mundo. Nesses cantos, onde me perco, recusam-me tudo o que não peço sem dizer uma única palavra. Além disso existem fases da vida, e clichés, e mais cedo ou mais tarde acabamos por encaixar em algum. É então que eu pego no meu e visto-o com todo o orgulho, como um soldado enverga o seu uniforme manchado de sangue inocente, e sabe que não deve sentir vergonha por isso, porque é precisamente vergonha que deveria sentir, e nada mais que a vergonha lhe agrada. Depois, é tão bom manter as aparências… O espaço social é, simultaneamente, o mais rico em estupidez e o mais importante. Daí que seja de todo honesto contar-vos que Pedro não sentiu vergonha, quando fizeram dele, aliás, com argumentos bastantes convincentes, um vencido-da-vida. Sim Pedro, eles riem-se de ti, e não fora a convenção social, cuspir-te-iam também. Sabes porquê? Tu és o seu inimigo natural, e eles sabem disso, e tu também, mas nunca ninguém to diz abertamente. Tal como hienas esfomeadas, esperam apenas o momento de dispersão dos leões para atacar, mas não atacam tão abertamente, dão-te apenas umas mordidas subtis para que vás sangrando até à morte. É o seu instinto, e não os podes recriminar por isso. No seu lugar farias o mesmo. Acredita que sim. Mesmo aqueles que te querem bem, ou que supostamente te querem bem, apenas transfiguraram o desejo que têm do teu sofrimento. O seu desejo sempre foi ver-te morto, ou então que desapareças, mas desaparecer completamente, até da memória dos outros, esse lugar cativo que sempre se assegurou aos nossos avós, mas que o tempo moderno, na sua crueldade ilimitada, deseja também ver proscrito. Para isso amigo, não apagarão a face do teu sarcófago, nem rasurarão o teu nome de todas as paredes do templo em jeito de danação ad eternum. Farão precisamente o contrário, repetindo o teu nome até à exaustão: nos bancos, na escola, na faculdade, no trabalho, no hospital, nas ruas. Em todo o lado, a palavra que serve de suporte verbal ao teu nome, esse conjunto articulado de sons, deixará de fazer qualquer sentido. Mas não julgues, por isso, que o fazem só por ti. Seria tolo pensar isso, uma vez que o mesmo acontecerá com eles. Não és assim tão especial, porque essa angústia que sentes, essa angústia e exasperação, essa é a angústia de todos, e quando todos mostram esse doce desespero de ver o seu nome escrito em toda a parte lutam apenas para não desaparecer. No futuro, todos lutaremos para não desaparecer definitivamente da memória dos homens, esse lugar comum disputado por tantos invulgares. Só acreditaremos nisso enquanto julgarmos que a história se compadece com estes ensejos pueris, porque mal daremos conta que já ninguém é nada, e aí aparecerá Berlusconi para nos salvar. &lt;br /&gt;Se pudesse nomear de alguma forma este capítulo, seria como o “Elogio” a Berlusconi”, e embora eu saiba que todas as palavras são poucas para designar um homem providencial, não me cansarei de repetir o seu nome. &lt;br /&gt;Cansados de discutir, de debater a verdade, de repisar os argumentos, de investigar as falácias do comportamento humano, de encher páginas e páginas de humanidade e civilização, nada mais restará do que a animalidade para definir um homem. Quando já todos estivermos tão cansados de tudo, e de pensar, e de fazer, chegará o homem que dirá: “Faça-se!”. Lembremo-nos da história do nosso ditador “de trazer por casa”, Salazar. Estamos nos anos sessenta, e foi constituída uma comissão para a feitura de um novo código civil. A dada altura do seu labor justiniano, o legislador depara-se com um obstáculo inesperado, uma perplexidade excruciante. O género do termo jurídico: “usucapião”. Suspendem-se todos os trabalhos para se encetar a discussão. Convidam-se para um grupo de trabalho todos os juristas mais prestigiados do país, filólogos e gramáticos de renome. O ilustre concílio durou meses sem qualquer resultado. A dada altura, já quando todos se mostravam visivelmente exaustos e frustrados com os parcos resultados obtidos, que não fosse uma aproximação à origem latina do termo, alguns contextos, alguns sentidos usados nas compilações legislativas anteriores. Parecia inacreditável, que sendo o direito civil o mais antigo direito existente, e a usucapião uma das suas mais vetustas instituições, ninguém tivesse sentido a necessidade de empregar um artigo, definido ou indefinido, que lançasse alguma luz sobre o seu género. Esse desleixo histórico, agora repercutido tão cruelmente na nação lusitana, que aguarda o seu código civil e coloca toda a sua fé nesse grupo de sábios. Foi então que uma voz iluminada disse: “Já sei! Vamos perguntar a Salazar!”. O tímido emissário avança, cauteloso, abre cuidadosamente a porta do gabinete do professor Salazar, e lança-lhe em breves reptos o problema em questão e o estado actual dos trabalhos. Com um desdém que é próprio a quem tem mais que fazer, Salazar responde-lhe, quase sem largar vista dos seus documentos: “É feminina!” Dois segundos apenas.   &lt;br /&gt;Oh! Berlusconi! Enche-nos com tudo aquilo que sabe tão bem! Faz palhaçada, orgias com adolescentes, escândalos de corrupção, manobras políticas sujas, discursos de charlatão, mas salva-nos de nós próprios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que Marília encontrou Pedro achou-o snob e pretensioso. De resto, Pedro encetou sinceros esforços por passar essa imagem. Por tudo isto, o título ideal que Marília encontraria para definir este capítulo seria “Estranheza”. Foi estranha a forma como Marília aceitou, a golpes de espada, o convite de Pedro para jantar. Foi estranha a conversa que tiveram nesse estranho jantar. &lt;br /&gt;Falaram da Revolução no século XXI, da estética Holliwoodiana, da indiferença da bioquímica aos sentimentos humanos, entre outras coisas… estranhas. Desde logo, porque um tipo que se cobre de roupa de marca não deveria falar de forma tão acirrada dos direitos dos pobres, da escravatura no século XXI, da frustração de expectativas de toda uma geração, isto é, de todo aquilo de que ele próprio não sofria.&lt;br /&gt;Pedro proferiu a frase mais do que gasta de que “este mundo é uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”, depois falou na sua Revolução, que esta começa com o derrube dos muros mentais de cada um, e que aí reside o início de tudo, quando o fenómeno se generaliza. Por outro lado, continuava, acabava por agradecer às classes dominantes o irracionalismo e cegueira de valores, porque só assim, segundo ele, se reuniriam as condições ideais para a Revolução. Além disso, prosseguiu, seguindo a tendência evolutivo-dialéctica da história, o século XXI seria um século que iria conhecer a violência e brutalidade mais crua. Fim da História? Não lhe falem nisso… Isso é uma treta. Não teriam os ennuyés do século XIX razões para o seu pacato século se lhes assemelhar um Fim da História? No entanto, enquanto os barões se deleitavam com as cocottes, milhões e milhões de seres humanos eram escravizados. No entanto, não seria o mundo escravizado a assaltar o mundo hipócrita e civilizado, mas seria a sua própria implosão que provocaria a queda. A hiper-civilizada sociedade do século XIX morreria enterrada na lama das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Da mesma forma tendemos a ver o nosso mundo civilizado ocidental como um Fim da História, e julgamos que todo o universo é agora civilizado, ou em vias de o ser, apenas porque adoptou os nossos procedimentos democráticos estúpidos mas sabemos que isso não é verdade. A ideia de democracia é essencialmente ocidental, e as instituições nunca sobreviverão em lado nenhum quando impostas de cima. É a própria vida e realidade que leva os germes da mudança, e o caminho do avanço civilizacional é feito com um trilho de sangue, ou a dentes de siso, como queiram. Mas existem vozes sinceras nesses países que falam a favor da democracia? Sim, claro que sim. Vozes sinceras, mas o seu verdadeiro desejo e função é perecer. São fenómenos e ilhas isoladas, não raro educadas em países ocidentais com bolsas ocidentais. Fará algum sentido a sua inclusão nas suas sociedades de origem? Nenhuma. Ou apanharão uma desilusão de morte, ou então tornar-se-ão numa coisa pior, bastante pior… Não temos o exemplo dos líderes africanos dos movimentos de libertação?&lt;br /&gt;Pedro falou ainda na irracionalidade dos sentidos, e que a vertente racional da nossa existência é apenas uma capa muito fina e frágil, derrogável a qualquer momento, também ela uma imposição do instinto de sobrevivência. A epopeia humana, mais concretamente, a masculina, mais não foi até hoje do que um desejo de, ora esquecer, ora combater a violência e indiferença da natureza em relação a tudo aquilo que o Ser-Humano constrói, e todo esse Babel de afectos de que se rodeia. Aí mesmo se projecta o sentido estético humano, nada mais do que um desejo de superação, ou, se quisermos, um desejo de domesticação da natureza, esse ensejo essencialmente masculino. Não seriam as mulheres essa violência, essa indiferença em relação às aspirações masculinas? Não seria, até essa, a violência masculina, uma forma desesperada de medo e de desmistificação da mulher, que mais do que qualquer outra coisa o homem teme?&lt;br /&gt;Neste ponto da discussão, na qual Marília ainda não interviera a não ser através de olhares, ora pasmados, olha envergonhados, quando Pedro proferia exasperados palavrões que serviam de mata-borrão a algumas das suas ideias, para as quais julgava as palavras singularmente inadequadas ou inexpressivas. Quando se cansou do seu monólogo, Pedro voltou a fixar o olhar no miolo do pão, com o qual começou a fazer bolinhas. Nesse preciso momento, Marília olhou-o fixamente, olhar que Pedro nem sequer sentiu, porque olhava para o chão. Não estava seduzida, nem com a sua inteligência, nem com a argúcia da sua visão política. Apenas uma frase lhe acorria ao pensamento: “Queres-me comer! Isso é mais que óbvio, mas daqui não vais levar nada, nem levarias, nem que fosses o último homem à face da terra”!&lt;br /&gt;Quando se despediram, na primeira esquina à saída do restaurante, Pedro sentiu em plenitude o fracasso da sua empresa. Talvez por isso mesmo nem tenha tentado a sua técnica habitual do beijo furtivo. Quando Marília virou costas, Pedro pensou: “Marília, és burra como uma porta, mas és a coisa mais linda que já vi. Por isso, amo-te”. Poucos segundos depois, Marília espreitava do escuro a esquina que Pedro já dobrava, e esse homem que não lhe inspirava o mais pequeno sentimento de amor fazia agora desaparecer a sua linha de perfil na escuridão. Marília sentiu uma enorme compaixão por ele, e só por isso seria capaz de o amar. Mais tarde, viria mesmo a admitir que verteu algumas lágrimas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-8846636754663344998?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/8846636754663344998/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/12/fantastica-viagem-de-pedro-ao-pais-do.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/8846636754663344998'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/8846636754663344998'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/12/fantastica-viagem-de-pedro-ao-pais-do.html' title='A fantástica viagem de Pedro ao país do nada'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-765948079396039878</id><published>2009-12-05T05:35:00.000-08:00</published><updated>2009-12-05T05:36:29.647-08:00</updated><title type='text'>A confissão de um homem-médio</title><content type='html'>Possibilidades limitadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conservo uma memória histórica de alguma forma limitada desses tempos de revolução em que tudo parecia possível. Limitada, desde logo porque é construída com base em pressupostos criados pela minha imaginação e interpretação dos factos, e não por uma vivência real. Talvez se a tivesse vivido na realidade, se tivesse marchado com Lenine da estação Finlândia ainda tivesse uma ideia mais deformada das coisas. O que é certo é que as coisas apenas mudaram de revestimento, porque o conteúdo é exactamente o mesmo. Era óbvio que os senhores da guerra, filhos de pastores e sapateiros, depois de ascenderem eles próprios ao poder teriam como função primordial, antes de todas as outras, impedir que os filhos de outros pastores e sapateiros ascendessem socialmente. Eles sabiam melhor que ninguém o perigo que representavam para si próprios. Daí que o século XX me pareça apenas uma forma perversa de destruição de si próprio, de aniquilação de possibilidades. Não é com grande surpresa, e até, confesso, uma certa complacência, com esses senhores das secretárias que num sistema de abolição da propriedade encaram os seus cargos como propriedade privada. Não é de estranhar que os senhores das empresas públicas e universidades, logo que assumem um cargo importante, tenham apenas duas preocupações em mente: primeira, puxar o tapete a todos aqueles que eventualmente lhe possam fazer sombra; segunda, puxar o tapete a todos aqueles que eventualmente possam vir a concorrenciar com os seus filhos no acesso aos cargos; terceiro: criar a sua própria Casta, a sua própria linhagem. Por isso vemos essas aberrações de nomes conjugados e patronímicos proposicionais acrescentados fora de tempo, como “de Silva”, “de Moreira”. &lt;br /&gt;Certo é que voltamos à estaca zero em termos de mobilidade social, e o ódio com que o mujique citadino olha o senhor engravatado é o mesmo com que os paisans et vilains olhavam o senhor feudal. Mas diferentemente da Idade das Trevas, os sains coullottes de hoje não se podem organizar em massa para combater os seus inimigos de classe. De nada lhes vale organizarem-se em hordas estúpidas e esfomeadas, saqueando tudo o que encontram pelo caminho. O monstro que os oprime é uma colossal máquina burocrática, sem face e sem nome. Os relatórios constituem os seus tentáculos. As interpretações engenhosas da legislação que brotam aos jorros todos os dias fazem mais pela castração da sociedade civil do que qualquer decreto imperial. Cada jovem intelectual que lançam no desemprego faz mais pela censura do que qualquer index. Nem preciso pensar o que será da liberdade de expressão quando todos se puderem exprimir livremente, mas tão livremente que não existe ninguém para ouvir, não existe ninguém para reprimir, ninguém para abafar, nenhuma policia anti-motim, mas todos os dias que se deitarem na mediocridade das suas camas, se sentarem na miserescência das suas cadeiras de escritório, sentirão todo o peso da história, como a vida limita só por si, e tudo voltou a ser como dantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casos pendentes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é esse homem que tão apressado se dirige a parte alguma? Qual o seu nome? Qual a sua missão? Chama-se Joaquim, José, António, Manuel, Rodrigo, Frederico, Pedro, Adelino, Alberto, Cristiano, Carlos, Ricardo, Vítor, João, Tiago. Tem todos os nomes, todas as profissões e todos os desejos. Talvez porque todos os desejos, de toda a gente seja o seu, aderiu de forma hábil ao partido do governo. O partido que governa e que, de resto, é também o único. É um partido que pretende agregar todas as tendências e todas as aspirações dos cidadãos. Houve mesmo um teórico do partido que definiu a sua existência como anterior, mesmo em relação à própria sociedade. Antes dos homens se autorganizarem em grandes sociedades, as relações de força impunham já assunção de uma determinada política e uma vontade de poder a que podemos chamar partido. O partido é anterior a tudo e condição necessária de tudo. Chega então àquela fase da sua vida onde já não se pode ir muito além da perfeição, porque enfim, esse é o destino glorioso dos que enveredam pelo bom caminho. E o partido é isto, sou eu, tu, ele, as árvores, o chão que pisamos. Mas a política e as decisões que emana deverão, para que o povo nos ame, ser sempre algo de profundamente incógnito ao comum dos mortais. Diremos apenas esse FIAT, destruiremos, construiremos sobre o sangue dos nossos  inimigos, façamos doutrina, separemos famílias, destruiremos vida, destruir-lhes-emos a vida, massacraremos, roubaremos até as o pão que têm sobre a mesa, as cuecas que têm para vestir, e eles adorar-nos-ão por isso. Por isso o homem só é capaz de amar aquilo que de alguma forma lhe é incompreensível.&lt;br /&gt;Surgiu recentemente o rumor de que o partido quer refazer as suas bases, quer reorganizar a sua estrutura em ordem a prosseguir objectivos mais sólidos, sem recuos como aos que assistimos no passado. Só assim a nossa credibilidade sairá inabalável. &lt;br /&gt;Quanto ao povo, a massa, o melhor é nem falar. Porque a vontade do partido é a vontade de todos, que se exprime na voz de um só homem. A voz de esse homem anunciou recentemente à porta fechada que é necessário refazer, reinventar. Disse que há alguns casos já decididos e outros pendentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque partem os comboios?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque partem os comboios a toda a pressa, e porque levam eles tanta gente? Porque há tanta gente tão apressada a ponto de viajar de pé, recusando inclusive o aquecimento, condição essencial num país tão frio como o nosso. Porque vão de armas e bagagens e as suas crianças choram, como se pressentissem que nunca mais voltariam? Porque é que se imprime nos olhos de todos uma expressão de abandono, de quem perdeu toda a esperança no que quer que seja. Se são já seres humanos, porque é que ninguém se contenta em ser simplesmente humano?&lt;br /&gt;O nosso Querido-Líder compreendeu, antes de nenhum outro, que as pessoas devem estar em constante movimento. A única forma de estar do ser-humano é o constante movimento, e só esse movimento lhes permite fazer a limpeza histórica das suas memórias. Num território tão vasto como o nosso não parece ser difícil. A ingovernabilidade do nosso colossal país é apenas ilusória. Basta manter os comboios em movimento, e o tempo e o espaço farão o resto, tal como a natureza se governa por si própria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens de gabardine&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Joaquim se levantou, cumpriu o seu hábito de correr as cortinas da janela do seu quarto que dá para a estrada. Foi sem surpresa e viu dois homens de gabardina preta, que fumam encostado a um carro do outro lado da estrada.