quarta-feira, 19 de junho de 2013

Cartas Anónimas a Sainte-Beuve (2)




Eu, Senhor, sou incapaz de sentir o amor. A minha alma foi-se há muito, como o fumo das fábricas, como o trilhar furioso dos comboios. Além disso, tenho muito medo do que o futuro me possa reservar. Tenho medo da dor, na mesma proporção em que gosto de ter prazer. Esta linguagem básica e primitiva é a única que me permito compreender. Por isso apaixonei-me por aquela mulher - ela é desprovida de artificialismo. A sua linguagem é a do sexo e da violência. Quando ela diz sexo, sei a certeza que ela quer dizer sexo; quando bate, sei que pretendia bater. Já lhe pedi várias fotos para ter sempre uma recordação sua, mas recebo, invariavelmente imagens electrónicas suas denunciando nudez explícita. É uma questão de hábito.  
Se a morte, aquela que é certa, me ceifar em tenra idade, prometo desde já que fiz todos os possíveis para ler o livro de que falam todos os bons escritores: o Livro do Mundo, ou seja, todas as regras. O essencial mesmo é compreender as regras, e quem se esforce desde cedo nisto, seguro é que vai muito longe, nesta como em todas as épocas.

Senhor, tenho medo do corpo. É uma coisa interminável, de veios e nevoeiros, de mil probabilidades e volatilidades, mas que coisa! Se me dissessem que o mal estava no corpo, de muito bom grado acreditava, mas era preciso ir mais fundo e mais fundo e fundo, fundo…

domingo, 12 de maio de 2013

Cartas Anonimas a Saint-Beuve



Exmº Senhor,

Encontro-me perdido. A verdade sobre toda a perfídia do meu carácter acaba de se revelar em numerosos romances, antigos e modernos. Acredite que, por muito queira convencer-me do contrário, não passo de um arrivista miserável. Bebi no leite materno a ambição de aspirar a um lugar que, pela natureza e ordem das coisas, não me cabe, e tudo que à natureza pertence à natureza volta. Não passo de um biltre.

Por muitos e variados artifícios procurei disfarçar a minha cobardia de racionalidade, altos princípios que tudo fazem tremer, Hoje, acredite, é mais honrado que eu o insignificante filho de aristocrata empobrecido, pela natureza das coisas.

A luta de classes existe e é plausível. Fui um agente activo, aos olhos da história, dessa infatigável luta pela poder. Os livros marxistas revelaram, para além de toda e qualquer dúvida razoável, que pertenço a uma classe social condenada. Os pobres serão sempre pobres e os lacaios serão sempre lacaios.
Vi os filmes da Nouvelle Vague de fio a pavio, conheço as subtilezas do cinema noir, encontro-me perfeitamente adestrado a identificar as diferentes as características do cinema mudo alemão.

Porém, (e como esta adversativa pesa como chumbo na minha vida), adoro os filmes do Brian de Palma e todo aquele sangue a jorrar. Compreendo o Scarface, como esse vulgar criminoso, cuja vida inteira foi um enorme bluf, chegou ao topo da cadeia alimentar e como se viu tão só numa mesa do restaurante mais caro de Miami, com a mulher mais bela dos arredores, fumando puros de duzentos dólares, embriagado de dinheiro da cabeça aos pés e se perguntou: “Mas a vida é isto?”, como quem diz: foi por isto que vendi a alma ao diabo, que matei, violei, corri o perigo das ruas? Hoje compreendo Tony Montana. Não aguentou o topo, como não aguentam o excesso de oxigénio todos aqueles que fazem uma escalada vertiginosa na cordilheira dos Andes. O que é da natureza, à natureza volta.

Admito que a máquina a vapor apenas obnubilou uma realidade insofismável. Serei sempre um miserável camponês que um dia foi à cidade e se fascinou com os carros de alta gama, com as mulheres de faces frescas e longas pernas bronzeadas, com as casas de fachada kitsch e conforto fácil. É mil vezes merecido esse conforto, mas apenas aos que o merecem pelo seu nascimento. Nunca poderei apagar o estigma de bosta do meu nascimento. Impressionou-me demasiado a violência com que as coisas se dizem e fazem nos meios rurais. Fragilizaram-me o alto magistério dos padres, as saladas de vinho que os pobres faziam (que belo espécimen culinário este, hein?), as caminhadas dos patetas alegres ao longo da praia nos domingos pachorrentos.

A realidade, com toda a justeza, empurra-me de volta para o meu lugar e eu não gosto disso. Queria outra coisa, algo diferente, e por isso estou em vias de organizar um sindicato de assistentes administrativos para abalar as fundações deste mundo e do outro.