&lt;br /&gt;Tomou o seu duche do costume e defecou na sua não muito confortável sanita da minúscula casa-de-banho. &lt;br /&gt;É escriturário, como toda a gente neste país… Este país vive de relatórios, e o relatório é a única coisa que parece alimentar a nossa imaginação. O relatório é uma espécie de rosário deste mundo moderno, onde a sua inalterável prosa constituiria, sem qualquer dificuldade, já um género literário menor. Tem a vantagem de transformar os homens em ilhas, ilhas remotas onde as únicas barcaças que nos permitem comunicar são esses relatórios em papel de imprensa, que circulam na segurança de envelopes lacrados transportados por fiéis mensageiros. &lt;br /&gt;Quando sai para a rua sem que ninguém repare em si, não deixa de reter que o mundo moderno ensinou como nenhum outro a lição de cada um se meter na sua vida. Aprendeu, ele próprio, que as maravilhas da civilização são um pau de dois bicos – por exemplo, quantos tribunais não julgam hoje em dia pessoas inocentes? E não as condenam? E não as torturam? Quantas leis, regulamentos, directivas, circulares, não trazem mais a liberdade do homem pela lei mas a sua opressão sobre um tirano diferente? Não há duvida que o tirano é a espécie rara mais fácil de substituir, o que só por si é um paradoxo. Mas não há dúvida que a ciência e a tecnologia são um pau de dois bicos. Por exemplo, se não existissem automóveis não estavam agora aqueles dois sujeitos de gabardine encostados num; e se não existissem metropolitanos não me seguiam eles até ao metropolitano, sentando-se apenas alguns lugares atrás de mim, conversando baixinho, baixinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone toca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu do metro com bancos corridos almofadados, algo que penso ser um exclusivo da nossa cidade, ou melhor, da nossa sociedade. Pois foi aqui que o homem conheceu, primeiro que todos os outros o sabor da libertação do jugo das classes dominantes. Um poderoso fim de uma história repetida ad eternum nos séculos passados. Fossem os escravos, cansados da sua condição de objectos fungíveis que matavam os seus senhores para depois saborear o instinto da liberdade, esse que a sua condição de escravos desde o nascimento mantinha adormecido. Fossem os servos da gleba, caminhando sobre séculos de escuridão e de trabalho árduo, puxando o arado com a sua própria força sulcando o solo gelado das terras do senhor. De todos eles, cujos ossos jaziam em descampados após um massacre militar, novos valores e novos escravos e servos da gleba levantavam-se, lembrando-se que o homem fez-se para ser livre, que a exploração do homem pelo homem não é a condição da natureza, mas o seu oposto. Por isso eu amo o meu partido, porque foi o primeiro que deu o grito intelectual de todos esses nomes sacrificados pela história. Ainda que não tivessem nome, ainda que fossem apenas faces sem nome, nomes sem faces, corpos sem sombra, sombras sem corpos. &lt;br /&gt;As escadas rolantes estendiam-se em direcção à rua num sentido vertical, demasiado vertical. O túnel do metropolitano fora criado fundo, demasiado fundo. Por isso quem subia pelas escadas rolantes tinha a sensação se ascender aos céus, neste caso à terra, o único céu possível. Mas porque não se contentam então em ser apenas humanos? Porque é que não chega ser humano?&lt;br /&gt;É com o mesmo desejo de me fundir com a multidão, pois assim lograria o meu esconderijo, que me sento abespinhado na minha secretária, enquanto pensava em alguma razão válida para as coisas. Porque é que esta cidade, a Jerusalém dos tempos modernos, a Constantinopla das almas ateias, tem mais de dez milhões de habitantes e é precisamente para a janela do meu escritório que pasmam aqueles dois homens de gabardina? Porque é que esta chuva gelada de Outubro que começa agora a cair não dissolve tudo à sua volta, os seu edifícios e as caras das pessoas, tudo em desintegração, como que banhados por ácido. Talvez depois dessa chuvada esses homens já não estivessem aí e a minha alma teria algum descanso. Tudo é a tão indiferente a tudo, mas acredito que a única coisa que pode tirar o homem da indiferença é quando a sua vida corre perigo. Só um perigo mortal é capaz de provocar alguma reacção em alguém. &lt;br /&gt;Sempre me ensinaram que esse perigo mortal provinha do exterior, e nós, o povo escolhido, encolhido no nosso enorme país continental seriamos sempre motivo de inveja e cobiça pelos nossos vizinhos. Que repetidamente tentariam anexar partes ou a totalidade do nosso território, e o perigo está em todo o lado. Está no Ocidente, está no Oriente,  está no Norte e está no Sul. A Ocidente estão os outros que sempre invejaram a nossa prosperidade continental, e por isso nunca lhes invejamos a sua prosperidade ultramarina, que tão bem conhecemos sem conhecer. A Norte está o limite do globo, e aí o nosso inimigo é apenas o tempo, sempre ele, esse único e invencível que tudo devora. No oriente e no sul estão os bárbaros, que destruirão logo que possam a nossa próspera civilização que não conhecem.&lt;br /&gt;Chega mais um relatório, e este traz uma pequena lombada vermelha, o que é sinal do alto grau de importância. O mesmo tempo que agarro com as duas mãos este relatório o telefone toca o seu uníssono estridente. &lt;br /&gt;Atende, era o chefe, que diz que foi contactado essa mesma manhã para se apresentar na esquadra que o assunto era urgente, muito urgente, o caso grave, muito grave. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ténue luz amarela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei ao escritório com as minhas mãos empapadas em suor apesar do frio que se faz sente já nesta altura do ano, a primeira coisa que me chamou a atenção foi um candeeiro pendendo to tecto com uma lâmpada de luz amarela, que iluminava de uma luz ténue as parede branco-sujo da esquadra. Porque é que nos momentos limite fixamos a nossa atenção nestes elementos sem importância? Porque é que as pedras e os muros e os edifícios e as casas e as estradas são indiferentes ao sangue e sofrimento que por eles passa? Olho para a Praça Vermelha, e onde precisamente hoje se faz uma esmagadora parada militar já morreram centenas de milhares de pessoas empaladas. O que é que significa tudo isto afinal? &lt;br /&gt;No início, já sabíamos que confiávamos em alguns homens onde depositamos todas as angústias que trazíamos acumuladas. Fizemos do sofrimento o nosso modo de viver e da luta a nossa máscara. Quando pensávamos que era a hora de tirar a máscara já nos tínhamos desencantado de tudo, já tudo era igual, homogéneo, e haverá algo pior que ser homogéneo? Haverá dor maior que a de ser vulgar? &lt;br /&gt;Essa ténue luz amarela que se instala nas almas, nos atrofia toda e qualquer palavra, que irradiada por essa luz parece pequena ou insuficiente. Foi essa luz amarela a primeira coisa que vi quando entrei naquele escritório. O mobiliário sóbrio e os símbolos pungentes do partido parecem indiciar aquilo que já todos sabemos. Que a vida é o partido e nada existe além do partido. Deus morreu, mas sabemos que ainda podemos contar com o partido, esse céu terreno que um dia se abaterá sobre nós. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre certas e determinadas coisas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chefe Parménides arrastou levemente a cadeira sentando-se confortavelmente. Olhei nos olhos os bustos dos nossos padroeiros, contemplei as suas testas longas e a forma como se demoravam ao fitar-me. O chefe dirigiu-se a mim num tom sereno, sem amor nem ódio. Apenas aquilo que deveria ser. Nesse mesmo tom calmo informou-me que tinha sido informado de certas e determinadas coisas que me comprometiam seriamente em relação à minha fidelidade com o partido e com a nação. Não respondi. “De maneiras que”, continuou, tenho aqui um documento que circunstancia todos os factos relativos a essa situação. Como pode reparar, aqui, no final, encontra-se um termo de responsabilidade, o qual deve assinar. Um confissão, portanto. O que pretendem é que eu assine uma confissão, um termo de culpa por certas e determinadas coisas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quê, a culpa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabada a sua prelecção, o chefe perguntou-me se tinha algo a dizer sobre o que ali constava. Os escrivães debruçam-se diligentemente sobre os seus cadernos para iniciar o relato. Respondi que não tinha conhecimento de nada do que ali constava. Respondi que sempre tinha sido inteiramente fiel ao partido e aos seus princípios, que tinha cumprido escrupulosamente tudo o que me tinham ordenado, inclusive, alguns processos semelhantes àquele a que agora me submetem. Sim, também eu, em tempos, fui encarregado deste tipo de processos. Na altura, tratou-se tão só de “despachar” X número de burgueses da região Y, que, não obstante o seu comportamento anti-social e inimizade para com toda a causa humana, refugiando-se apenas nos seus interesses pessoais, foram submetidos ao due process of Law, porque o nosso país é um país civilizado, não como esses países bárbaros de mongóis onde se mata por tudo e por nada. Aqui matamos, mas os acusados têm a oportunidade de apresentar as respectivas observações. &lt;br /&gt;“Se conheces assim tão bem o nosso procedimento”, acrescentou o chefe, “sabes melhor do que ninguém o que aqui está em causa…”. Sim, sei o que está em causa, o que está em causa é o meu desaparecimento. Precisam que eu desapareça… Mas se eu sempre fui fiel ao nosso partido e à nossa causa… “Se és assim tão fiel ao teu partido e à causa, assinarás este termo de culpa, ainda que sem culpa, porque é isto que o teu partido exige de ti”. Se os meus superiores e o meu partido exigem de mim esta confissão, se eles determinaram que eu deveria ser alvo deste processo, certamente que terão boas razões para isso. Eles sabem o que fazem. Assinei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-765948079396039878?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/765948079396039878/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/12/confissao-de-um-homem-medio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/765948079396039878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/765948079396039878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/12/confissao-de-um-homem-medio.html' title='A confissão de um homem-médio'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-3472667043111472566</id><published>2009-11-15T09:01:00.000-08:00</published><updated>2009-11-15T09:03:14.347-08:00</updated><title type='text'>Deambulações invulgares em lugares comuns</title><content type='html'>I- Uma vida série B&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já vi tantas coisas estranhas que no entanto conheço tão bem…&lt;br /&gt;Quando não temos dinheiro, até os cães nos mijam nas pernas. Isto é mais verdade em Nápoles do que em qualquer outra cidade que conheço.&lt;br /&gt;Nasci em Génova, famosa cidade do Norte de Itália. Apaixonei-me por Nápoles ainda sem a conhecer. Sempre me disseram que Nápoles era um lugar de perdição, por isso, talvez a força centrípeta que me atraía a Nápoles fosse o meu próprio desejo de auto-esquecimento. O paraíso e o inferno, o tudo e o nada, no mesmo lugar. Poderá haver algo mais fascinante do que isto?&lt;br /&gt;A minha paixão por essa Nápoles ainda desconhecida fez com que galgasse num comboio apertado a península Itálica em direcção ao sul. Cheguei à Estação Garibaldi em plena hora de ponta numa tarde de Outono. O céu estava muito nublado e o tempo seco, como que a adivinhar chuva. &lt;br /&gt;Apenas duas breves impressões da primeira vez que coloquei os pés em solo napolitano: primeira, não fui assaltado, como advertiram insistentemente os meus amigos mais zelosos. Segunda: a agradável confusão – a calma azáfama da Piazza Garibaldi. Ainda hoje me parece impossível como o caos pode ser tão calmo, como todo aquele amontoado de carros sem direcção definida, peões abnegadamente prostrados na estrada, o barulho ensurdecedor do rufar das motos, a poluição… meu Deus, a poluição! Tudo flui numa calmaria incessante, como se o tempo não existisse ou fosse uma coisa puramente suprível, como se a cidade tivesse a sua própria noção de tempo.&lt;br /&gt;Saí do recinto da estação e apanhei um táxi na praça adjacente. Bom, quando disse que não fui assaltado em Nápoles estava a ser benevolente com a fama desta cidade que tanto amo. Na verdade, fui assaltado, mas não de arma em punho e rangeres de dentes ameaçadores. Antes com sorrisos e conversas corriqueiras intercaladas com palavrões e maldições em dialecto: o taxista. No curto percurso que vai da Estação Garibaldi à Via dei Tribunali, onde tinha o quarto reservado, o maldito (com um palito na boca e um sorriso desdentado) cobrou-me nada menos que 40 euros! Mamma mia! Che coglione! Primeiro pensei dizer-lhe que não pedira uma visita turística, depois pensei perguntar se o preço incluía uma noite com a sua esposa. Calei-me. Paguei. &lt;br /&gt;Não trazia na mala nenhum objectivo ou aspiração, quando cheguei a Nápoles (nem era suposto que assim fosse). Pretendia apenas deixar-me fluir na multidão e deixar que as intricadas malhas do acaso me envolvessem. Trazia alguns “trocos” juntos de Génova, amealhados com o suor do meu trabalho e algumas pequenas privações. O plano era simples: fruiria do meu dinheirito acumulado, depois logo se via. Se gostasse, pensaria arranjar trabalho e ficar por lá “uns tempos”. Se não gostasse, voltaria para Génova com o rabo entre as pernas. &lt;br /&gt;Empreendi assim, de imediato, o meu auspicioso “não-plano” de dolce fare niente. O meu trabalho seria esse: não fazer nada. O tempo viria a mostrar-me que Nápoles é uma cidade mais dura do que generosa, mesmo para quem não faz nada. &lt;br /&gt;A primeira vez que me fiz ao caminho na minha rua, a via dei Tribulani, excluindo o dia em que cheguei, em que a vi apenas de relance, esse primeiro dia, nunca o esquecerei. Era estranha a sobreposição de realidades que comportava aquele espaço. As belas e decadentes arcadas à minha esquerda, o comércio tradicional, os motorini a toda a velocidade, passam tão perto de mim que me basta erguer o braço para assoar o nariz para lhes tocar. Virei à esquerda na Via Nilo, cercada de altos palazzi com a roupa a secar, alguns de estrutura estalada pelo terramoto dos anos 30. Cheguei à Spacanapoli. A primeira vez que ouvi o nome dessa famosa avenida napolitana pareceu-me ouvir “scapanapoli”! Uma avenida enorme cortando a cidade antiga em duas, cheia de vida, estudantes, turistas, motorini, pedinchões, ociosos… um pouco de tudo. Segui um pouco em frente e encontrei a Piazza Gesú. Continuei e encontrei a não menos famosa Via Toledo ou Via Roma, como lhe chamam os locais. Dei o meu primeiro passeio na Via Roma, apinhada de gente caminhando a passo de caracol (o que me custou, uma vez que tenho o hábito de andar rápido), com o vetusto quartier Spagnolo à minha direita. Já no fim, encontrei a Piazza Trento e Trieste, e a via Chiaia à minha direita. Mesmo em frente, o Palazzo Reale e a Piazza Plebiscito. Que monumentalidade! Que imperialismo! Caía a noite. Fui jantar ao restaurante com a melhor relação qualidade/preço que o meu guia recomendava: O restaurante Nennella, no Quartier Spagnolo. Muito bom, de facto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Costuma também dizer-se que Nápoles pertence à chamada “Itália série B”. Logicamente que este chavão pressupõe que a Itália série A seria a Itália do Norte, de Roma para cima, bem entendido. Temos assim uma Itália do Norte industrial, cosmopolita, esquecida das suas origens para abraçar unicamente o italiano como língua. A Itália do Sul, a Itália dos terrani, será aquela Itália a que alguns também chamam de esquecida, não só porque o poder central, o Estado, essa categoria de facto tão estranha a tantos italianos, a tinha esquecido, a da industrialização incipiente, crime organizado, a pizza, o falar aparatoso. Não interessa! Optei pela Itália série B. &lt;br /&gt;De resto, a minha escolha não é assim tão estranha no cômputo geral das minhas opções de vida. Sou aquilo a que poderiam chamar: um falhado bem sucedido. O que será isso de um falhado bem sucedido? Em que consiste? Consiste precisamente no facto de que, desde o fundo da minha alma, nunca desejei outra coisa a não ser o falhanço. Poder-se-ia dizer que este tipo de opções irreflectidas são coisas de juventude, devaneios… Não me parece! Tão simplesmente pelo facto de que nesta altura do campeonato levo já 28 anos de idade e nenhuma perspectiva de vida, pelo menos no sentido vulgar do termo. O facto essencial é que, por via popular ou erudita, o termo falhado assenta-me como uma luva. O meu pai disse-me que eu era o típico caso da montanha que pariu um rato. Não o censuro… A extraordinária sensação de conforto que sinto na pele de falhado até a mim me apavora. Imagino então o que suscitará aos que me rodeiam. &lt;br /&gt;Começo mesmo a imaginar-me neste papel como um estóico resistente ao sistema, esse que nos impõe objectivos, metas, modelos de vida. A inteligência desta opção consistirá precisamente nessa resistência passiva. Imaginava-me já a passar junto aos meus companheiros de luta, isto é, os amigos de faculdade, e todos me cuspiam, ou pior, olhavam com piedade. Dir-lhes-ia: “Isto sou eu!”. Afinal, serão as nossas angústias muito diferentes? Será diferente a angústia do que não tem dinheiro para uma refeição decente, daquele outro que não tem dinheiro para comprar o fato de marca, mas tão só a imitação? Não me parece. Qual será então a diferença, comparando a angústia do tédio do italiano do norte daquela do italiano do sul, privado de oportunidades, ostracizado no próprio país, imerso na precariedade e na insegurança? Nápoles ensinou-me que esta pode ser extremamente tonificante - quiçá, a vida em risco não é o nosso estado etéreo de felicidade?&lt;br /&gt;Na manhã seguinte saí para comprar um pouco de pão e um bilhete postal para enviar à minha querida Francesca. Cheguei à padaria e pedi cinco pães. Fui enganado descaradamente. Vi perfeitamente que o funcionário me cobrou mais sessenta cêntimos pelo pão, pelo menos segundo as minhas contas e tendo em conta o preço que havia cobrado ao cliente que me antecedeu. Como se não bastasse a infâmia, tentou ainda enganar-me no troco. Não aguentei. Reclamei. Depois de alguma hesitação e alguns franzires de cara pró-forma, o funcionário lá concordou em devolver-me o troco justo, ainda que não do preço justo. Saí irritado. Fui ao pequeno quiosque comprar o postal que já havia visto no dia anterior. Tinha duas pessoas à minha frente. Uma terceira pessoa chegou e tomou a dianteira de todas as outras. O espantoso é que, enquanto o fazia, não mostrou qualquer pudor, qualquer hesitação. Fê-lo como se, de facto e de iure, estivesse pré-destinado a fazê-lo., como se fosse tão natural como as leis da física. Desta vez não reclamei. Pois os meus dois consortes tomaram a iniciativa, irrompendo em vociferações violentas. Facto espantoso: o prevaricador não se acanhou, não vacilou (como seria de esperar). Antes contra-argumentou como se, ainda na ordem natural das coisas, existisse algum argumento válido no direito natural ou positivo, capaz de sustentar tal atitude. &lt;br /&gt;Ainda um pouco aturdido pelo sucedido, empreendi caminho em direcção ao autocarro, via Garibaldi. Quando entrei no autocarro, munido do respectivo título, introduzi-o na maquineta para efectuar a respectiva validação. Feito isto, voltei a face para os ocupantes do autocarro e percebi que muitos deles olhavam para mim esboçando um leve sorriso. Confesso que fiquei um pouco perplexo com isto, pelo menos até ao momento em que compreendi a razão de ser daquela empatia inusitados dos passageiros para comigo. Compreendi quando o revisor entrou no autocarro, já a poucas paragens da estação Garibaldi, e em virtude disto a maioria dos ocupantes do autocarro se precipitou apressadamente para a saída. Viajavam sem bilhete. Curiosamente, como quem já sabe o que o espera, o revisor aguardou mesmo alguns momentos junto ao motorista que os prevaricadores saíssem, como se também isso estivesse na ordem natural das coisas. Tudo isto me leva a pensar que, em Nápoles, o prevaricador goza de um reconhecimento e compreensão que não se encontra em mais lado algum. O acto de prevaricação é encarado como um reflexo legítimo de sobrevivência. Não consigo encontrar outra razão para tal reconhecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II – C’e festa à Pagani&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei a estação Garibaldi de sempre, ambígua entre um burburinho de gente interminável em desolação constante. Apanhei o próximo circunvesuviano em direcção a Pagani. Era dia de festa lá, pelos vistos. Era a chamada festa popular da Madona dei Galini. Segundo a lenda, algumas galinhas embrenhadas na sua rotina animal descobrira o quadro de uma Madona enquanto bicava laboriosamente o chão. Alguns testemunhos da piedosa cena teriam atribuído tal facto a um milagre, de maneira que todos os anos, por essa altura, se organizava a procissão da Madona dei Galini. &lt;br /&gt;Apenas algumas curiosidades em relação a esta festa. Em primeiro lugar, é sabido que a fé não se renova sem o elemento de culto por excelência: o milagre. Ora, o milagre da festa consistia precisamente na procissão. O andor em que era transportada a Madona era constituído por uma base, espécie de mini-capoeira. Segundo as fontes locais, as galinhas não se moveriam durante toda a procissão, mantendo-se assim submissas, aninhadas durante todo o cortejo. A assegurar-se do regular funcionamento do milagre, um grupo de varões zelava em torno do andor durante toda a procissão tapando-o com os seus corpos. Assim que algum espectador temerário se aproximava de forma um pouco mais suspeita do andor, este olhavam-no com um olhar furioso, tapando-o com zelo redobrado. Alguns espectadores afluíam ao andor a passo apressado, desejosos de lhe tocar, tocar na Madona. Assim que o faziam benziam-se logo de seguida. A procissão seguia assim a passo não apressado ao som do ribombar dos tambores e do som estridente da orquestra. Era curioso ver a coexistência pacífica entre o entusiasmo, o barulho caótico e o espírito piedoso. Pareciam dois mundos completamente inconciliáveis que aqui, em Pagani, coexistiam. Falo, pelo menos, em comparação com as suas congéneres mediterrânicas, nomeadamente as ibéricas, que tive oportunidade de conhecer de perto. Nestas, o espiritual, o profano e o piedoso parecem conter-se, mostrando dificuldades em micigenar-se. Veja-se um procissão na semana Santa em Espanha, nas localidades mais conservadoras. Nela tudo é pesar, negro, desejoso de sangue e de sofrimento. A alegria é mesmo vista com rancor. Algo de semelhante se poderia dizer em relação às procissões da Semana Santa em Portugal. Nestas, não é tanto o desejo de sangue e de sofrimento que se respira, mas uma piedade algo diferente, pejada de lágrimas, beata. &lt;br /&gt;Portanto, aqui em Pagani, sagrado e profano pareciam conviver lindamente. A Madona avança pelo meio da multidão entre aplausos e confeitos prateados lançados das varandas. Os confeitos brincam e reluzem com o trovoar do fogo de artifício caseiro lançado por alguns dos moradores dos bairros adjacentes. Aliás, neste último caso, isto é, dos moradores lançarem fogo-de-artifício, o andor parava e voltava-se respeitosamente para o benfeitor como que em reconhecimento pelo esforço piedoso. Já no fim da procissão, quando a Madona já completou um círculo perfeito em torno do núcleo principal da vila, a multidão dispersa-se em todas as direcções em busca de crepes quentes, limão cortado com gelo (engenhoso refresco, possivelmente com ascendência romana, que combina a extrema simplicidade com o sabor magnífico), sandes de carne assada e outras iguarias. &lt;br /&gt;Outra nota em relação a Pagani que havia já sido aflorada na nota anterior. Se existe um local, no vetusto mediterrâneo, onde se pode observar o fulgor reminiscente da antiguidade pré-cristã, esse local é, sem dúvida alguma, Pagani. A festa é cristã, e embora não tenha lido absolutamente nada sobre a efeméride, posso dizê-lo, sem medo de errar, que a festa outrora pagã fora assimilada com o advento do cristianismo, mantendo ainda hoje muitas das suas características ancestrais. Diga-se que o próprio nome da localidade, Pagani, indicia que, possivelmente, esta fora um último reduto de antigos habitantes da península Itálica que se recusaram a abraçar a jovem religião do cristianismo quando esta começara a ganhar honras de cidade. Não posso afirmar categoricamente nada do que estou a insinuar até porque, como já disse, não li nada de erudito ou minimamente fiável sobre o assunto. Mas a verdade (e isto sim, sei-o de fonte segura) é que o cristianismo inicialmente, proibido do elenco de cultos romanos e perseguido pelos imperadores Nero e Adriano, foi posteriormente tolerado e até, finalmente, consagrado como religião oficial por Constantino. Sei também que este reconhecimento oficial do cristianismo fora seguido da concessão de privilégios aos cristãos, e da retirada de muitos mais aos velhos pagãos. Estes últimos resistentes da velha crença seriam, muito provavelmente, auto ou hetero-isolados numa espécie de guetos onde velhos rituais sobreviviam aos tempos.&lt;br /&gt;É precisamente nesta linha de ideias que vi grupos de jovens e adultos envergando castanholas e pandeiretas. Embora me parecesse que o som que emitiam era um pouco anacrónico e sem sentido, notei porém, mais tarde, uma certa ordem nesse conjunto de sons, dúvidas estas que se dissiparam por completo quando constatei que existia uma dança.&lt;br /&gt;Não é necessário um golpe muito engenhosos de imaginação para entrever nestas danças a antiguidade clássica, grupos de mulheres semi-nuas que tocam, não castanholas mas conchas unidas por atilho. A concha, símbolo da feminilidade e fertilidade, um possível atavismo matriarcal. Quem tiver oportunidade de visitar o Museu Arqueológico de Nápoles, e aí observar os frescos preservados de Pompeia, não terá qualquer dificuldade em ver em Pagani um quadro vivo de outros tempos.&lt;br /&gt;Vi mesmo, com os meus olhos corruptos, uma pagã perdida, pandeireta na mão e castanholas noutra, saia comprida e cabelos selvagens, de cabeça baixa, talvez nunca recuperada do tiro fatal desferido pelo Deus Cristão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-3472667043111472566?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/3472667043111472566/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/11/deambulacoes-invulgares-em-lugares.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3472667043111472566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3472667043111472566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/11/deambulacoes-invulgares-em-lugares.html' title='Deambulações invulgares em lugares comuns'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-4265066043762107909</id><published>2009-10-24T03:00:00.000-07:00</published><updated>2009-10-24T03:02:25.520-07:00</updated><title type='text'>O último aforismo de Guilherme Pais</title><content type='html'>No passado dia 3 de Setembro de 2009 faleceu o líder do último partido genuinamente marxista de Portugal, e quiçá de toda a Europa. Estou a falar de Guilherme Pais, mítico líder do PCAOP (Partido Comunista dos Agricultores e Operários Portugueses). Poucos meses antes de soltar o último suspiro, Pais havia escrito um texto que podemos interpretar como um testamento, e que nos permitimos agora reproduzir sem mais demoras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Esperar muito da vida é a mesma coisa que apanhar uma enorme ressaca após uma noite ébria. Era isto que pensava no final de mais uma das minhas aulas de filosofia. Continuo a pensar que a filosofia é uma disciplina imprópria para ser ensinada. Nada estranho que Nietzsche perdesse a voz perante os seus (talvez) não muito interessados pupilos suíços. &lt;br /&gt;Limitei-me a observa-los passada a hora de terminar a aula. Quando eu me sinto precisamente sob o ponto de tocar em algo celeste, falo-lhes das grandes correntes filosóficas dos séculos XIX e XX. Descobrira uma vida de enganos para tantas dessas almas nobres, que tudo passava em silêncio e tudo se desfazia, que mais importante era o mundo que os esperava lá fora, como os via, em passo acelerado, voltando ao mundo aniquilador. Sim, aniquilador. E disto isto não preciso de acrescentar nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surgia-me então um outro pensamento. Qual seria a diferença, sim, a diferença, se eu, Guilherme Pais, professor e político, senhor de uma biblioteca interna de vários volumes, eu, senhor de ossos, músculos, tendões, braços, pernas, cabeça, afectasse esses mesmos músculos, tendões, braços, pernas, cabeça ao único fim para o qual parecem ter sido concebidos: viver – mas é de outro modo de vida que falo, aquela que desconheço ou da qual não tenho memória. Fruição. Como um animal que usa apenas a sua capacidade de abstracção em sintonia com a finalidade para a qual se adaptou: caçador-recolector. Não sou Darwinista, mas essa foi e continua a ser a nossa sina, essa que para nós caiu em esquecimento. Não admira pois que cada vez que a esquecermos só encontraremos infelicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando em horas funestas olho para esses jovens que desejam tirar proveito da vida, hedonistas à sua maneira. Pelo menos de uma maneira que julgam que é a sua, e que ao fim e ao cabo é a de todos. Que sonham viajar e salvar as criancinhas esfomeadas do Sudão, salvar mulheres muçulmanas do patriarcalismo radical islâmico, resgatando-as das garras da morte. Quando vejo toda esta gente tão cheia de vida, tolerante, organizada, bondosa – terrivelmente bondosa, com devaneios calculados, os filhos do mundo globalizado a quem fizeram crer que tudo é possível. Quando vejo a um só, a todos, a nenhum, enfim, são todos iguais, apenas desejo ser como eles e viver a vida com um sorriso nos bons momentos, um ligeiro amuo nos maus, viver e envelhecer e um dia pousar levemente a cabeça no travesseiro e dormir o sono eterno. Por certo sei que não será assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse chamar-se Lola. Lola tinha 30 anos e falava pelos cotovelos. Lola era baixita e tinha o cabelo curto. Falava convulsivamente em avalanches verbais que rolavam até ao esgotamento do fôlego. Quando pensávamos que daquele sopro já não sairia mais nenhuma palavra Lola surpreendia. Era assim Lola. Tinha 30 anos Lola. Aos 30 anos todos chutam uma mulher para canto: os patrões, os gajos, tudo…&lt;br /&gt;Um dia deste deram-me a entender que um logicista da minha casta deveria ser perfeito. Não porque nascesse perfeito, mas porque os ossos do ofício o exigiam. Quem constrói a realidade como uma montanha de blocos, uma pirâmide ordenada nada mais tem a fazer do que ser perfeito e exigir dos outros nada menos que a perfeição. Pobres loucos estes! Se soubessem que ainda hoje desejei tão ardentemente aquela jovenzita de quinze anos mais as suas carnes tenras, saberiam como tudo isto é vida e tudo isto é arte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lola bombardeou-me com informação autobiográfica. Se fosse minimamente perspicaz Lola notaria perfeitamente o meu desinteresse pelo enredo intricado das impressões da loucura da sua vida. Mas amo-te assim Lola. A ti e à tua vulgaridade, porque essa é a vulgaridade de tudo, e é ela que nos faz apaixonar pelo mundo. Nada parece fazer sentido se pensares, Lola, que tudo o que nos apega terrivelmente às coisas tem um substrato volátil. São essas sensações fugazes que nos fazem, Lola. É por elas que julgaremos tudo o que temos de mais precioso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí para o mundo e ele tinha mudado. Apenas vi sombras disformes, mas guardei-o para mim. De que adianta falar, quando todos caminham alegremente para a perfeição? Porque seria eu a estragar o bom ânimo da festa, como me disseram um dia. Compreendi perfeitamente. Compreendi que uma nova fé universal se propagava pela Europa, e que os seus sacerdotes eram mais terríveis que os seus predecessores, precisamente porque trocaram a espada pelo sorriso. Compreendi que já ninguém era levado a sério se não falasse como um desses sacerdotes dos tempos modernos, se não abusasse das suas palavras vazias. O mais terrível seria pensar que me acolheriam com um sorriso ainda mais aberto se descobrissem que não sou um dos deles. Que os quero ver mortos. O Deus empresa prepara o seu pontificado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lola, querida, achas mesmo que me ficam bem estas calças? Olha que, magro como estou, com estas calças vão julgar que sou um problema de saúde pública. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Essa chusma de babosos que agora se passeava nas empresas era justamente igual a outros. Esses homens fracos que se pavoneiam como nos corredores ao longo da história, arrancando do fundo do peito fingido odes apaixonadas à natureza, a Deus, à Razão, a tudo, a nada…&lt;br /&gt;Pior do que tudo, (e aqui reside a verdadeira decadência porque nem decadente é), falam agora não mais num tom grave mas sereno, da sua empresa e das suas ninharias. Falam de enriquecer e de outras veleidades como quem falava da revolução em tempos de utopia, e isto sim, isto é o século XXI: merda! Gente a mais que se mata por ninharias. Pior! Não se matam! Mais valia que o fizessem…&lt;br /&gt;Que enfiassem no rabo todas as suas desditas, a igualdade de direitos, os pobrezinhos da Etiópia, os seus merdosos espaços assépticos (tão limpinhos que quase se pode comer no chão), que não sabem mais que fazer. Multiculturalismo (deste nem me atrevo a falar)?. Sussurravam até, veja-se lá, a transformação da linguagem, que até aos dias de hoje ignorou o género feminino – querem transformar o plural masculino. E dizem-me que há lugar para o que quer que seja neste mundo, onde os revolucionários são recebidos pelos ricaços com um sorriso? E isto é o mundo? E isto é a Europa? Mais valia nunca ter passado de um promontório asiático dominado por Atila, o Huno. Mais valia que Hitler e a sua máquina racional sob ímpetos irracionais conquistara todos os cantos desta terra maldita. Aqui deixam-nos viver e sorriem-nos sempre e fazem-nos crer que tudo é possível e que somos todos iguais e que um dia todos seremos presidentes ou reis ou que quer que seja. E isto é a puta da Europa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certa forma, Lola vivia num mundo fantástico, onde seres inanimados ganham voz, mortos ressuscitam e presidentes de vários organismos a assediam constantemente para cargos muitíssimo bem remunerados, que invariavelmente declina. O seu fervor persistente em dobrar roupa na loja da esquina prevalecia sobre tudo. Pelo menos era a única dedução possível, atendendo às suas próprias palavras. A sua caminhada estóica reduzia-se, suspeito que involuntariamente, a essas quatro paredes. &lt;br /&gt;Lola vivia oprimida por uma doença imaginária que, ainda segundo a mesma, aguentava trabalhando para não sobrecarregar o Estado. A sua preocupação pela sustentabilidade do Estado Social levava-a a tal sacrifício. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha experiência marxista diz-me que nenhum Estaline deste mundo precisa de inventar os seus verdugos. Eles existem e por vezes encontramo-los pasmados nas esquinas. Só então alguém lhes coloca uma vara na mão e diz: “vai e conhece o mundo!”&lt;br /&gt;O verdugo recém-inventado nada tem que o distinga do vulgar ladrão, do vulgar charlatão, do vulgar assassino. Apenas a sua legitimação pelo sistema o distingue dos espécimes citados. O verdugo não tem que ser culto e inteligente (normalmente não o é). Apenas tem que ser suficientemente covarde e cego de valores para fazer (como operacional) aquilo que o regime espera dele: torturar, delatar, matar, o que, repito, é comum a todas as épocas - ou seja, todas as épocas e sociedades têm os seus, sejam quais forem as circunstâncias. O grande quid specificum do verdugo é que apenas tem coragem de espreitar por detrás da amurada quando é protegido pelo sistema. A segunda grande diferença é a sua extrema heterogeneidade e capacidade de mutação. O verdugo pode ter sido um ex-chefe da polícia, um artista medíocre, um jovem arrivista ou até mesmo uma dona de casa. Todos têm em comum o verem na nova posição que o sistema lhes oferece uma oportunidade. Uma oportunidade de carreira, em primeiro lugar; uma oportunidade de dar largas à sua malvadez, em segundo lugar.&lt;br /&gt;Os verdugos odeiam toda a gente. Ou porque a sociedade não lhes deu no passado aquilo que julgavam merecer, ou até porque esse é o seu mais profundo instinto animalesco, que convém em libertar.&lt;br /&gt;Uma terceira razão pode residir pura e simplesmente no medo e no desespero. Medo de ser o próximo visado por essa máquina brutal e inumana; desespero, tão só porque a época é de desespero e só o miserável de rua que nada tem a perder não está desesperado. &lt;br /&gt;De tudo isto convém reter que é a própria máquina cega e brutal que elege e selecciona os seus verdugos. Depois diz-se que a ideologia está morta, que desde a queda do Muro de Berlim o capitalismo continua a sua marcha triunfante, sem uma proposta alternativa credível ou exequível. E é este crer na inevitabilidade da história e dos factos, este determinismo, que começa a verdadeira morte do último marxista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criei o meu Partido Comunista dos Operários e Agricultores Portugueses numa época em que se acreditava em algo mais, ou senão em algo diferente que não o dinheiro. Estamos a falar de um tempo em que grupos de jovens se sentavam à bord de la seinne para filosofar e praticar o amor livre. Olho para os jovens de agora e não posso deixar de chegar à conclusão que até o idealismo se tornou algo insuportável. Análises económicas da literatura, atitudes optimizadoras, coaching e outras merdas. Tudo é útil e tudo tem que ser útil – no limite, optimizado, como se essa fosse uma escatologia irrenunciável, mas digo, até os jovens idealistas se tornaram insuportáveis. Não por serem ricos, ou burgueses, ou vaidosos, o que foram características de muitos grandes homens ao longo da história, que nem por isso deixaram de ser grandes homens. Crítico apenas aquilo que neles é artificial, armado, fabricado, protocolar, como se fosse suposto ser bombista na adolescência e conservador na idade adulta, essa idade em que os antigos bombistas se vangloriavam em salões da moda perante os seus comparsas, de copo de wisky na mão, dos seus tempos bons de juventude, e quão bons eram, e quão bom era voltar, e de como tudo isso é impossível hoje, de como não há revolucionários, nem pides, nem padres inflamados contra a invasão vermelha, nem nada que se pareça. Depois de tudo voltarão aos seus lares, onde se deitarão nas suas belas poltronas, ou na sua confortável cama com a sua agradável mulher, com quem farão amor toda a noite (quiçá com a ajuda de medicamentos para aumentar a potência sexual), e dir-lhes-ão palavras bonitas enquanto fazem amor, e falar-lhes-á de coisas amáveis quando descansarem do coito libertador, e depois tudo isto é vida…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque trazes hoje presa no cabelo uma flor vermelha? Porquê Lola? De onde vem esse vermelho. Do sangue? Da fleuma? Do trauma de ser vulgar? Dizes-me que gostas… Fica-te bem, Lola. Fica-te bem…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vezes houve em que me revoltei contra o povo, aliás, penso que os marxistas modernos mais não têm feito do que se revoltar contra o povo. Se somos herdeiros de uma ideologia que coloca o povo no seu centro gravitacional, porque não votam em nós? Nós, os que defendem os seus interesses. Porque votam nos partidos que defendem os interesses do patronato? Porque têm mais dinheiro, e porque dominam os meios de comunicação social, e assim conseguem captar o eleitorado com mais eficácia? Não me ocorre melhor resposta do que esta: o povo não existe. O povo