Queria outra coisa. Queria não ter horários para acordar e para deitar. Desejo ardentemente o ócio, as longas tardes solarengas nas esplanadas de Lisboa a beber licor e ver as estrangeiras a passar.

O Império estúpido das máquinas a que hoje chamamos capitalismo, prolongou a vida a pessoas inúteis como eu. A vida artificial engana assim a verdadeira vida, aquela que a natureza elege, mas o que à natureza pertence à natureza volta. “Ela” acabará por cobrá-lo.

Têm razão os filhos do papá disfarçados de revolucionários que dizem que não passo de um pelintra de fato e gravata, apenas de presente histórico. Dizem que a minha missão será conduzir a resolução durante breves momentos até à vitória final do proletariado. Aqui chegado, dizem eles, será meu dever e de grande honra oferecer a minha cabeça à guilhotina.

Têm razão os puristas que asseveram que a pintura morreu com Rafael, que a arte pertence a Rafael, que é coisa mui nobre e que se encontra irremediavelmente corrompida desde a Revolução Industrial, que a Revolução Industrial só produziu agiotas, guerras e nados mortos. Que era melhor a vida quando as mulheres se limitavam a ser mães e esposas, os moços de cavalariça a ser moços de cavalariça e os nobres a ser nobres. Os nobres deveriam e têm direito a exigir. É neles que reside a alma da pátria. A Igreja só o será, portanto, enquanto cumprir a sua missão ancestral de secundar e justificar os direitos de nobreza. A Revolução Industrial é má, os Suevos, os Visigodos e outros povos altos e loiros são bons. Os povos do sul são maus. O próprio Átila não aguentou com a máquina do Império… Não admira, não passava de um mongol a tentar conduzir um Ferrari.

Despeço-me, Exmº Senhor, desejando-lhe que a presente o encontre de saúde e perdoe a este humilde servo quaisquer excessos que pela minha natureza possa encontrar nesta missiva.
Com redobrados cumprimentos,
Seu, M.

domingo, 14 de outubro de 2012

Recordação de Uma Fronteira



 Interrompendo o serpentear da cintura muralhada da cidade, ergue-se um imponente aqueduto com cerca de oito quilómetros e oitocentos e quarenta e três arcos de extensão. À vista desarmada, estamos perante um Coliseu desmembrado, segundo fontes da época, obra complexa e onerosa. Mas ficou, e perante a vista que alcança a cidade pelo lado oeste parece tão só o primeiro obstáculo não natural nas vastas planícies que deixa para trás – uma via rápida para a capital do Império.
Na verdade, a cidade resume-se ao seu centro histórico, bastante fácil de identificar: começa quando começam as várias construções muralhadas. Estas conservam fragmentos de todas as épocas, como é costume nestes casos, um fenómeno da sobreposição, sinal de que as coisas quando não se fazem por imitação, fazem-se porque os seres humanos, qualquer que seja a época em que vivem, sentem necessidades muito parecidas. Estas sucedem-se: a muralha fernandina, a de D. Dinis e respectivas torres, árabes, góticas, romanas, celtas. Todos partilharam a mesma obsessão: muralhar, abaluartar, fortificar, couraçar, defender.
Do outro lado da parte alta da cidade, a primeira povoação do país vizinho encontra-se plantada em campo aberto numa planície árida. Parece ignorar olimpicamente o que se passa do outro lado, quando do cimo das inúteis fortificações couraçadas a contemplamos. Sentimos ainda hoje a ordem imperiosa de vigília, atenção, desconfiança.
O caminho do velho castelo medieval ao centro leva-nos direitinhos à Sé Catedral, um curioso edifício em frente do qual se espraia o coração cívico e comercial da cidade. Contemplados pelo velho astro da religião do alto dos seus séculos de indiferença divina, materializada em pedra gasta e amarelada, não restam senão idosos em torno da praça para mais um fim-de-semana de pasmo e miséria contida. Nada indica que seja diferente durante a semana. Os velhos já não se dão ao trabalho de conversar ou jogar às cartas. A impressão fundamental é a de que esperam. O quê? Um dos velhos salta alguns pregões fogosos: «Ah, sua cambada de velhadas! Estes já não fazem mal a ninguém! Deveriam era morrer todos! Anda o estado a gastar dinheiro com esta gente para quê?» Dito isto, levanta-se em sobressalto da parede onde se encontra apoiado e os seus olhos vivos percorrem nervosamente a toda o entorno como se procurasse algo por entre o vazio. Quem é apanhado no ciclo vicioso da pobreza, por mais ignorante que seja, revolta-se, esbraceja, esperneia. Conclui, apoiado por todos os argumentos da razão, que a sua situação é inaceitável e desumana e em diante não há nada e não acontece nada, e o progresso louco, imparável do mundo continua sobre a solidão até normalizar o anormal.
De costas para a justiça divina, encontramos o pelourinho da cidade. Está bem conservado. Talvez por isso tenha sido recentemente considerado património da humanidade. Ostenta um belo pedestal, um alto fuste rematado pelo capitel em forma de prisma onde ainda hoje encontramos os ferros da sujeição, talhados em forma de cabeça de cão com uma língua comprida e achatada como se estivessem esganados. Seguram as argolas dos tempos da pena capital, onde morriam os condenados ao suplício final. Não custa imaginar que em terras de fronteira, num qualquer dia de auto de fé, se encontrassem os quatro espigões ocupados com a função para a qual foram concebidos. O seu aspecto grotesco seria uma espécie de ironia final para os acusados que, segundo dizem os sobreviventes da experiência, atentam especialmente aos pormenores nos seus últimos segundos de vida. Do lado direito do pelourinho, uma espécie de arco do triunfo de uma qualquer ordem de cavalaria que batalhou contra os mouros. Quais mouros?
Pela estreita calçada medieval, dois rapazes descem. São as criaturas mais feias e assustadoras que vi em toda a minha vida. O mais alto apresenta uma cara disforme e olhos de maldade, uma cicatriz no nariz aparentemente quebrado várias vezes no mesmo sítio. O outro é baixo e magro. Veste umas calças largas e uma camisa colorida, usa o cabelo pintado de um tom indeterminado. Parece uma daquelas figuras ridículas dos filmes de terror, capazes de cometer os actos mais atrozes.
Já sei, são os descendentes desses outros criminosos que em tempos eram levados aos espigões implacáveis da justiça de Deus. Teriam, no máximo, uns vinte e cinco anos. Nasciam e cresciam nos bairros pobres da cidade, onde os esperava a servidão nos mesteres das corporações ou nos campos à volta, o exército e a certeza de uma morte prematura ou, a opção mais apetecível de todas: a bandidagem, normalmente, o tráfico. Nesta última hipótese, a sua vida seria também miseravelmente curta, mas iluminada por miragens de liberdade e pelos prazeres furtivos da saciedade e do sexo. Tinham ainda tempo, antes de acertar as contas finais com O Criador, de fazer dois ou três miseráveis garantidos em raparigas adolescentes dos bairros populares, daquelas que aos quinze anos espelham nos olhos a tristeza de quem é maltratado pela vida.
Acaba-se a visita com a impressão inevitável de que a função daquelas couraças e fortificações é a manter prisioneiros os seus próprios habitantes, com cujo sangue era regada a poeira dos rigores do clima do sul quando os Deuses se achavam indisposto.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Morrer na Praia