já não existe. Já só existem indivíduos, indivíduos que não precisam ser dispersos por maquiavélicas leis anti-ajuntamento, mas que se isolam voluntariamente. Se imaginarmos uma sociedade onde o indivíduo não pode parar de pensar, pensar em como pagar o crédito que vence no dia X, da prestação da casa que vence no dia Y, do seu emprego que breve se extinguirá. Se mantivermos a sociedade como uma massa amorfa em constante movimento não precisamos de máquinas repressivas estatais. O próprio cidadão, por sua livre e espontânea vontade, parará de pensar, resignar-se-á com todo o prazer àquilo que lhe for dado. Por isso, esses verdugos não precisam de se organizar em torno do Estado. Instalam-se nas empresas onde toda a sociedade civil funciona. Isto não pode deixar de gerar uma situação inédita e paradoxal: o Estado passa a bom da fita e os particulares dão-se ao luxo de o ignorar, e fazendo-o sabem que o fazem impunemente, e esta será uma das novas facetas do Estado. A outra será a sua faceta punitiva: multas, regulamentos, normas. O seu único objectivo é arrecadar normas que possam suster o já decrépito Estado social. Enquanto houver Estado social o povo não se revolta, pensam. E a verdadeira razão da opressão permanece mascarada sob os bons preceitos do politicamente correcto: higiene, segurança, previsão, erradicação do caos, e tão pouco saberão que estamos a ser preparados para normas ainda mais intrusivas, que prepararão, quiçá, a tomada de assalto final do Estado pelos verdugos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabes Lola, de todas as leis, as únicas que respeito são as da dor. Talvez sejam as únicas que devam ser respeitadas, porque no fim tudo se resume a isso. Quando imagino as diversas situações que a vida me trouxe e me imagino deitado numa cama de hospital, anónimo, deitado, apenas um corpo diminuído, não posso ver aí alguma dignidade. Não existe dignidade alguma, pelo menos no sentido que os grandes senhores da história lhe deram. Por isso só a vida que procedeu esse momento miserável pode ter tido alguma dignidade. Mas tu Lola, que nada percebes de dignidade a não ser ter o tão pãozinho na mesa e uma cama fofa para te deitares, não verias nada de indigno nessa imagem ridícula, e eu amo-te por isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas digo-vos, povo, que vos perdoo tudo. Perdoo-vos a vaidade, a inactividade, o conformismo, se continuardes a ser homens no pleno sentido da palavra. Digo isto com a consciência de se tratar de um lugar comum, e com uma consciência oculta ainda mais forte de saber em quantas formas e quantas línguas isto pode ser e já foi dito. Como dizer algo, nos nossos dias, sem que não tenha sido dito por um número indeterminado de personagens do assombro, sobre tantas formas e roupagens diferentes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma vez me perguntaste, minha querida, como é que o medo assentou arraiais na minha pessoa? Sabes muito bem que passei a ter medo de tudo, e foi o medo que me levou a tudo. Foi em homenagem ao medo que construí o meu império, e foi no seu altar que realizei o meu primeiro holocausto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sigo, sob a minha fé marxista. Bani Estaline e a magnífica sociedade que crescia debaixo dos seus braços abertos e os seus bigodes de ratazana. Bani Lenine e essa pretensiosa nova facção que procura reabilitar a sua imagem, e ter morrido novo, e ter proposto uma nova política, e os enfartes, e o maldito Estaline. Bani Trotski e o Anti-Estalinismo, e o pathos, e a picareta, e a agonia. Não sei o que fica. Marx? Criemos mais um Deus imaginário e gritemos o seu nome até à exaustão. Bem sabemos que, ao contrário dos homens, os Deuses ouvem-nos sempre e se pensarmos que tardam nas suas respostas, isso é apenas fruto da impressão contingente que temos do tempo, que o que é para nós uma infinidade de tempo é para os Deuses uma fracção de segundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero mais hoje nada teu Lola. Nem o teu sorriso, que me dá descanso aos olhos, nem os teus pés, que me massajam as costas, nem o teu sexo, que conheço já como a palma das minhas mãos. Se inventasses outra língua diria tudo aquilo que sinto por ti, e aí ficarias a saber, e talvez já não me amasses de forma tão pura. Dizias que eu não descansaria enquanto não voasse com as aves, mas estavas enganada. Não te queria abandonar e trocar pelas aves. Queria ir com os vermes. São eles os que sabem mais da vida. Mas o amor, esse… esse nunca esquecerei. Lembras-te como o teu corpo te fazia subir aos céus para logo de seguida te atirar para o Reino dos Infernos? Como incerto moravas nesse Reino para um dia voltares e gritares de novo: isto é a vida! Não te esqueças que só isso vale a pena, querida Lola.»&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-4265066043762107909?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/4265066043762107909/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/10/o-ultimo-aforismo-de-guilherme-pais.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/4265066043762107909'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/4265066043762107909'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/10/o-ultimo-aforismo-de-guilherme-pais.html' title='O último aforismo de Guilherme Pais'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-5504732808809929785</id><published>2009-10-17T10:26:00.000-07:00</published><updated>2009-10-17T10:27:03.848-07:00</updated><title type='text'>O Parque</title><content type='html'>Tragédia em cinco actos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inês saiu de casa por volta das 7:30.&lt;br /&gt; Embora o seu domicílio distasse cerca de 30 km do Parque, os meios de transporte altamente eficazes da sua cidade permitiam-lhe chegar em apenas cinco minutos. &lt;br /&gt;Apanhou o primeiro comboio, um dos muitos que faz do Parque uma das suas paragens obrigatórias. Como de costume, o comboio encontra-se apinhado de toda a massa matutina de trabalhadores: senhoras de etnias e proveniências diversas (algumas até envergam o traje típico dos seus países de origem), homens com pequenas bolsas (presumivelmente o seu lanche), estudantes sonolentos, uns conversadores, outros trabalhadores (com o portátil aberto àquela hora da manhã). A maioria lia os jornais gratuitos distribuídos à porta da estação (Inês pegou também um para si); algumas pessoas (poucas), progrediam nas suas leituras pessoais folheando o romance de ocasião.&lt;br /&gt;Primeira estação: Luxembourg. Saem alguns turistas. Notícia de capa do jornal: “Recente estudo revela que cerca de 80% dos crimes na nossa cidade são perpetrados por imigrantes”. Os passageiros fixam os olhos no jornal, quiçá apenas pelo pretexto de não cruzar olhares. Talvez um atavismo desse tempo em que se acreditava que se alguém captasse o nosso olhar roubar-nos-ia a alma. &lt;br /&gt;Segunda Estação: Port-Royal; segunda página do jornal: Recente estudo levado a cabo por universidade britânica prova que as mulheres sentem maior atracção e atingem mais facilmente o orgasmo com homens de conta bancária saudável. Saem alguns estudantes e alguns turistas. Não entra quase ninguém. Fecham-se as portas. O último senhor a entrar, muito provavelmente gaulês, não se sentou, apesar da abundância de lugares vagos. Terceira página do jornal: “Grupo de portugueses detido em Aversa. Um grupo de passageiros sem o respectivo título habilitante tentou empreender, sem sucesso, a viagem Nápoles-Roma no passado dia 1 de Maio. O grupo de desordeiros procurava assim manter a tradição e entrar “à portuguesa” no dia 1 de Maio. A ordem foi imediatamente restabelecida graças à pronta intervenção das nossas forças policiais”. Terceira Estação: Denfert-Rochereu: saem alguns passageiros, estudantes. Entram outros tantos. Cerca de cinco polícias entram no comboio, provavelmente porque imediatamente antes deles entraram cinco jovens com aspecto magrebino. Soa o sinal. O comboio avança. Os jovens não se sentam. Quarta página: “Saiba como vencer a crise. Técnicas de auto-motivação e procura de emprego. Por apenas mais 10 euros adquira o suplemento: “O que é que as empresas procuram?”. Por apenas mais 5 euros adquira também o suplemento “Dá mais visibilidade ao teu cv.” Quarta estação: cité universitaire. Saem muitos estudantes. Entram algumas pessoas. Fecham-se as portas. Quinta página: “ Existem famílias a viver em regime poligâmico na localidade de Clichy-sur-Bois”. Quinta e última estação: Parque. Inês saiu. Chegou ao seu destino. Ainda á saída do túnel encontrou o seu amigo Z…&lt;br /&gt;- Olá, tudo bem?&lt;br /&gt;- Tudo. Contigo?&lt;br /&gt;- Vai-se andando. Que tens feito?&lt;br /&gt;- Isto e aquilo…&lt;br /&gt;- Uau, que emocionante…&lt;br /&gt;- Olha Inês, sabes quem foi Aristóteles?&lt;br /&gt;- Sei, foi um filósofo grego.&lt;br /&gt;- Boa! Conheces alguma cena que tenha dito?&lt;br /&gt;- Não, só sei que foi um filósofo.&lt;br /&gt;- Pois… Sabes que ele dizia que uma verdadeira tragédia deve acontecer dentro de 24horas? &lt;br /&gt;- Ai sim? Isso é muito tempo… E em quantos actos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Parque&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para chegar ao Parque, Inês devia ainda apanhar o tram, cuja paragem se localizava mesmo à saída da estação de comboio. Apenas dez minutos de viagem. A cerca de três minutos do final da viagem já se avistava o Parque em toda a sua imponência. Era um recinto do tamanho de uma pequena vila e avistava-se ao longo em virtude da profusão de cores vivas da sua construção, e particularmente por três colossais torres em estilo romântico que constituam o seu ex-libris. Aí funcionava a administração do Parque. Inês desempenhava funções de guia neste Parque de fantasia. Toda a iconografia do Parque gira em torno de um conhecido mundo de desenhos animados outrora criados por um bom-homem. Diz-se que esse homem não queria envelhecer nunca. A sua juventude eterna e a sua visão de um mundo idílico, sem guerras, sem stress, sem dissabores – projectado em personagens imaginadas e humanizadas de animais. Teríamos assim: o “ratinho”, o “cachorrinho”, o “patinho”, o “periquito”, “o papagaio”, entre outros. &lt;br /&gt;Dir-se-ia que esse homem, ao criar o seu sonho criou o sonho da humanidade inteira. As pessoas precisam de sonhos e esperança para viver. Os vendedores de sonhos sabem-no melhor do que ninguém.&lt;br /&gt;Voltando à singular historia da nossa protagonista, Inês, como já foi dito, era guia turística no Parque. Conseguira o emprego graças ao seu extraordinário talento para falar diversos idiomas “praticamente sem sotaque”, como lhe viriam a dizer muitos dos visitantes do Parque das mais variadas origens. &lt;br /&gt;Em tempos, também fora uma sonhadora. Aquando da sua meninice, desenvolvera uma paixão obsessiva – compulsiva pelos desenhos animados temáticos do Parque. Era mesmo proprietária de diversos peluches do ratinho e do cachorrinho, os seus favoritos. Cresceu e tornou-se uma mulher. Um dia apaixonou-se.&lt;br /&gt;O seu namorado convencera-a a empreender com ele uma viagem em busca de uma vida melhor, noutro país. Fugira com ele. Não chegara a frequentar a universidade. Chegada ao país de destino, nem a imaturidade dos seus verdes anos nem o amor duradouro pelo seu parceiro de aventura impediram de reconhecer a dura realidade. Se no seu país, esse querido e pequenino país natal, que normalmente só se ama à distância, as oportunidades lhe estavam vedadas, isso acontecia também e por maioria de razão no país de acolhimento. Na verdade, não sabia muito bem qual era o seu sonho, mas era qualquer coisa diversa daquilo. Não que tivesse uma vida má, pelo menos o sentido material do termo (esse que normalmente tudo vence), e tão pouco tinha razões para infelicidade no plano pessoal. Tinha muitos e bons amigos (maioritariamente do seu país de origem) e um companheiro que a amava. Era qualquer insatisfação, qualquer vazio que nascia dentro de si, uma mancha negra que nasce como uma borbulha e que alastra e alastra até que toma conta de todo o ser. Apaga qualquer brilho nos olhos, seja de amor, ódio ou rancor. Antes os transforma em pedra, apaga a sua chama vital e impõe o morno da morte. &lt;br /&gt;A infância não fora, contudo, apagada do seu imaginário. Tinha ainda o seu quarto decorado de motivos alusivos às mascotes do Parque, de maneira que o mundo ganhava uma inusitada unidade: do Parque ao seu quarto. A cidade era apenas uma imensa ponte a pulular de vida.&lt;br /&gt;Voltando ao terreno, Inês dirigiu-se à recepção do edifício onde funcionava a administração, esse já referido, das três torres românticas. Devia depois descer dois lances de escadas laterais que a conduziriam a dois corredores separados por duas portas de serviço. Ao fundo do segundo corredor encontrava-se a central de segurança. Aí picaria o ponto e ser-lhe-ia atribuída uma hora de entrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segurança era algo que fora pensado ao pormenor. Teríamos mesmo a sensação que fora a principal razão da construção deste Parque, a segurança. Um imenso furor preventivo escorria das suas paredes decoradas com câmaras, como se a todo o momento esperassem Átila e os seus hunos; como se a ordem do universo dependesse da câmara estrategicamente colocada num ponto morto da sala, invisível ao visitante desatento; como se todo o equilíbrio da natureza repousasse no olhar atento dos seguranças, vestidos a rigor, alguns até montados em cavaletes eléctricos, uma espécie de versão moderna de um ciclope. Adiante-se, só que alguns eram zelosos ate ao desespero. Tinham como função a observância do cumprimento das regras do Parque por parte dos visitantes e funcionários. Principalmente, quanto a estes últimos, e dada a especial prevalência que a administração concedia à imagem do Parque – a que se transmite ao público, os seguranças tinham como função verificar a correcção e observância pelos funcionários das regras de decoro. A saber: cabelos penteados, nada de piercings ou tatuagens expostos, barbas cortadas e uniformes limpos. Aqueles que tinham a seu cargo uma performance especial era-lhes controlado o rigor da prestação assim como o feedback pelo público. Por sua vez, os seguranças eram avaliados por auditores especialmente designados para o efeito. Estes possuíam uma grelha e uma escala de classificação. Por sua vez, os auditores eram supervisionados e controlados por determinados membros da administração que, de resto, não detinham qualquer função demasiado específica. Escusado será dizer que num mundo como estes, onde toda a gente controla toda a gente, onde o espaço é reduzido a um mínimo insustentável e o oxigénio artificial e rarefeito, haveria lugar a alguns respiradouros naturais, que sempre surgem em semelhantes circunstâncias. &lt;br /&gt;Passo a explicar: embora fosse suspeita qualquer movimentação ou contacto prolongado entre funcionários do Parque, isto é, longas conversas e formação de solidariedades sólidas (que a administração procurava conscientemente evitar), casos aconteciam de trocas de fluidos em circunstâncias e locais duvidosos, escapados de todo à vigilância. À parte disto, toda a população funcionária do Parque parecia viver num desespero constante vertido em olhares indiscretos e libidinosos. Os seguranças usavam o zoom das câmaras de vigilância para ver de ângulo privilegiado os decotes das senhoras mais ousadas. Os restantes, quando não lhes calhava um posto de segurança junto do controle das câmaras, comentavam com o compincha do outro lado do edifício, através de intercomunicadores, a boazona que acabava de passar. Pode-se também dizer que toda, mas mesmo toda a actividade do Parque estava regulamentada ao pormenor. Não havia aspecto nem percalço, nem situação corriqueira estivessem em branco relativamente à agulha omnipotente do legislador do Parque. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um dia começa bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem por especial generosidade se podia dizer que Inês era uma pessoa simpática. Inês não era uma pessoa simpática, nem no sentido mais amplo nem corrente do termo. Não tinha sorriso fácil e dentado. O sorriso que a performance da sua posição lhe exigia, o que de resto não passava despercebido a vigilantes e visitantes, era arrancado a ferros, forçado, artificial, que facilmente poderia ser confundido com o acto de abrir a boca para morder. Ora, claro está que, embora o seu sorriso fosse forçado, o que não era de todo desejável aos olhos da administração, não era também facilmente sindicável pelos vigilantes. Apesar de toda esta paranóia e atavismo que lembra o período da Inquisição, em que algum Cristão-Novo podia ser preso e torturado por “falta de atenção na missa”, não é fácil fundamentar tal acusação sem se cair no extremo ridículo. Não que não se tenha o direito de ser ridículo. Antes pelo contrário…&lt;br /&gt;Encaminhados os senhores turistas em tratos doces na sua língua materna, chega-se à hora do almoço. A cantina do Parque está apinhada de gente, como de costume. Inês não gosta de almoçar no Parque. A comida é de qualidade duvidosa e escassa – tudo feito ao barato.&lt;br /&gt;Ainda não terminara de descer o segundo lance de escadas, Inês sentiu uma voz na sua direcção que lhe gritava: “Espera, espera!”. Esperou.&lt;br /&gt;Por detrás de si surgiu uma figura masculina, alta e esguia, cabelos muito negros e pele morena, com traços evidentes de mestiçagem ibérica do Médio-Oriente. Inês parou. Quando foi alcançada voltaram, agora juntos, a encetar a marcha. Seria estranho pensar que mesmo depois desta irrupção violenta, os dois recém-amigos caminharam cerca de cinco minutos, lado-a-lado, em silêncio, como que mudos. Evidente que esta situação era insustentável. Então Inês decide quebrar o gelo e olha-o com certa perplexidade e de olhar esbugalhado. Esboçou um tímido e quase imperceptível “Olá!”, “Como te chamas?” “Pablo”, respondeu, “Sou teu vizinho”&lt;br /&gt;- Vizinho?&lt;br /&gt;- Sim, vizinho. Também moro no catorze. &lt;br /&gt;- Ah! Que engraçado…  Nunca te tinha visto por lá…&lt;br /&gt;- Vi-te eu a ti&lt;br /&gt;- Chamas-te Pablo… és espanhol?&lt;br /&gt;- Sim. Sou de T…&lt;br /&gt;-  nunca lá fui.. Só conheço M… e B… De passagem, quase.&lt;br /&gt;- Tu como te chamas?&lt;br /&gt;- Inês&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Inês&lt;br /&gt;- É difícil pronunciar…&lt;br /&gt;- Nem por isso… É uma questão de hábito…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí vai Inês… desce as escadas do refeitório. Pisa os degraus como quem pisa as estrelas. Talvez nunca saberás que é esta a matéria dos sonhos e todo o resto da tua vida o passarás em busca dessa primeira felicidade. Se ainda viveres o suficiente verás que apenas aí tudo é possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visita ao Castelo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das duas da tarde, depois do almoço, Inês recebeu um ofício que a convocava para se dirigir à administração. Construiu o castelo e colocou-lhe umas pequenas pétalas no cume – um modesto adorno. &lt;br /&gt;Subiu no primeiro elevador que chegava ao rés-do-chão sob o olhar vigilante do segurança. Premiu o botão dois e o Castelo levantou voo, alto, muito alto, até às estrelas. À medida que subia, via como tudo lá em baixo parecia pequenino, como de brincar: o Parque e o seu desenho ortogonal, as pessoas já como pontinhos até que desaparecem, os carros em torno do Parque que, primeiro perdem o movimento para depois desaparecer; os campos, pequeninos, como que desenhados. &lt;br /&gt;Chegara finalmente ao segundo andar. Passou três corredores esquisitos e de cheiro duvidoso, até que abriu duas portas de serviço. Atrás de um compartimento provisório, dividido como que por um biombo dos tempos modernos, escondia-se a sua supervisora.&lt;br /&gt; Alertada pela chegada de Inês, levantou-se de um salto e dirigiu-se-lhe com uma cordialidade pré-ordenada, protocolar, artificial. Inês compreendeu-o rapidamente, até porque sabia perfeitamente os limites que a posição supra-ordenatória de um supervisor lhe impõe.&lt;br /&gt;- Boa tarde Inês,começou;&lt;br /&gt; - Boa tarde&lt;br /&gt;- Chamei-a aqui para tratar um assunto consigo&lt;br /&gt;- Sim&lt;br /&gt;- Sim Inês. Já agora, permita-me que lhe faça uma pergunta,&lt;br /&gt;- Com certeza…&lt;br /&gt;- A Inês tem família lá no seu país?&lt;br /&gt;- Sim, tenho…&lt;br /&gt;- Marido, filhos, irmãos, pais…?&lt;br /&gt;- Sim, tenho… quer dizer, apenas pais e dois irmãos,&lt;br /&gt;- Muito bem… Agora, voltando ao que interessa, a razão porque a chamei aqui prende-se com uma questão do regular funcionamento do serviço. Como sabe, aqui no Parque, e esta é uma das qualidades que se nos reconhece em todo o mundo, primamos pela excelência no nosso serviço. Neste sentido, a excelência do serviço, do nosso em concreto, significa estar à altura dos sonhos das pessoas. A Inês tem sonhos e esperanças… projectos?&lt;br /&gt;Riu ao de leve e corou um pouco…- Claro que sim…&lt;br /&gt;- Pois… mas assim em concreto… Por exemplo: eu sei que a Inês tem educação superior. É formada. Anda a prepara alguma tese, pós-graduação?&lt;br /&gt;- Não,&lt;br /&gt;-Pois Inês, mas olhe que nos dias de hoje parar é morrer… E tem, como hei-de dizer isto, um ideal de vida?&lt;br /&gt;- Bom… Confesso que me apanha de surpresa com essa pergunta. Nunca tinha pensado nisso. Penso que o meu ideal de vida é o de toda a gente: viver. &lt;br /&gt;A supervisora soltou um risinho irónico e maldoso, como que suspeitando que Inês reinava dela:&lt;br /&gt;- Pois claro… É certo que esse todos temos, mas enfim! Como lhe dizia, aqui no Parque a excelência do serviço é sinónimo de estar à altura dos sonhos dos nossos visitantes. Passo a explicar: o mundo inteiro sonha com o Parque. Esperamos estar à altura desse sonho. O nosso objectivo é fazer com que entre sonho e a visita ao Parque haja uma continuidade onírica, a visita como que um prolongamento e materialização do sonho, embora com personagens e espaços reais – o realizar dessa explosão de imagens turvas e pantanosas que é o sonho. Não sei se me faço entender… Mas como já me respondeu, a Inês também sonha não é?...&lt;br /&gt;- Sim…&lt;br /&gt;- Já agora, diga-me, em alguns desses sonhos, digo, sonhos agradáveis, aqueles em que como que passeia entre as estrelas, tudo são imagens e sensações de prazer, certo?&lt;br /&gt;- Pressuposto, respondeu Inês;&lt;br /&gt;- Portanto, e porque a Inês é, para além de uma pessoa inteligente e bem apessoada, alguém que também sonha, compreende que o espírito e o projecto do Parque não se compadecem com caras amarradas…&lt;br /&gt;- Como?!, exclamou intranquila Inês, como que acordando de um transe;&lt;br /&gt;- Sim, Inês, continuou a supervisora. Nós sabemos que, tendo em conta esse espírito e projecto do Parque que, de resto, era já um pré-requisito no acto de aceitação de alguém ao nosso serviço: a simpatia, o sorriso afável para o público é exigida;&lt;br /&gt;- Sim, mas…&lt;br /&gt;- Temos informação que a prestação da Inês neste ponto em concreto fica aquém do desejável;&lt;br /&gt;- E como obtiveram essa informação, se me é permitido saber? Inquiriu Inês;&lt;br /&gt;- Sabe Inês, não é suposto responder-lhe a essas perguntas, mas porque se apresentou tão prontamente na administração quando tal lhe foi solicitado, e porque, à parte esta pequena observação, tem sido uma funcionária responsável, dir-lhe-ei em primeira mão as recentes mudanças em sede de gestão dos recursos humanos. Recentemente, isto é, desde que assumiu a direcção do Parque o novo administrador, alguém mais novo, com ideias modernas, procurou-se uma nova política, mais eficiente, de gestão de recursos humanos. A partir de agora todos os nossos funcionários estão sujeitos a uma avaliação periódica mensal. Tal avaliação consiste num formulário que os nossos agentes de segurança preenchem segundo alguns critérios. Os dados recolhidos são posteriormente inseridos num sistema que se encarrega da sua gestão. Finalmente, será elaborado um gráfico com a evolução da prestação do trabalhador, assim como será atribuída uma nota. Como é óbvio, não lhe posso revelar o que quer que seja acerca dos nossos critérios, mas posso garantir-lhe que dois deles são o sorriso e a alegria demonstrados. A Inês deve-se apresentar mais alegre. Sabe, é importante para a nossa política…&lt;br /&gt;- Está bem, respondeu Inês,&lt;br /&gt;- Já não desceu pelo elevador, mas por um belo balão cor-de-rosa prostrado à janela do castelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias cinzentos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da multiplicidade de cores e de sons emitidos à vez pela vida que pulula no Parque: gente feliz, funcionários contentes e castelos imponentes, não parece que as condições atmosféricas se queiram curvar à felicidade humana. Os dias parecem sempre cinzentos, e o tão desejado sol esconde-se, ora tímida, ora teimosamente, por detrás de uma nuvem escura. A natureza persiste no seu capricho e indiferença. &lt;br /&gt;O balão de Inês poisou justamente junto de uma enorme roda onde se apinhava uma multidão. Por entre essa multidão destacava-se, pelo seu volume e altura, uma figura de peluche. Um ratinho, que ora pegava as crianças no colo, ora tirava fotos com os seus progenitores, adultos tornados crianças. Logo corria para alguém mais caricato por entre a multidão, interagindo, provocando a risada por entre o público.&lt;br /&gt;Aproveitando o que restava do seu intervalo, Inês caminhou em direcção a um pequeno compartimento, bem discreto, no rés-do.chão de um dos edifícios da avenida central. Aí já se encontrava o ratinho, em descanso. Chamava-se Juha. Não é certo que esse fosse o seu nome, embora fosse conhecido assim em todo o Parque. Provinha de um qualquer país africano. Atravessara parte do mediterrâneo num caiaque fretado com mais de quarenta seus compatriotas. Uma outra parte atravessou-a a nado, evitando assim o comité de boas-vindas há muito organizado e estabelecido neste país para os cidadãos da sua origem. Uma vez em terra, Juha deambulara por uma conhecida cidade mediterrânica, pedindo esmola e roubando o que podia. Impressionados com o seu aspecto bovino, que contrastava fortemente com os seus enormes olhos aguados e amarelos, em muito assemelhados aos de um cachorrinho abandonado e pontapeado por todos os transeuntes, os patrões de ocasião empregavam-no em tarefas duras, a maior parte das vezes a troco apenas de comida, já que o dinheiro, esse, não tem dono. Um dia descobriu o Parque e uma alma caridosa procedeu à sua legalização. Desde então, Juha vivia do seu magro rendimento no Parque. Vivia sozinho e sem qualquer perspectiva de um dia regressar ao seu país de origem. &lt;br /&gt;Na pequena sala, Juha fumava um cigarro ainda com a parte superior do peluche (que constituía a cabeça do ratinho) pendendo dos seus ombros.&lt;br /&gt;- Olá Juha,&lt;br /&gt;- Olá boneca&lt;br /&gt;- Como vai isso?&lt;br /&gt;- Ça va…&lt;br /&gt;- Já fizeste muitos amigos hoje? Ironizou Inês,&lt;br /&gt;- Não preciso de fazer amigos… respondeu Juha entre risos. Toda a gente é minha amiga desde que nasci. &lt;br /&gt;- Deveras?! Uau… que sorte que tu tens!&lt;br /&gt;Nesta altura da conversa, Inês reparou numa pequena ferida que Juha tinha numa das maçãs do rosto. Era realmente pequena, mas via-se claramente que era fresca e gotejava mesmo umas gotículas de sangue.&lt;br /&gt;- O que é isso que tens na cara Juha?  perguntou Inês;&lt;br /&gt;- O quê? Isto? Perguntou Juha colocando bruscamente o dedo sobre a ferida;&lt;br /&gt;- Sim, isso…&lt;br /&gt;- É uma ferida muito antiga. Tenho-a desde que me lembro de ser gente…&lt;br /&gt;- Mas como é isso possível? Como pode ser uma ferida assim tão antiga, se continua a sangrar?&lt;br /&gt;- Bom, acontece…às vezes sangra…&lt;br /&gt;- Deves estar a gozar comigo. Se isso fosse verdade há muito tinhas morrido com uma hemorragia… mesmo se são apenas pequenas gotículas de sangue… Como é possível que nunca tenha cicatrizado?&lt;br /&gt;- Não! Não estou a brincar! É assim tão difícil acreditar que existem feridas que nunca cicatrizam? Por vezes o sangue estanca durante uns tempos, mas quando penso que vai sarar logo o sangue volta a correr. Primeiro em pequenas gotículas espaçadas no tempo para depois crescerem em volume e intensidade. Com o tempo a gente habitua-se. Já ouviste falar num senhor que disse que o maldito ser-humano habitua-se a tudo? Pois como não se havia de habituar a umas pequenas gotículas?&lt;br /&gt;- Tens razão, Juha! Habituamo-nos a tudo… Ás vezes penso que morreria de desgosto se não fosse e não tivesse aquilo que sonhei para mim. As coisas foram acontecendo, e quando dei por mim… já não havia nada. Retiram-nos até o mais básico e singelo dos sonhos e, no entanto, continuamos a viver… Continuamos a sonhar… só já não sei se ainda  estamos vivos ou apenas num sono sem sonhos.&lt;br /&gt;- Pois… sono sem sonhos…&lt;br /&gt;A conversa continuou mais uns minutos, o tempo de acabar o cigarro. Juha voltou a encapuçar a cabeça do ratinho e voltou ao trabalho com Inês. Entretanto, o céu continuava cinzento e ameaçava chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal é um palhaço!&lt;br /&gt;Já regressada ao trabalho, conduzindo um grupo de turistas, Inês deparou-se com um amontoado de crianças que soltava gritinhos e palmas. Ao centro destacava-se um palhaço. Será possível? Um palhaço? Mas nos Parque não existem palhaços… existem ratinhos, cachorrinhos, periquitos e cowboys, mas não palhaços. Seria algum trapaceiro ou algum freelancer em busca de rendimento extra? Teria entrado no Parque com farda civil, ter-se-ia infiltrado com a roupa de palhaço escondida, ter-se-ia vestido e maquilhado rapidamente para ganhar os seus próprios trocos. É uma questão de tempo até ser descoberto.&lt;br /&gt;À parte de ser, muito provavelmente (e excluindo ainda a possibilidade do Parque admitir palhaços ao seu serviço), um palhaço impostor, o seu aspecto em nada diferia de um palhaço qualquer. Encontrava-se trajado com roupas largas, de um vermelho, verde, amarelo e roxo berrantes, sapatos castanhos enormes, a cara pintada de branco com um enorme sorriso desenhado. Os olhos prolongavam-se artificialmente num desenho que acrescentava algumas lágrimas. O nariz era uma bola vermelha. Fazia pequenas figuras com balões: cabritos, flores, cães, etc. Inês parou no meio da multidão e observou mais algumas das suas façanhas. Quando este terminou seguiu-o cautelosamente. Viu que ele se escondera numa casa-de-banho. Intrepidamente, Inês entrou na casa-de-banho masculina e viu, numa das repartições, os sapatos enormes do palhaço. Não resistiu e empurrou a porta. Era Pablo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a noite não cai&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ah, és tu, disse Pablo,&lt;br /&gt;- Pablo ! Que pensas que estás a fazer ? Porque estavas vestido assim ? Que vem a ser isto? Não sabes que não são permitidos palhaços no Parque?&lt;br /&gt;- Sei,&lt;br /&gt;- Então?!&lt;br /&gt;- Bem, qualquer parque precisa de palhaços. Antigamente precisavam de os contratar. Agora, como podes ver, já os há voluntários.&lt;br /&gt;- Bem vejo,&lt;br /&gt; Nisto, ouviram que mais alguém entrava na casa-de-banho. Pablo puxou Inês com força para si e fechou a porta do compartimento. Neste acto, Inês encostou instintivamente a cabeça ao seu peito.&lt;br /&gt;- Faz pouco barulho, antes que nos descubram, disse Pablo. &lt;br /&gt;- Isto é uma loucura Pablo! Se nos descobrem eu sou, no mínimo, despedida, e tu vais preso, com toda a certeza! Sussurrou Inês. &lt;br /&gt;Dito isto, Pablo agarrou o seu pescoço com ambas as mãos e beijou-a, ainda com os lábios pintados da máscara. Inês não ofereceu resistência. Era um fulgor de pensamentos que não diziam nada, gestos que falavam, toques apaixonados, gritos mudos. Se se ouvisse alguma vez naquele aperto mudo que leva em si todo o sentido que as coisas possam ter, dir-se-ia, beija-me, e que a tua saliva seja como um ácido que escorre no meu interior, que apaga todas essas memórias sujas do mundo. &lt;br /&gt;- Será uma questão de tempo até os descobrirem, Pablo,&lt;br /&gt;- Sim, eu sei… já não estamos em tempo de palhaços.&lt;br /&gt;Entretanto a noite caía.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-5504732808809929785?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/5504732808809929785/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/10/o-parque.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/5504732808809929785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/5504732808809929785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/10/o-parque.html' title='O Parque'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-3089248461285082227</id><published>2009-09-09T03:58:00.000-07:00</published><updated>2009-09-22T04:36:14.191-07:00</updated><title type='text'>Um dia na vida de Adolfo Comensal</title><content type='html'>Busca Adolfo! Caça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adolfo Comensal é um jovem português de 32 anos de idade. É comercial de profissão, solteiro e bom rapaz. Tem cerca de 1,80m de altura, 72 kg de peso e não gosta de romãs. O seu corpo é delgado e um pouco esquivo, o que lhe tem trazido, de certa forma, alguns dissabores na apreciação implacável do sexo oposto. A sua cabeça é de tamanho regular e denota já uma certa calvice, a qual Adolfo procura disfarçar dentro dos resignados limites que a moda lhe impõe. No local e durante o horário de trabalho, Adolfo usa um fato (não muito requintado, diga-se de passagemNos dias de folga e aos fins de semana, Adolfo usa blazer e jeans.&lt;br /&gt;Adolfo vende cartões de crédito em regime de comissionista, representando uma dessas grandes multinacionais ligadas ao sector financeiro. &lt;br /&gt;A consciência religiosa de Adolfo leva-o a comparar a actividade da sua empresa com as divinas concessões do Espírito Santo. Pois tal como na origem dos tempos, no Paraíso, Deus colocou a Árvore do Pecado no Jardim do Éden à disposição dos pecadores (ainda sem o saber), Adão e Eva, também a Sancticrédit (chamemos-lhe assim) coloca o seu majestoso crédito ao serviço de todos.&lt;br /&gt;A Sancticrédit dispõe de um serviço de angariação de clientes espalhado pelos quatro continentes (no qual Adolfo se integra), um serviço de gestão de informação e um serviço de cobranças, para os faltosos. Tal como o Espírito Santo, já se viu que a Sancticrédit concede com a mesma bondade que cobra aos infractores (que neste caso bem se poderiam chamar pecadores). Tal como o Espírito Santo, a Sancticrédit não teria razão de existir sem devedores. Estes são o cerne da sua existência.&lt;br /&gt;Recentemente, e dentro da política de expansão professada pela empresa, a Sancticrédit reinventou a sua política de angariação de contratos em algo mais agressivo. A acentuada concorrência que se faz sentir no sector exige uma redobragem dos esforços para vencer a concorrência, um esmero sem precedentes na argúcia dos comerciais, uma dedicação divina por parte dos prospectores de mercado. “Um projecto é aquilo que fazemos dele”, eis a máxima sacramental da Sancticrédit, a angariadora de almas e vendedora de sonhos. Esse esmero consiste em nada menos que na deslocação ao próprio domicílio do cliente para que este assine o contrato de adesão. O trabalho prévio é levado a cabo por um callcenter com funções de telemarkting. Os teleoperadores contactam telefonicamente os potenciais aderentes com base em uma lista de nomes e contactos de acesso público: as páginas amarelas. Ora, efectuado o contacto com o número em questão, o teleoperador comercial explica sucintamente o produto em causa ao potencial cliente e este, desta feita, acede ou não acede a uma visita por parte do director comercial.&lt;br /&gt;Este não é ainda o caso de Adolfo. Adolfo dispõe de uma pequena banca pré-fabricada instalada num Centro Comercial. Esta banca é constituída por uma pequena mesa à altura do peito, dois bancos altos e um ecrã. Como é óbvio, esses dois bancos destinam-se ao comercial e ao cliente, sendo o local onde vão celebrar o contrato de adesão. O visor tem duas funções: por um lado a perspectiva publicitária, isto quando se trata do visionamento de spots publicitários destinados aos transeuntes frequentadores do centro comercial; por outro lado destina-se à própria doutrinação do comercial. Afinal, quem será capaz de vender um produto em cujas vantagens não acredita? Qual será o vendedor de sonhos ou ideologias o que não é, ele próprio, um sonhador e idealista?&lt;br /&gt;Adolfo não é um idealista, mas acredita na função social que a sua profissão implica. É uma função essencialmente democrática, nas palavras do próprio, uma vez que assim se possibilita o acesso ao crédito a toda e qualquer pessoa, vantagem que antes estava reservada a uma minoria empresarial privilegiada. A democracia, o progresso e a concorrência trazem vantagens aos cidadãos. É esta a grande crença e ideologia de Adolfo.  &lt;br /&gt;Tirando estes preliminares, resta-nos apenas acentuar duas notas: primeira, que Adolfo trabalha já para a Sancticrédit há dois anos; segundo, que a sua profissão lhe agudizou de forma incrível a percepção. Afinal, tudo se trata de percepção e psicologia. Adolfo espera, o potencial cliente passa, Adolfo dispõe de uma espécie de visão raio-x que lhe permite identificar rapidamente um potencial aderente, pela maneira como anda, como veste, como fala, como olha. Exemplifiquemos. Imagine-se um centro comercial e uma chusma de gente que passa. Numa primeira abordagem, e seguindo os mais elementares princípios da probabilidade, quanto maior a quantidade de gente que passa, maior será a probabilidade de Adolfo conseguir mais uma alminha para o seu Paraíso. Nada mais falso! O que conta, antes de tudo, é a sorte. Recorde-se o episódio bíblico em que o bom semeador lança as sementes ao caminho. Umas frutificam em terra fértil, ao passo que outras caem na pedra ou em terra estéril, pelo que não frutificam. O mesmo se passa com a prospecção de aderentes. A única e cruel diferença é que as hipóteses de sucesso não parecem subir com o aumento do número de tentativas. Antes pelo contrário, a um aumento desenfreado de tentativas corresponderia, quase invariavelmente, a criação de uma certa dinâmica de fracasso, uma aura de derrota à medida que as recusas se vão multiplicando. Tudo isto pela simples razão de que o pensamento do vulgo segue esta lógica: “Se não é bom para o meu vizinho, porque o será para mim?”; assim como verdadeira é a proposição inversa: “o que é bom para o meu vizinho é bom para mim”. Afonso sabe disto. A experiência já lhe ensinou o suficiente para terminar o dia com algo nas mãos. &lt;br /&gt;Forçoso é também evitar os zombeteiros e ociosos. Ainda tem bem na memória aquele fatídico dia em que lhe surgiu um espécime desses. Há que desconfiar sempre dos mais solícitos. A solicitude em excesso leva sempre algo na manga. Trata-se de um caso em que Adolfo, ainda a frescos dias de exercício da profissão, abordou um jovem que não teria mais que os seus vinte e cinco anos. O jovem em questão não se encontrava mal apresentado e ostentava um sorriso natural e franco, embora não muito astuto. Ora, Adolfo abordou então o nosso jovem e apresentou, de forma sucinta, clara e atractiva o seu produto. Ás afirmações de Adolfo, o jovem respondia com olhares iluminados e sorrisos curiosos. Foi sem hesitação que o jovem acedeu ao convite de Adolfo para “abancar” e assinar o dito contrato. Oh! Não sei de nojo que o conte, como diria o poeta! O jovem dera uma morada e nome falsos a Adolfo, pelo que fora o seu vizinho que recebera o cartão e em nome nada menos do que do seu cão. Até o cãozinho teria um cartão de crédito. Mais uma vez, recorrendo à sabedoria dos antigos, seria caso para dizer: “Foge cão que te fazem Barão! Para onde, se me fazem Conde?”