A praia estava cheia, diga-se, a abarrotar. Magotes e magotes de pessoas apinhavam-se perigosamente perto das enormes vagas. Eram ondas bonitas, sem dúvida, mas daquela beleza fatal dos abismos.
Os nadadores-salvadores, cautelosamente, içaram as bandeiras vermelhas em jeito de advertência. Porém, quiçá fruto dos numerosos surfistas que praticavam a sua arte, ninguém parecia atemorizado.
Jovens de todas as idades lançavam-se contra as ondas. Crianças sós pulavam nos pequenos charcos que a força da maré criava nos locais mais insuspeitos. Outras eram levadas pelas próprias mães e logo abandonadas à beira-mar perante o sorriso complacente de todos. Quem as pode censurar, afinal não é verão todos os dias…
As velhinhas e os velhinhos arrastavam os seus corpos disformes à violência da corrente sem o justo temor de serem imediatamente engolidos.
Os salvadores assistiam impávidos a todo este espectáculo de desafio à morte certa.
Sem surpresa, o mar cuspia cadáveres. Eram sobretudo os dos velhinhos e das crianças – não são estas as primeiras vítimas nas grandes catástrofes? Mas via-se jovens na flor da juventude debalde debatendo-se com a força da maré, e outros (talvez aqueles a quem a morte já se prometera havia muito tempo) boiavam como enormes manchas de várias cores a uma distância já inalcançável. Talvez, um dia, o mar tenha bondade de os devolver à terra.
Os salvadores diligentes colocavam placas de perigo nas zonas mais devastadas pela mortandade. Que mais poderiam fazer contra uma multidão acéfala que desrespeita os mais básicos princípios da conservação?
Já a tarefa dos médicos, naquela tarde, encontrava-se bastante facilitada. Limitavam-se a preencher certidões de óbito com a ajuda de uma espécie de manual. Ninguém parece ter saído irritado com o facto de colocarem ventosas em cadáveres, como se fingissem diligências e manobras de ressurreição. Foi neste estado que vi um velhinho deitado sobre uma toalha e uma amálgama de gente à sua volta. Tinha as mãos cruzadas, uma sobre a outra. Não sei se se encontrava assim quando deu o último suspiro ou se foi a piedosa atenção dos seus familiares que assim o colocou. Não pareciam tristes, afinal, quem de novo não vai, de velho não escapa. E , apesar de tudo,  não é assim tão mau morrer na praia.