&lt;br /&gt;Assim, já com as devidas ressalvas mentais, Adolfo observa a chusma de gente que invade os corredores do centro comercial numa tarde chuvosa de Domingo. Ali vai o velho reumático engravatado! Provavelmente recebe apenas uma reforma miserável e veste gravata apenas para recordar os velhos tempos de dignidade; ou então é um velhote rico e informado que já conhece todas as nossas artimanhas, portanto, a investida mais não será que uma perda de tempo. Ali vai a senhoreca de meia-idade vistosa! Não! Pelo aspecto já deve ter um cento de cartões deste género, pelo que mais vale evitar mais um “Não obrigado!” ou “Obrigado, já tenho.” Ali vai o jovem de olhar sombrio e mochila. Não! Ou é mais um estudante teso ou mais um desses intelectuais da treta anti-consumistas. O melhor que teria seria mais um “Não obrigado”, seguido de um olhar de desprezo monumental ou, com um pouco mais de sorte, uma asserção fastidiosa dessas do género: “Ainda não me rendi!”; “Essas coisas não são para mim!”. Olha, a menina fútil de penteado da moda! É uma boa candidata mas… aqueles sapatos devem ter pelo menos dois anos… e a mala é, de certeza, sua contemporânea… Ah, ah, ah! Aí vem os meus preferidos! A família típica! Dois miúdos ranhosos dentro de um carro de compras em pacífica convivência com duas caixas de Super Bock; a mater com alguns fios de cabelo brancos e o corpo deformado de gordura nos locus habituais da espécie mediterrânica e claro, a cereja no topo do bolo, o paterfamilias baixote, gorducho, testa suada e cachaço peludo. Exactamente o género dos que, a meio do mês, já não tem dinheiro para as despesas correntes… Ataca Adolfo, Ataca!&lt;br /&gt;-Boa tarde! Posso-lhe fazer uma pergunta? Disse Adolfo ligeiramente curvado e de cabeça inclinada. Adolfo compreende já o enorme poder sugestivo da pergunta e o seu poder sobre os corações humanos. É claro que, se em vez de um Adolfo tivéssemos uma Catarina, de formas e carnes apetitosas, dispensar-se-iam todos estes meandros de exploração teórica da psicologia do consumidor. A psicologia é uma ciência magnífica. É definitivamente a ciência do século XXI. Uma ciência do novo-riquismo e do esgotamento de todas as possibilidades. A psicologia é algo parecida com o olhar vago de uma rapariga loira. Nunca tem fim!&lt;br /&gt;- Boa tarde! Ora faço o favor de dizer amigo!&lt;br /&gt;- O senhor trabalha?&lt;br /&gt;- Sim, trabalho. E posso saber porque o quer saber?&lt;br /&gt;- Muito bem, quer dizer que se o senhor trabalha não precisa do nosso cartão!&lt;br /&gt;- Mas o senhor está a vender cartões?&lt;br /&gt;- “ Eu não vendo cartões, estimadíssimo senhor. Eu vendo sonhos. Eu vendo “O Cartão”. Nada mais do que o melhor cartão de crédito do mundo! Pertenço à companhia Sancticrédit. O senhor conhece?&lt;br /&gt;- Sim, já ouvi falar. Mas ouça lá amigo, se eu não preciso do cartão, como de facto não preciso, porque é que estamos a ter esta conversa. Melhor, porque estamos ainda a conversar?&lt;br /&gt;- Pergunta pertinente, senhor… desculpe, tenho o prazer de estar a falar com o Sr…&lt;br /&gt;- Hermínio Costa;&lt;br /&gt;- Muito bem Sr. Hermínio Costa, como lhe estava a dizer, o senhor não precisa deste cartão, e é precisamente por isso que é do seu inteiro interesse adquiri-lo. &lt;br /&gt;- Não compreendo&lt;br /&gt;- Passo a explicar Sr. Hermínio. É que um cartão como este, tal como a graça divina, só se concede a quem não necessita. Precisamente por isso é uma graça.&lt;br /&gt;- Muita graça tem você, estou a ver…&lt;br /&gt;- O Sr. Hermínio já fez férias este ano?&lt;br /&gt;- Ó amigo, se eu e a minha esposa ganhamos o salário mínimo, com dois filhos, como é possível tirar férias? Só se for no quintal lá de casa…&lt;br /&gt;- Exactamente Sr. Hermínio! Mas com a Sancticrédit poderá realizar este sonho, uma vez que serão sorteados dois dos nossos primeiros dez aderentes para umas fantásticas férias de dois dias nas Maldivas. Além disso, o Sr. Hermínio pode ainda usufruir de 10%de desconto em compras numa das lojas desta cadeia de supermercados, em todo país. Além disso, bastará um certificado de rendimentos para que lhe concedamos um plafond superior a 1,500 euros.&lt;br /&gt;- Mas isso tem um custo certo?&lt;br /&gt;- Ora, sim… pode usufruir de todas estas vantagens por apenas 20 euros por mês, sendo que a compra lhe será descontada na sua conta bancária entre o dia um e sete do segundo mês seguinte à data da compra. O que acha Sr. Hermínio?&lt;br /&gt;- Bem… Acho que a gente deve adaptar os gastos aos nossos ganhos… Se eu ganho 450 euros e a minha esposa outros 450 euros, isto perfaz um total de 900 euros. Se comprar um artigo que custe 500 euros, é certo e seguro que este dinheiro me irá faltar no orçamento familiar, certo?&lt;br /&gt;- Sim, mas a dilação no pagamento tornará possível a compra, Sr. Hermínio…&lt;br /&gt;- Olhe, desculpe amigo, mas não estou interessado naquilo que me está a propor… Não necessito deste cartão!&lt;br /&gt;- Sim necessita Sr. Hermínio, – e ao dizer isto acelerava o passo à medida que a presa se afastava.&lt;br /&gt;- Permita-me só mais uma pergunta!&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- O Sr. Hermínio considera-se uma pessoa solitária?&lt;br /&gt;- O que quer dizer com isso?&lt;br /&gt;- Digamos que… sem grandes rodeios, o Sr. Hermínio tem outras diversões, para além de ser um pai de família dedicado, como já vi que é…?&lt;br /&gt;- Bem, digamos que… por vezes dou umas voltinhas…&lt;br /&gt;- Muito bem Sr. Hermínio. Então numa dessas voltinhas, o Sr. Hermínio já viu a vergonha que o seu divertimento vai sofrer se, um dia, nem que seja apenas um dia, se tornar mais caprichoso… digamos, mais carente?&lt;br /&gt;- Pois, lá isso é verdade…&lt;br /&gt;- Senhor Hermínio, não pense mais! A Sancticrédit poupá-lo-á a semelhante vergonha. Adira já!&lt;br /&gt;Dito isto, o gordinho Sr. Hermínio abancou na mesa da verdade e assinou o decreto que o livraria de semelhantes vergonhas no futuro.&lt;br /&gt;Á parte do aspecto prosaico que ressalta desta pequena narração porque, de resto, temos plena consciência da ausência de brilho de um acontecimento destes, que polvilha o Reino de Aquém e Além Mar. Ressalto aqui apenas a habilidade argumentativa de Adolfo. A forma como soube identificar o potencial aderente, de como o abordou, como conseguiu salvar a situação, mesmo quando tudo parecia perdido. A forma como ,enfim, conseguiu explorar a pobreza franciscana do Sr. Hermínio, colocando-lhe na hora certa o leitão em cima da mesa. Se viver o bastante para o saber, Deus próprio se encarregará de colocar o leitão no outro prato da balança, no dia do Julgamento Final. Esta é a sina dos justos… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontros Imediatos com o Chefe. O Delírio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afonso recobrou o ânimo depois desta pequena vitória. A vida de um comercial não é fácil, e os ganhos sempre incertos.&lt;br /&gt;Enquanto cogitava nas suas continhas de fim-de-mês, Afonso avistou ao longe o vulto obtuso do seu chefe. Era um homem de estatura média, vestia fato de estilo fraque e caminhava a passos largos e rápidos, como se perseguisse sempre algo invisível -  a sua sombra, um vulto feminino atraente, algo deste género. Aproximou-se da banca.&lt;br /&gt;- Viva Afonso! Como vai isto?&lt;br /&gt;- Vai andando, Dr. Carlos… Sabe como é… isto tem dias. Mas hoje até nem está mal de todo. Acabei de marcar um.&lt;br /&gt;- Bravo Afonso! Sabe, tenho um assunto para conversar consigo. O Afonso sabe da nossa mais recente política de expansão, que envolve a própria prospecção de aderentes ao domicílio…&lt;br /&gt;- Sim, ouvi falar…&lt;br /&gt;- Pois, é esse mesmo assunto que me traz aqui hoje à sua banca. Nós, e quando digo “Nós”, refiro-me à empresa, quer dizer, à delegação regional da nossa empresa, temos estado atentos aos progressos dos nossos comerciais, e chegamos à conclusão que o Afonso merece algo melhor do que esta banca, neste centro comercial. A questão é a seguinte: que me diz o Afonso, se lhe propuser um lugar como director comercial do concelho X, onde o Afonso encarregar-se-á da angariação de contratos. Como já deve estar informado, os nossos operadores de telemarkting efectuam a primeira abordagem com o cliente, sendo que, após tal contacto, o Afonso apenas terá de se deslocar a casa do cliente e celebrar o dito contrato. Escusado será dizer que o seu salário aumentará para o dobro, excluindo as comissões, é claro.&lt;br /&gt; - Bem, eu…&lt;br /&gt;- Ah! Bem me parecia que o Afonso encaixava perfeitamente neste perfil. O Afonso tem o dinamismo e a próactividade requeridas para a função. O Afonso é um visionário! Sabe que, na nossa área de negócios o mercado está, de certa forma, saturado. A concorrência é feroz e imaginativa. Temos que dar tudo de nós próprios! Temos que viver o negócio e inventar! Sobretudo inventar! Ser criativos! - enquanto pronunciava o seu discurso as suas faces enrubesciam e os seus olhos crispavam. As órbitas oculares pareciam já denotar um certo púrpura, como aquele que vemos nas mãos dos mortos em certos velórios. Continuava.&lt;br /&gt;- Sabe Afonso, a propósito de imaginação, devo partilhar consigo uma das minhas recentes reflexões. O que pensei foi nada menos do que o seguinte. Sabendo nós, de fonte segura, que este mercado está saturado, e quando digo saturado refiro-me não só ao facto de praticamente toda a população activa adulta possuir um cartão de crédito, da nossa ou de outra qualquer empresa, mas mais precisamente a algo inquietante. Ao contrário do que acontecia há alguns atrás, as pessoas começam a ficar cada vez mais informadas dessa propaganda nefasta sobre os malefícios do consumismo. Ouve-se nos telejornais casos de pessoas que desgraçam as suas vidas por dívidas, casas penhoradas, famílias destroçadas. O Afonso compreende o perigo que isto pode representar para a nossa causa? Por outro lado, sabemos também que a publicidade em excesso pode ter efeitos contraproducentes.&lt;br /&gt;- Sim, Dr. Carlos, é uma das impressões que tenho tido desta nossa actividade. A solicitude em demasia desacredita o produto.&lt;br /&gt;- Exactamente Afonso! Imagine só! O Afonso também anda aí na luta… certo?&lt;br /&gt;- Não compreendo Dr. Carlos!&lt;br /&gt;- Na luta, quero dizer, no engate, o Afonso é solteiro não é?&lt;br /&gt;- Sim, sou.&lt;br /&gt;- Imagine, o Afonso vê uma rapariga bonita. Quer conhecê-la. Quer passar bons momentos com ela, enfim, namorar, casar, o que queira…compreende?&lt;br /&gt;- Sim, sim…&lt;br /&gt;- Ora, suponhamos que o Afonso começa a gostar muito dessa rapariga, a venerar os seus passos, a enfeitiçar-se com cada sorrisinho ou inclinar do queixinho…&lt;br /&gt;- Sim, sei exactamente do que está a falar…, -  disse, um pouco embaraçado.&lt;br /&gt;- Bravo Afonso! Agora suponha que tem um concorrente, isto é, alguém que também viu o mesmo docinho e também quer provar… Mas diferentemente do Afonso, esse nosso D. João “de trazer por casa” é calculista e desinteressado. Conhece todos os picos de emoção feminina. Dá-lhe um pouco de tudo nas medidas certas. Não lhe liga todos os dias, aproveita o timing exacto para atacar… não carrega o semblante com um ar de carneiro mal morto apaixonado. Um desses que “a sabe fazer”, compreende? Desses que não fala muito sobre si mas faz com que o seu nome esteja escrito em toda a parte. Agora imaginemos que o nosso Afonso, apaixonado como está, não se controla nas suas emoções, liga-lhe a toda a hora até à exaustão, abre as suas entranhas para que a pequena veja como são belos e puros os seus sentimentos, de como ela poderá viver eternamente na sua confiança… Diga-me Afonso, quem pensa que levará a melhor? Você ou o D. João “de trazer por casa”?&lt;br /&gt;- Pois…, -  disse Afonso com um ar de certa forma resignado,&lt;br /&gt;- Bravo Afonso! Você é um homem inteligente! É precisamente por este facto, por esta tendência humana para pensar que o incógnito e o desinteressado é o melhor para si, que vamos alterar radicalmente a nossa estratégia de markting. Vamos acabar com a publicidade televisiva e outdoors… O Afonso acredita que a maior parte das tragédias e catástrofes humanas acontecem por um único motivo, o tédio? Acredita que a mensagem cristã vingaria com outdoors e sloogans chatos? Nunca. O triunfo foi-lhe outorgado pela publicidade oculta. Pela mensagem simples que passa de boca em boca… Eis a chave do sucesso…&lt;br /&gt;Pois é o seguinte: todos os nossos operadores de telemarkting deverão, no acto de ingresso na empresa, trazer consigo o nome de quinze contactos de amigos, conhecidos, familiares. Estabelecerão a abordagem prévia com esses contactos, para que logo de seguida recebam a visita domiciliária dos nossos directores comerciais. Assim poderemos tirar vantagem, por um lado, do enorme fluxo de operadores de telemarkting que recebemos na nossa empresa; por outro lado, da segurança que o contacto pessoal proporciona em termos de receptividade e empatia com o produto. O que acha Adolfo?&lt;br /&gt;- É muito boa ideia Sr.Dr.;&lt;br /&gt;- Sim Adolfo, além disso envolve um dos mais nobres sentimentos que a existência humana nos permite, miseráveis animais.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- A solidariedade. Repare que, nem que a pessoa esteja plenamente convencida da inutilidade que o produto representa para si, o laço de afectividade que o une ao operador de telemarkting fará com que adira. É a nova face do comércio no século XXI, Adolfo. É a marcha inexorável do progresso…&lt;br /&gt;- É a história…&lt;br /&gt;- “Sim Adolfo, você e eu somos a história e toda a sua inexorabilidade que lhes cai em cima. O século XXI, como de resto já foi provado, correrá todo ele no domínio da imaterialidade. A riqueza de um indivíduo poder-se-á avaliar por toda a escala de benefício material que a sua produção imaterial pode proporcionar. Isto implica que todos devemos dar o nosso máximo. As possibilidades de ganho e de alcance material são ilimitadas, se ilimitada for também a capacidade de um indivíduo para se adaptar a estas novas grelhas de acção.&lt;br /&gt;- Grelhas de acção? - inquiriu Adolfo;&lt;br /&gt;- Sim Adolfo, a capacidade que cada um terá para se adaptar aos novos padrões impostos pelo sistema. Da mesma forma, este excluirá todos aqueles que não se lhe adaptem. É a sobrevivência do mais apto na luta pela vida. &lt;br /&gt;Adolfo, já um pouco confuso, levado ao limite das suas capacidades intelectuais, começara a sentir uns suores frios nas costas, na palma das mãos e na planta dos pés. Despediram-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voa Adolfo! Voa!&lt;br /&gt;Nesse mesmo dia, Adolfo, acabado o seu turno no centro comercial, dirigiu-se a casa, quando recebeu uma esperada chamada. O chefe liga.&lt;br /&gt;-Sim, Adolfo, no seguimento da nossa conversa e após uma visita relâmpago ao nosso escritório, encontrei a tarefa ideal para si. Que tal fazer uma visitinha aqui a um potencial aderente. Acabou de ser proposto por um dos nossos operadores de telemarkting. É um pouquinho longe, mas segundo as informações que tenho é aposta ganha. Que acha?&lt;br /&gt;- Ok! Está bem! Precisava só que me desse a morada”;&lt;br /&gt;- Claro, é a senhora Josefina Macarrão, Rua do Futuro, nº31. Apontou?&lt;br /&gt;- Sim, está bem… já memorizei. Vou apenas colocar aqui o nome da rua no GPS.&lt;br /&gt;- Bravo Adolfo! Até logo!&lt;br /&gt;Adolfo dirigiu-se a toda a velocidade para a dita casa de uma senhora qualquer que tinha sido proposta por um dos teleoperadores. Assim até se aposta em valores mais seguros, pensou. A viagem não iria ser tão rápida como pensava. O local encontrava-se num espaço ermo já fora do núcleo central da cidade. Era uma casa já bastante antiga, estilo senhorial do século XIX, construída sob uma ligeira colina. Logo abaixo da colina encontrava-se um terreiro seguido de um pequeno afluente do rio. &lt;br /&gt;Adolfo estacionou bem juntinho ao número 31 da rua do Futuro, onde se encontrava já estacionado um carro de marca BMW. Um indivíduo alto, com cerca de 1,80m aguardava junto ao portão e fumava pausadamente. “-Quem será aquele tipo? -  pensou Adolfo. &lt;br /&gt;Saiu do carro e dirigiu-se apressadamente ao portão.&lt;br /&gt;- Boas tardes.&lt;br /&gt;- Boas tardes.&lt;br /&gt;- O Sr. sabe-me dizer se é aqui que vive a Sr. Dona Josefina Macarrão?&lt;br /&gt;- Sim, penso que sim. Quer dizer, pelas indicações que tenho…sim. Há já quinze minutos que aqui estou a tocar a campainha e ninguém vem à porta, por isso duvido que esteja em casa.&lt;br /&gt;- Mas o senhor também deseja falar com a Sra. Dona Josefina?&lt;br /&gt;- Pois sim! Pertenço à empresa Sancticrédit e tenho indicações para fazer aqui um contrato…”&lt;br /&gt;- Como??!! Mas só pode estar a brincar! Eu também sou agente, quer dizer, agora director comercial da Sancticrédit e também recebi indicações para fazer aqui um contrato!&lt;br /&gt;- O Sr. … desculpe, como se chama?&lt;br /&gt;- Adolfo… Adolfo Comensal.&lt;br /&gt;- Sr. Adolfo, deve haver aqui algum equívoco, porque foi a mim que foi incumbida a tarefa de vir precisamente aqui, a esta casa, fazer um contrato, por indicação de um dos nossos teleoperadores.&lt;br /&gt;- Não, não pode ser! Deve haver aqui algum engano. Vou ligar ao Dr.Carlos para esclarecer esta questão; -  disse irritado. Ligou mas ninguém atendeu. &lt;br /&gt;- Olhe Sr… desculpe, ainda não me disse o seu nome…&lt;br /&gt;-Ricardo… Ricardo Contrição.&lt;br /&gt;- Sr. Ricardo Contrição, eu fui incumbido pelo Sr.Dr. Carlos Amorim, sim, esse mesmo que é director regional de vendas, de fazer uma visita a esta casa e de fazer um contrato. Não sei que tipo de confusão pode aqui haver, nem sei que tipo de informação lhe possam ter dado, mas este contrato é meu!&lt;br /&gt;- Sr. Afonso Comensal, em primeiro lugar não gosto do tom em que me fala. Em segundo lugar, eu não arredo daqui pé até fazer o contrato, como tinha previsto, com a Sra. Dona Josefina Macarrão.&lt;br /&gt;Não acabava, quando Adolfo lhe desferiu um violento soco no queixo, que lhe abalou todo o perímetro craniano. Não foi, contudo, suficiente para imobilizar Ricardo, porque este, imediatamente, o agarrou pela grava, puxando-o para si até que ambos caíram no chão de terra. Agarravam-se freneticamente, rebolando pelo chão num emaranhado de braços e de pernas dificilmente distinguível, umas vez que a sua indumentária e compleição física era parecida. Rolaram pelo pequeno declive que se encontrava do outro lado do caminho, até parar junto ao riacho.&lt;br /&gt;Quando finalmente pararam de rolar, Ricardo encontrava-se praticamente imobilizado. Havia embatido violentamente com a cabeça num pedregulho que ali se encontrava. Adolfo soergueu-se lentamente, agarrou o pedregulho e bateu com a sua parte pontiaguda na testa de Ricardo, o que provocou imediatamente um jorro de sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora Adolfo?&lt;br /&gt;Levantou-se lentamente e a muito custo, já que a queda o tinha macerado em várias partes do corpo. Olhou brevemente para a cara desfigurada de Ricardo e ajeitou o fato, descomposto, sujo e rasgado em alguns sítios. Pegou na pedra ainda tingida de sangue. Como lhe custou pegar novamente na pedra. Tornara-se pesada. Excessivamente pesada. Lançou a pedra ao rio. De seguida, agarrou em Ricardo pelas pernas e arrastou-o a muito custo para o rio. Já com os pés dentro do rio e o cadáver de Ricardo submergido até aos joelhos, saiu do rio e empurrou definitivamente Ricardo para longe da margem. Limpou o suor da testa. &lt;br /&gt;Saiu do rio. O suor banhava-lhe todo o corpo, tinha os pés encharcados e uma terrível náusea apoderara-se dele.&lt;br /&gt;Subiu o pequeno declive que se encontrava à beira-rio, não sem antes tropeçar algumas vezes e bater com os joelhos no chão terreno. &lt;br /&gt;Finalmente conseguiu alcançar de novo o portão. À medida que avançava para o portão, o seu corpo tornava-se mais pesado e a náusea agudizava-se a um ritmo alucinante. Mesmo assim conseguiu tocar a campainha, apoiado com a cabeça no lance de parede adjacente. Tocou uma segunda vez.&lt;br /&gt;Esperou cerca de dois minutos, quando ouviu um ranger de porta, desses pesarosos e estridentes, típicos das portas antigas.&lt;br /&gt;- Quem está aí? - ouviu-se uma voz idosa que vinha de dentro.&lt;br /&gt;Ricardo recompôs-se de súbito e colocou a voz o melhor que as circunstâncias lhe permitiam.&lt;br /&gt;- Sr. Dona Josefina, o meu nome é Adolfo Comensal, e estou aqui em representação da empresa Sancticrédit. Foi-me indicado por um dos nossos colaboradores que estaria interessada nos nossos produtos…&lt;br /&gt;- De quem?!?! -  interrompeu D. Josefina.&lt;br /&gt;- Sancticrédit, - respondeu Adolfo animado;&lt;br /&gt;- Aproxime-se mais da porta que não o estou a ouvir bem, meu jovem! - &lt;br /&gt;Adolfo aproximou-se e subiu dois lances de escada que o levavam directamente ao pórtico de entrada. Só quando se encontrou na soleira da porta viu de mais perto a sua potencial aderente. Era uma velha senhora, com cerca de 82 anos, cabelos brancos, ligeiramente corcovada e com a face profundamente enrugada. Diria mesmo incrivelmente enrugada. Poder-se-ia mesmo dizer que ninguém acumula numa vida só tantas rugas.&lt;br /&gt;- Então o que estava a dizer meu jovem? Oh, veja só! O senhor está a sangrar do lábio e tem o fraque roto. O que lhe aconteceu?&lt;br /&gt;- Nada… não se preocupe Sr. D. Josefina, foi apenas uma pequena queda quando saía do carro. Não se preocupe, não foi nada…&lt;br /&gt;- Não, espere que vou ali buscar um pouco de água oxigenada e tintura de iodo para tratar essa ferida, que está com um aspecto um pouco feio. Espere-me só um minutinho, meu jovem.&lt;br /&gt;- Com certeza, D. Josefina.&lt;br /&gt;Enquanto a idosa senhora se afastava, Adolfo reparava na decoração da casa. Encontrava-se numa velha cozinha revestida de pedra, com uma mesa de madeira ocupando quase todo o perímetro da cozinha. Bancos corridos adornavam os flancos. Na parede do lado poente ressaltava à vista um velho fogão de ferro com uma porta semiaberta. A partir do ponto de vista de Adolfo, apenas se entrevia uma ténue chama que queimava o último pedaço de madeira que ainda sobrava. Não tardaria em se apagar, pensou. &lt;br /&gt;D. Josefina voltou pouco tempo depois, a passos lentos, habituais em pessoas agraciadas pela longevidade. Trazia numa das mãos um frasco de vidro espesso e na outra um pouco de algodão. Embebeu o algodão com um pouco de água oxigenada e aplicou no local da ferida, perto do lábio inferior de Adolfo. Ao aplicar a solução a ferida reagiu com um pequeno fervilhar de cor branca.&lt;br /&gt;- O que arde faz bem! - disse a senhora.&lt;br /&gt;- Muito obrigado pela sua atenção, D. Josefina. Estou-lhe muito grato pela sua hospitalidade e cuidado. De qualquer forma não se preocupe que estou bem.&lt;br /&gt;- Sim, isto vai sarar rápido, -  disse D. Josefina.&lt;br /&gt;-Então, como lhe estava a tentar dizer na nossa conversa de há pouco, venho em representação da empresa Sancticrédit, e foi-nos indicado por um dos nossos colaboradores, que a D. Josefina estaria interessada no nosso cartão de crédito, cujas condições e benefícios penso que já conhece. No entanto, será uma honra e um prazer voltar a explicar-lhos, se a D. Josefina o desejar…&lt;br /&gt;- Não, não é necessário, -  disse a idosa num tom maquinal.&lt;br /&gt;Muito bem, sendo que já está inteiramente informada sobre as vantagens e encargos do nosso cartão, trago-lhe aqui este contrato, que a D. Josefina pode ler, e que deve assinar precisamente aqui nesta última linha,  - e dito isto apôs uma pequena cruz onde a senhora deveria assinar.&lt;br /&gt;- Pronto, agora só falta a D. Josefina assinar aqui onde lhe indiquei.&lt;br /&gt;Dito isto, Josefina apôs também uma cruz no local indicado para a sua assinatura. Adolfo, perplexo, continuou,&lt;br /&gt;- Não compreendeu, Dona Josefina, tem que escrever aqui o seu nome;&lt;br /&gt;- Não sei ler nem escrever, meu bom jovem…&lt;br /&gt;Adolfo enrubesceu. Pensou imediatamente, mas que espécie de idiota me indica uma aderente que não sabe ler nem escrever! Isto não me pode estar a acontecer…!&lt;br /&gt;- Mas coloco aqui a minha cruz, bem juntinho da sua. Suponho que as cruzes, tal como as assinaturas, nunca são iguais. Cada um tem a sua…, -&lt;br /&gt;Adolfo não vislumbrou nenhum impedimento legal, pelo menos do que sabia sobre contratos de adesão, para os quais o mínimo sopro vital exprime uma vontade.&lt;br /&gt;- Está bem! Serão as nossas cruzes, Sra. D. Josefina…&lt;br /&gt;- Sim, serão as nossas cruzes…&lt;br /&gt;Adolfo levou o dedo indicador ao lábio inferior que ainda sangrava um pouquinho, tingindo-o com o seu próprio sangue. Estampou-o sobre as cruzes colocando a sua impressão digital em tons de vermelho claro.&lt;br /&gt;Levantou-se e dirigiu-se para a porta, deixando uma cópia do contrato a D. Josefina. Ao abrir a porta reparou que nunca havia estado tão trémulo na sua vida, e se algum espelho houvesse naquele preciso local veria como a sua face empalidecera de súbito. Desceu o duplo lance de escadas com o corpo descaído e balançando a cabeça ao ritmo da descida. &lt;br /&gt;Quando finalmente saiu do portão e entrou no carro, limpou o pouco de sangue que ainda lhe restava no lábio, ajeitou o espelho retrovisor, fixou o olhar no horizonte e arrancou a toda a velocidade em direcção à cidade. Entretanto, a noite caía.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-3089248461285082227?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/3089248461285082227/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/09/um-dia-na-vida-de-adolfo-comensal.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3089248461285082227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/3089248461285082227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/09/um-dia-na-vida-de-adolfo-comensal.html' title='Um dia na vida de Adolfo Comensal'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-6013605681817764375</id><published>2009-08-19T07:25:00.001-07:00</published><updated>2009-09-22T04:35:35.278-07:00</updated><title type='text'>Sois todos culpados (ou o monólogo articulado de um subalterno)</title><content type='html'>1- Um dia destes dei por mim ao espelho a fazer caretas. A mesma de sempre… &lt;br /&gt;O meu nome é José Oliveira. Nasci há 34 anos numa província       portuguesa. Nasci e cresci na aldeia a caldos de couve. Um dia fui à escola. Não era propriamente um wunderkind, mas lá fazia as minhas continhas e cópias com a aprovação resignada da professora. Os coleguinhas troçavam de mim. Diziam que eu trocava os olhos. Era um facto. Ainda o é. Chamavam-me o “Troca-Olhos”. Não fazia caso. &lt;br /&gt;2- O meu corpo cresceu ao som do vento primaveril da aldeia. Sei que tinha a paz interior que gostava e tanto precisava, embora não soubesse que se tratava de paz interior nem que precisava. Há coisas assim. Com tanta crueldade me tiraram à paz da aldeia e me levaram para uma Escola Secundária. Lá fui eu peregrinando… O meu intelecto infantil não conheceu grande desenvolvimento, tirando um ou outro salto qualitativo nas equações matemáticas. Mas eu gostava mesmo é das letras! Delirava com as anedotas do Bocage. Viria a saber que ele também escreveu poemas, alguns deles até eróticos!&lt;br /&gt;3- Um dia entrei na universidade. A minha escolha recaiu nada menos que no curso de Língua e Literatura Portuguesa. Talvez um dia viesse a encontrar novamente o meu Bocage, aí no segundo ou terceiro ano. &lt;br /&gt;Foi aí que ganhei o gosto do carrascão e pela escrita em articulado. É tão chique! Uma vez vi uma peça processual na sequência de um desacato com um compincha que me levou à barra do tribunal. Era chique! Desde então passei a escrever em articulado. Porque não podia eu escrever um dia uma grande peça literária em articulado? Sempre me disseram que o que interessa é ser lido. Sem dúvida que o articulado convida à leitura. Lembro-me bem da vontade que senti quando vi as minhas primeiras grandes expressões a serpentear por entre o meu articulado: “de tal maneira que”, “uma vez que”, “de fonte segura”. Daí até umas metáforazitas foi um salto de anão! Um dia levei uns escritozitos a um concurso lá da faculdade. Oh! Malditas sejam todas as horas em que a gente decide submeter a nossa face a certas violências, herança genética e honrada por gerações e gerações. Traços de feições consolidados por uma prática reiterada com consciência da sua obrigatoriedade… Disseram-me que não! Que não era possível escrever poemas em articulado. Foi assim que três burocratas privaram as futuras gerações portuguesas de verdadeiras pérolas de literatura. Da literatura de sempre, da que existia, existe e existirá. Nunca me esquecerei, como as minhas metáforas ardentes caíram naqueles olhos como uma gota de água cristalina em poço seco. Não restou nada… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4- Não obstante este desaire, resolvi deixar aqui alguns exemplos da minha magnus opus para a posteridade. Para vocês, meus queridos leitores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sol que arde&lt;br /&gt;1- O Sol que arde, nasce para todos;&lt;br /&gt;2- Ninguém o nega. É um facto;&lt;br /&gt;3- O Sol ilumina com base em pequenas explosões;&lt;br /&gt;4- Mas graças às explosões temos luz;&lt;br /&gt;5- A Luz que ilumina, ricos e pobres;&lt;br /&gt;6- E essa Luz é de todos&lt;br /&gt;7- É um bem comum.&lt;br /&gt;8- E TU (aqui refiro-me à minha amada)&lt;br /&gt;9 – És a minha Luz;&lt;br /&gt;10- Mas não és de todos, és só minha;&lt;br /&gt;11- Meu Sol e minha Luz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se repararam mas nas palavras Sol e Luz usei propositadamente maiúsculas para dotar essas entidades de personalidade própria, tal como a minha amada. Não que eu tivesse já uma amada nesses tempos intelectual e sentimentalmente conturbados, mas é sabido que é uma mal necessário. Não existe ao cimo da Terra um único grande poeta sem uma Musa, Também eu precisava de uma. Claro que essas necessidades sexuais básicas de que fala a psicologia popular masculina não se compadece com Dulcineias de Toboso, é sabido. Sim, é sabido que até os grandes homens têm necessidades sexuais, mas não acredito que a sua inspiração divina tenha descendido directamente desses casos furtivos e carnais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5- Nunca compreendi as mulheres. Não sei se as mulheres foram feitas para se compreender. Durante esta minha breve passagem pelos meandros académicos, forçoso era colorir o meu dia-a-dia com os encantos das cores femininas. Pensei durante muito tempo que estas eram perfeitamente dispensáveis (excepto como Musas, partindo do princípio que as musas são mulheres, é claro!), mas rapidamente se me afigurou impossível a existência sem o odor suave de uma fragrância feminina. De resto, são incontáveis as vantagens quando comparadas com as desvantagens. Quem nos afagará o peito depois de mais uma dessas pequenas derrotas dessa violência da vida? Quem restará para nos colocar os louros sobre a cabeça depois de mais uma vitória? Parece óbvio! Mas descobri também que o caminho que a senda feminina traça é tortuoso e, por vezes, ingrato. Primeiro de tudo, não é novidade nenhuma que as mulheres pensam de forma diferente de nós outros, homens. Em segundo lugar, nós, homens, vivemos oprimidos com a beleza feminina conjugada com uma constante tensão sexual. Não que as mulheres também não sintam tensão sexual, mas o caso é diferente. A nossa é acutilante e opressora, empurra-nos para os subterrâneos do inconsciente e obriga-nos a aventuras perigosas. Muitas vezes até, o risco físico é iminente. Acreditem no que vos digo… &lt;br /&gt;6- Seguindo o fio à meada, declaro aqui que tive três namoradas durante a minha passagem pela faculdade de letras. Não fiquei com nenhuma, embora nunca tivesse posto completamente de parte a hipótese de qualquer uma delas vir a ser a felizarda onde um homem como eu, educado, poeta, inteligente, fosse depositar todo esse amor reprimido que a vida nos impõe. &lt;br /&gt;Estabeleci padrões com base nestas minhas frutuosas experiências. Baseei-me na bipartição oitocentista da mulher literária: a Mulher Anjo e a Mulher Demónio. A Mulher Anjo seria aquela que, criada em ambientes pacatos, provém de origens preferencialmente humildes e com uma educação moderadamente esmerada. A Mulher Anjo ouve-nos até ao fim com uma orelhinha impávida, um olhar sereno e uma postura calma. Quando chega a sua vez de falar, não se exalta nem diz palavrões. Não constrói frases longas nem pensamentos complexos. Em geral, não abusa da primeira pessoa do singular. Quando chega a hora dos prazeres mundanos, cede-nos o seu sexo de forma passiva e resignada e alinha nas brincadeiras ao ritmo da nossa imaginação. &lt;br /&gt;Já a Mulher Demónio é qualquer coisa diversa. A sua forma de vestir não segue os padrões ditados pela moda ou, se os segue, perverte-os e aporca-os de forma insolente mas atractiva. A sua mente repousa numa miscelânea de ideias alheias e coladas, frases feitas do pensamento de vanguarda, isso do pós-pós modernismo. Porque leu mais do que as outras, ou pura simplesmente porque acredita na superioridade natural do seu livre-pensamento, a Mulher Demónio olha-nos com um olhar inflamado e irrompe na nossa percepção com uma ousadia inusitada. Em termos e sexo, a Mulher Demónio não se esmera por nos agradar e, ao contrário do outro tipo que acabei de vos falar, acredita piamente que possui um clítoris. Em palavras simples, fá-lo por prazer e segue o seu próprio ritmo e apetites. Quase invariavelmente, depois de uma experiência sexual com este espécime saímos exaustos. Não as podemos deixar sem o seu orgasmozito (sob pena de uma humilhação constante em conversas futuras e as consequências daí advenientes para a nossa reputação e auto-estima). Amiúde, não se contentam com um prazer moderado mas também não alinham nas cenas porno que povoam o nosso imaginário sexual. Em suma, é difícil agradar à Mulher Demónio. A Mulher Demónio existe para os dias maus. Com a Mulher Demónio não se casa. A Mulher Demónio não se leva ao altar. &lt;br /&gt;7- Ao acabar o número anterior com a palavra “altar”, a livre associação de ideias (que apesar de tudo, a rígida forma em articulado permite) levou-me a pensar em igrejas, e quem pensa em Igrejas pensa em Deus. &lt;br /&gt;Nem devia contar as peripécias que a descida íngreme no caminho da minha espiritualidade provocou, mas in nomine artis, aqui vai.&lt;br /&gt;Fui criado num ambiente religioso, num país católico praticante. Na aldeia onde cresci não tinha ainda chegado o niilismo consumista das cidades. Deus foi então, para mim, um dado adquirido até à idade de dezasseis, dezassete anos. &lt;br /&gt;Nunca cheguei a compreender muito bem como se esvaneceu em mim tão rapidamente o sagrado pergaminho da sagrada Fé, Cristã, Apostólica, Católica, Romana (Tantas categorias!) Talvez porque identificava Deus com a Igreja e o padre da terra como a sua fiel voz. A distância do padre da terra, assim como os comprovados crimes praticados pela Igreja Católica durante o período da Inquisição provocaram a minha descrença. Aliás, não compreendo muito bem como alguém continua crente numa determinada ideologia ou sistema que já deu provas cabais de barbárie. Quem continuará católico depois da Santa Inquisição? Quem continua comunista depois de Estaline? Quem continua nazi depois de Hitler? É difícil responder… Talvez os pontos negros da história correspondam a uma evolução natural dos sistemas e tudo tenda, no final, para a bondade. Ou então a história é apenas o que é, e uma vida perdida nunca é recuperada, as coisas nunca melhoram e a história nunca muda. Uma espécie de conspiração parmenidiana: a mudança é apenas uma aparência. A propósito disto voltarei a falar-vos mais tarde, quando estiverem já razoavelmente convencidos da tragédia da minha vida linear. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8- As minhas considerações sobre o mundo, enquanto estudante, nunca foram muito além dos solilóquios articulados que ainda há pouco testemunharam. As ideias de política, religião, sociedade, configuraram-se em mim em forma pangeânica e, confesso, por vezes, um pouco confusa. &lt;br /&gt;Na política, tudo se resumia a uma série de caras e de tendências. Se pudesse exprimir isto em forma de poema fá-lo-ia assim:&lt;br /&gt;1- Existe a esquerda e a direita&lt;br /&gt;2- Estas tendências foram herdadas&lt;br /&gt;3- Do século XVIII francês&lt;br /&gt;4- A esquerda favorece os pobrezinhos&lt;br /&gt;5- A direita favorece os ricos&lt;br /&gt;6- Existem também os partidos de centro&lt;br /&gt;7- Estes têm mais votantes&lt;br /&gt;8- Entre estes, existe o centro-direita e o centro esquerda&lt;br /&gt;9- O centro-esquerda tende a gostar mais dos pobrezinhos&lt;br /&gt;10- Mas pisca o olho aos ricos quando é necessário&lt;br /&gt;11- O centro-direita tende a gostar dos ricos&lt;br /&gt;12- Mas pisca o olhos aos pobrezinhos quando é necessário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Formei ainda algumas ideias, que aliás considero originais, quanto à concepção de Estado. &lt;br /&gt;Na minha opinião, o Estado tende a desaparecer. No final dos tempos será a empresa que assumirá as funções do Estado. As pequenas empresas passarão a celebrar contratos de vassalagem com a Grande Empresa, de maneira que toda a gente, de forma mais ou menos intensa, prestará vassalagem à Grande Empresa. O Estado, aquele que outrora oprimira e perseguira, ou concedera direitos e garantias, será relegado para segundo plano. A grande empresa passará a ditar toda a vida pessoal, social e profissional das pessoas. As suas actividades atingirão todos os planos e acções do indivíduo. Voltaremos à escravatura, mas de uma forma aparentemente distinta. Em lugar de nos submeter à sua vontade pela força e pelo medo, a Grande Empresa submeter-nos-á pelo prazer. Explorará os recônditos mais profundos do nosso cérebro e detectará os cromossomas responsáveis pela produção da serotonina, esse químico que nos faz sentir felizes. Prender-nos-á a todos dando-nos uma falsa sensação de liberdade. Dar-nos-á a ilusão de tudo ser possível e que tudo é possível de forma fácil. Concederá crédito e formas de pagamento facilitadas. Induzir-nos-á necessidades, controlará os meios de comunicação e provocará crises. Quando julgarmos que tudo está perdido ressurgirá com um novo método e uma nova solução. Em simultâneo reduzirá os salários. Trabalharemos todo o tempo para pagar os nossos novos prazeres. &lt;br /&gt;Enfim, tudo teorias de estudante ocioso! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9- Espero que com tudo isto não pensem que sou uma espécie de revolucionário. Não sou nem nunca fui um revolucionário. Penso existir aqui toda uma carga ideológica que pretendo evitar. Não sou um idealista. Talvez o termo sonhador fosse o mais indicado para me descrever.&lt;br /&gt;Sonhei muito quando era novo. Demasiado… Desde esse tempo dourado da infância, ou seja quando nasce no nosso mundo a ideia de que temos que nos tornar em algo no futuro. Aquela formosa ideia, a de ter um papel na sociedade. Não foi por falta de imaginação que a minha vida seguiu assim. Ora a bata ainda ensanguentada de um médico que acaba de assistir um paciente e o resgata às terríveis garras da morte; complacente com os educados, temido pelos invejosos, cheio de conforto em casa e o telemóvel sempre a arrebatar de mensagens das pretendentes. Ora o peito cheio e lustroso de um advogado na barra do tribunal, a parte contrária e o juiz seduzidos e vencidos pelos argumentos poderosos. Ora o dedo iluminado e ilustre de um político, reduzindo a nada os seus adversários, ciente do seu dever e de nome imortalizado. Não sei se essas pessoas são felizes, mas se não o são, razões não lhe faltam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10- Lá continuei com a minha Faculdade e os meus escritos em articulado. Não que me faltasse o léxico, mas a certa altura reparei no carácter rarefeito das palavras. Pensei que uma palavra não diz nada daquilo que a coisa é. Enfim, uma convenção. Por exemplo, se eu digo a palavra “Coelho”, penso num animal branquinho, com patas, parecido com um gato mas comestível….&lt;br /&gt;11- Enfim, a verdade é que convém não me afastar muito daquilo que levou a esta prelecção, que vos faço com tanto carinho. O que pretendo é contar-vos a história da minha vida. Uma vida banal, é certo, mas alguma vez acreditaram que a vida de uma pessoa se pode resumir a um só dia. Melhor, que não fosse um só dia, isto é, um dia especial, mas um dia banal como todos os outros dias de todo o comum mortal.&lt;br /&gt;12- Como seria natural, terminei o meu curso na faculdade de letras e engrossei esse enorme rio, essa enorme massa de desempregados acabadinhos de sair da universidade. Digo, desempregados relativamente à sua área de formação, é claro. Não me alargarei muito sobre este assunto, até porque um tema prosaico de conversas de café e de intervalo como o desemprego não pode constituir objecto de uma grande obra. &lt;br /&gt;Tinha chegado o momento de ganhar o meu próprio sustento, e convenci-me, cada vez mais, que as coisas do dia-a-dia são as mais importantes. O café da manhã, o gel de banho, o gel de barbear, o champô, a toalha de banho, a merenda, etc… Sabia perfeitamente que Aristóteles não teria escrito mais obras do que os anos que viveu se não tivesse patronos financiando-o, o mesmo com os grandes pintores e poetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13- Comecei a trabalhar nada menos que na Polícia Municipal. Colocaram-me uma farda, um cacetete e um bloco de multas na mão. A minha longa estadia nos mares convulsos do desemprego tinha baixado a minha auto-estima para níveis nunca antes visto e, quer se queira quer não, essa farda elevou consideravelmente o meu ego. Era estranho esse misto de medo, reverência e desprezo com que as pessoas me olhavam na rua. As súplicas dos autuados mais pobres, os murmúrios entredentes dos inconformados, a simpatia inusitada das senhoras de meia idade “em bom estado”.Enfim, toda uma panóplia de sensações que rapidamente se transformaram em rotina. Autuava os veículos sem bilhete de estacionamento, vigiava com olhar perscrutador o comportamento dos transeuntes, orquestrava verdadeiras emboscadas aos prevaricadores. &lt;br /&gt;Quer isto dizer, quando colocavam o bilhete no veículo para um período de apenas 15 minutos e se deslocavam ao tribunal ou à conservatória, eu sabia que não iriam demorar apenas esse tempo. Eu sabia! Ninguém demora apenas quinze minutos no tribunal ou na conservatória. Era então que me escondia por detrás de uma árvore (para que o prevaricador não fosse avisado da minha presença no local), fixava a hora de expiração do bilhete e zás! Um minuto depois da hora passada lá estava eu aplicar a minha qualidade literária num desses bilhetinhos fantásticos: “ 1- O condutor utilizou abusivamente o espaço disponível para o estacionamento do veículo; 2- Sendo que  o acto de estacionar não é um direito por si só, mas sim uma proibição geral; 3- Essa proibição é temporariamente desobstruída com o pagamento da devida taxa prevista nos estatutos da Câmara Municipal da nossa cidade; 4- Tendo em conta todos estes factores, aplico a sanção de ---- euros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14- Foi em mais um desses dias impostos pela minha rigorosa rotina que descobri como odiava toda a gente. Odeio-te a ti, rapariguinha que passas vestida das cores do último grito da moda, de Milão ou de Paris ou sabe-se lá de onde! Já agora, nota-se perfeitamente que esse modelo de blusão é uma imitação barata de um outro mais caro, sim, esse da loja da esquina onde nem te atreves a entrar. Odeio-te, homenzinho gordo, baixote e careca, não só porque és gordo, baixote e careca, mas também porque palitas os dentes de forma asquerosa e mastigas qualquer coisa que nem me atrevo a adivinhar! Odeio-te, mulherzinha de meia-idade, a ti e às tuas rugas precoces precipitadas pelo crédito que pediste e não consegues pagar! Odeio-te, mocinho pimpão, e à maneira ansiosa como olhas paras as carnes apetitosas das tuas concidadãs. Se soubessem o quão vos odeio a todos, todos…! Sois escravos e ridículos! Gostava que tivesseis agora um espelho onde pudesseis ver a vossa triste figura! Pior de tudo, sois culpados, todos culpados! Quantos de vós não tomou decisões, ou tomaram-nas erradas, e por isso sois culpados! Quantos de vós não cedeu aos seus próprios instintos e falou precisamente no momento em que devia estar calado?! Agora calem-se, calem-se todos! Devem calar-se precisamente agora, no momento em que deveriam falar, porque já nada é possível! Já é tarde para tudo isso! Já tudo nasceu e morreu! Já está tudo feito, desfeito e inventado! Agora só vos falta desaparecer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15- Ficai cientes, miseráveis, que eu, José Oliveira, na implacabilidade da minha farda e do alto do meu magistério, não vos farei desaparecer. Sim, apesar de culpados de tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá, não vos farei desaparecer. O meu desprezo pela vossa mediocridade leva-me a pensar um castigo muito mais cruel. Deixar-vos-ei vivos, completamente inconscientes da vossa pequenez e sujeitos à violência do dia-a-dia. Deixar-vos-ei com as vossas pequenas tragédias, comédias e dramas do quotidiano. Dar-vos-ei uma migalha quando estiverdes famintos e retirar-vo-la-ei para vos mostrar como sou poderoso e como é boa e omnipotente a minha vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16- Pensava isto, durante a ronda do fim-de-tarde quando dei por mim misturado com a multidão. Senti-me nauseado e dirigi-me rapidamente ao gabinete. Aproximava-se a hora de saída.&lt;br /&gt;Misturei-me nessa imensa fila de carros que engrossam as principais artérias da cidade. Regressei ao meu pequeno apartamento e sentei-me no meu pequeno trono. Comi a minha refeição pré-cozinhada. É curioso que mesmo os dias mais fatais e determinantes da vida de uma pessoa nunca fazem adivinhar a sua importância. Suponho que serão até, dias normais como todos os outros, e nesse mesmo dia, quando o corpo se recolhe ao seu último refúgio, não pressente o mínimo perigo e a respiração se mantém normalizada.&lt;br /&gt;Mas algo de estranho se passava. Estava sentado à mesa a ver as notícias quando começava um outro programa. Mulheres e homens competiam na admissão com vista a melhoramentos físicos, questões de estética, operações cirúrgicas. As despesas, como é óbvio, patrocinadas pelo canal de televisão em causa. Vi como uma senhora muito feia, nesse programa, se queixava dos insucessos da sua vida e como atribuía tudo isso ao seu péssimo aspecto físico. Chorei! Não sei porquê chorei! Um choro que começou miudinho mas cujas lágrimas engrossavam cada segundo que passava sem que eu o pudesse controlar. Nunca tinha chorado assim em toda a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17- A seguir ao choro veio o vazio. Um vazio imenso que urgia resolver. Uma dor aguda e acutilante que me trespassava. Estava então capaz de acreditar na primeira ideologia ou religião que me prometesse, senão o paraíso, pelo menos uma alívio temporário da minha dor. Sentia agora que eu tinha a culpa, não apenas dos meu erros mas de todos os erros, todos os pecados e todas essas patologias sociais a que passamos indiferentes. O toxicodependente que dorme na rua e rouba para o vício; o alcoólico que olha languidamente da porta do café; a prostituta de aspecto asqueroso de costas para o tráfego. Toda a culpa do mundo era também a minha culpa.&lt;br /&gt;18- Saí de casa e entrei num estabelecimento de diversão nocturna, mais propriamente uma casa de Strip. Após passar o “hall” de entrada estava a música vulgar, o fumo e os olhares, todos na mesma direcção. &lt;br /&gt; Era a primeira vez que entrava num local deste género e, curiosamente, não era nem de perto algo parecido àquilo que imaginei. Imaginava olhares lascivos, mas daquela lascívia descarada, ofensiva, bruta. Ao invés, um estranho silêncio cobria o manto de público exclusivamente masculino que compunha a sala. Não era apenas o silêncio, mas o olhar, como que intimidado dos espectadores.&lt;br /&gt;19- Ao fundo, uma figura feminina balançava o seu corpo, como que serpenteando em volta de um barão. O seu corpo era alto, esguio e demasiadamente definido, como se a natureza talhasse as pessoas para uma determinada função, a nossa dançarina fora esculpida pelo tempo para impressionar como objecto de prazer. &lt;br /&gt;Não parecia prazer aquilo que provocava nos olhares mas sim medo. Arrisco que, se inesperadamente resolvesse irromper pela assistência, os homens presentes afastar-se-iam com repulsa para logo a seguir aproximar-se com olhar ávido e curioso, já sem qualquer embaraço.&lt;br /&gt;20- Abandonei o local em de alvoroço e senti no céu essa estrela que em certos dias ilumina a vida, mesmo a das pessoas vulgares, e transforma em um ápice tudo o que acreditamos até ao momento. Não consegui encher o peito de esperança para voltar a entrar no bar, mas também me deixava de certa forma desconfortável a permanência no exterior. Achei por bem esperar bem juntinho das portas dos fundos por onde, seguramente, todas as bailarinas da noite haviam de sair. Permaneci dentro do carro a fumar.Esperava...&lt;br /&gt;21- Já passava das quatro da manhã quando a reconheci, a passos delgados, descendo os pequenos degraus da porta exterior. O seu carro encontrava-se estacionado não muito longe do meu. Entrou no carro. Seguia-a. &lt;br /&gt;22- Conduzia calmamente na circular, dir-se-ia mesmo a uma velocidade inferior àquela que os outros condutores empreendem em condições semelhantes. È sabido que o ar da noite traz a calma a uns e a turbulência de espírito a outros.&lt;br /&gt;Seguia-a a uma distância prudente para não levantar suspeitas, que pelos vistos não se verificavam, vista a calma com que conduzia. Foi quando o inesperado aconteceu. Por alguma razão que ainda hoje desconheço ela travou. Travou até com bastante distância e antecedência. No entanto, eu, fosse pelas minhas deviações interiores, fosse por qualquer outra razão embati violentamente na traseira do seu carro.&lt;br /&gt;23- Ao pânico inicial seguiu-se o espanto quando vi a calma com que saiu do carro. Olhou primeiro com ar perplexo na minha direcção e depois para os danos que o embate tinha provocado. Era evidente que os danos eram bastantes maiores no meu caso.&lt;br /&gt;Acabei por sair do carro, mais por instinto do que para ver os danos.&lt;br /&gt;24- Surpreendentemente disse-me boa-noite antes de abordar o assunto inicial que provocou este inusitado encontro. Não acabava, quando rapidamente lhe pedi imensa desculpa pelo sucedido, que ia distraído e que me responsabilizava por todos os prejuízos, que nem necessário era chamar a polícia. Tranquilizou-me… Encostamos ambos os nossos veículos na berma da circular onde permaneceram apenas estilhaços de vidro e plástico do pára-choques.  &lt;br /&gt;25- Por feliz coincidência encontrava-se estacionada, além do raid separador da estrada, uma roulotte de comida rápida, para onde nos convidamos mutuamente após resolvidas as questões mais práticas do acidente. Melhor, foi ela que convidou, assim como foi ela que resolveu falar sobre si, ao meu olhar absorto.&lt;br /&gt;26- Ainda não sei muito bem quais serão as consequências disto, sim, isto que escrevo, se tratar de um monólogo, portanto, por si, empobrecedor. Se partirmos do princípio que o diálogo é muito mais elucidativo do ponto de vista que nos dá sobre os sentimentos e as acções, o monólogo é, por assim dizer, um imenso planalto.&lt;br /&gt;Talvez todas as vidas, todos os enredos e actos não passem de um acto em forma de monólogo, mesmo quando os momentos fulcrais acontecem em sociedade, sempre monólogos. Pensem nisso na vossa próxima conversa pós-orgasmo, essas conversas maldosas e reveladoras. As mais egoístas de todas, é certo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27- Falamos, falamos e falamos, sem que lhe perguntasse o que quer que fosse. Clara, assim se chamava, contou-me a história da sua vida num único capítulo. &lt;br /&gt;Que era estudante de filosofia e trabalhava numa estação de serviço. Daí a vigília… Pois… Reparei no seu ar tranquilo e na confortabilidade que exalava dentro daquelas roupas, que a ninguém fariam adivinhar as de uma empregada de estação de serviço. Falava bem. Era culta. Discorria tão fluentemente sobre a vantagem de comprar umas calças Levis como sobre a tragédia de Nietzsche. Quando nos despedimos tocou-me ao de leve na mão. A sua não era quente nem fria, mas morna. O morno da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28- Um pouco aturdido e com a frente do meu carro num estado miserável, afastei-me da circular e deambulei um pouco por estradas secundárias. Entrei numa povoação deserta. Segui a marcha na esperança de encontrar alguma indicação de regresso à cidade. &lt;br /&gt;Quando dei por mim, já tinha passado um enorme portão aberto cuja estrada continuava. Os olhos cobriram-se-me de curiosidade quando vi apenas lápides. Lápides brancas. Parei o carro para tentar compreender onde estava. Seria um cemitério? Seriam, de facto, lápides? Analisei cuidadosamente a primeira lápide que escolhi. Continha apenas um nome. Não tinha data de nascimento nem de morte, mas apenas um nome e, sem réstia de dúvida, era uma lápide. Verifiquei a outra e a outra a seguir. Eram lápides. Lápides em memória dos que morreram, dos que vivem e dos que ainda vão nascer. Os seus nomes estavam gravados nas lápides, mas talvez ainda nem os próprios o saibam. Entretanto, a noite caía.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-6013605681817764375?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/6013605681817764375/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/08/sois-todos-culpados-ou-o-monologo.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6013605681817764375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/6013605681817764375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/08/sois-todos-culpados-ou-o-monologo.html' title='Sois todos culpados (ou o monólogo articulado de um subalterno)'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2766276023260132444.post-8355695637476077404</id><published>2009-08-19T07:12:00.000-07:00</published><updated>2009-08-19T07:27:05.715-07:00</updated><title type='text'>Manifesto do autor</title><content type='html'>Dedico este novíssimo blog ao meu amigo Lugones, em bom tempo sulcando os mares da blogosfera. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este blog nasce da necessidade absurda de não dizer nada dizendo algo. Pretende, assim, contrariar a força vital que anima todos os blogs: a esperança de que um dia venham a ser lidos. &lt;br /&gt;É um blog de contos de um autor (e aceitemos o termo no seu sentido mais lato, na medida em que todo o pobre diabo que coloca algo sobre um papel é autor, e tudo o que aí consta é obra) com uma relação ambígua com o mundo. Que quer isto dizer? Muito simplesmente que muitos dos temas que poderão aqui identificar, independentemente do seu mérito literário, reflectem uma posição sobre algo. Posição esta, que não encontra necessariamente concretização na prática quotidiana do autor. Dito de outra forma, o autor é apenas mais um pobre diabo encurralado nesta grande armadilha a que chamamos vida. Um exemplo de carne, como aqueles que o público feminino tão bem compreende: se alguma vez tratar um assunto em tom desdenhoso com a nova cultura empresarial do século XXI, isso deve-se tão só ao facto de ser um pobre assalariado mal-pago, e que por vezes não tem tudo o que um jovem da sua idade, beleza e inteligência merece. Enfim! Pedi à vida conhaque, e ela apenas me deu água-ardente.  &lt;br /&gt;Baseando-se em muitas ideias que nada tem de original, e plenamente consciente da sua pobreza sintáctica à mistura com alguns laivos de novo-riquismo intelectual, o autor pretende brincar um pouco com as palavras e dar-lhes uma aparência de sentido (que em verdadeiro rigor não têm). &lt;br /&gt;À guisa de alguns profetas que tenho visto ultimamente, se algumas das pessoas do meu circulo de amizades e ex-relacionamentos se vir retratada nos meus escritos é, efectivamente, muito provável, que me tenha inspirado em vocês, mas isso tão só porque vos amo do fundo do meu coração, e não porque me ache superior. Se o reconhecerem por vós próprios, isso é outra história… Pois alguém que é realmente superior não se auto-intitula como tal, mas espera que os outros o façam.&lt;br /&gt;Pois bem, um abraço para todos e um grande bem-haja para os meus leitores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2766276023260132444-8355695637476077404?l=contosdoaristotelico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/feeds/8355695637476077404/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/08/manifesto-do-autor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/8355695637476077404'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2766276023260132444/posts/default/8355695637476077404'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoaristotelico.blogspot.com/2009/08/manifesto-do-autor.html' title='Manifesto do autor'/><author><name>Alberto Colima</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07881881526190492135</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='20' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_eL6jPK7mHT0/S_HXhWlHDKI/AAAAAAAAAE8/I8DbQbwdOOs/S220/a22-jacometi(7)cl.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