sábado, 7 de julho de 2012

Às voltas com Gaspar


Ligava-me sempre por volta das cinco horas, lacónico, frio. Segundo o próprio, não gostava de telefones, o que pude muito bem comprovar quando esteve semanas a fio com o telefone desligado. Os nossos encontros seguintes, como que para compensar essa prolongada ausência, tornaram-se frequentes e prolíferos. O lugar escolhido era invariavelmente uma pastelaria dos arredores. Porquê? Nunca compreendi, já que ambos vivíamos no centro da cidade. Mas julgo que ambos nutríamos uma admiração irresistível pelos grandes subúrbios, embora por razões diferentes. Gaspar, quiçá por por razões estéticas, achava que os subúrbios são a exteriorização física dos seus habitantes: desertos de betão com grafitis berrantes, caixas onde se arrumam aqueles de que não se sabe o que fazer. Eu, por motivos políticos e individuais, via os subúrbios como uma espécie de escape da vida pesada do centro da cidade, onde a reclusão do lar encerra mil vidas que tinha ocasião de ver pelas janelas em mil fogos alumiados cada vez que entrava na cidade depois de um fim-de-semana prolongado. As pessoas tinham um ar despojado de preocupações com o status , essa maldição burguesa que fustiga os centros das cidades. No final de contas, talvez fosse apenas uma experiência exótica para meninos mimados…
A dada altura, a nossa relação assumiu contornos estranhos. As nossas combinações começavam a assumir, a julgar pelo seu tom de voz, o toque esotérico de seita política. Sussurrava-me nos momentos críticos, como que a desvendar uma mistério que uma vez descoberto parecia ter estado sempre ali à mão de semear. 
À parte das nossas conversas, pelo pouco que consegui avaliar da sua rotina, diria que era alguém bastante previsível. Como todos hoje sabemos (e o tempo que demorei a descobrir!), era revisor freelancer. Creio que trabalhava na sua ocupação principal duas ou três horas por dia. O resto do tempo passava-o a ler ou reler os muitos volumes que decoravam as paredes de casa. Disse-me várias vezes (mas julgo ter ouvido ou lido em qualquer outro lugar) que as verdadeiras leituras eram as releituras. Compreendia o que queria dizer, embora nunca o tivesse formulado por palavras. Dedicava também um pouco do seu tempo à música clássica, com um empenho de alguém que lida com uma paixão antiga, como se dois amantes de há muitos anos se encontrassem para relembrar os seus amores, mas era tudo diferente e irrepetível. As noites eram ocupadas nos cafés e lupanares da cercania, rodeado do seu bando. Eram muitos, e devo confessar que o número aumentava de cada vez que tinha oportunidade de o acompanhar nessas saídas. O seu carácter mudava violentamente com os ares nocturnos. Ninguém reconheceria naquele homem prático, sempre com planos sobrepostos para o caso de algum deles falhar, dividido entre as conversas filosóficas e a perseguição incansável do sexo oposto, o homem concentrado, generoso, sóbrio, que aparentava na sua barba sábia diurna. As impressões que retinha no final de cada noite eram sobretudo confusas. Era capaz de percorrer mil planos, construir uma Babel numa só noite para a destruir logo de seguida à força de tragos desalmados de cerveja e vinho barato. Compreendia então, como hoje ainda o compreendo bem, que era essa a única realidade possível. No plano das ideias tudo fazia sentido, a lógica discorria harmoniosa e serena e quem não se poderia sentir génio nessas circunstâncias, e na manhã seguinte era tudo mentira.
Era de esperar que com o passar do tempo essa faceta ganhasse terreno como aconteceu com tantos outros, empurrados por um destino injusto para uma vida de desassossego.
Foi assim que testemunhei aquele conjunto de homens e mulheres reunidos à sua volta, cada vez mais viscerais e promíscuos até ao ponto de me chocar, a mim que sempre fui muito permissivo nessas questões. A última vez que os vi dançavam uns com os outros quase nus ao som de música de segunda. O seu mestre, olhava impávido e triste como quem olha para a sombra de algo há muito perdido. Afinal, todos eram tristes, incluindo eu. Apenas o manifestavam refugiando-se no último enclave da miséria humana: o corpo. Talvez ainda algo mais do que isso, a prova viva e material da justa loucura de um homem. Não, disso não tenho dúvidas. Eram todos a mesma pessoa.

sábado, 21 de abril de 2012

11 - O Senhor Umberto

Dizem que é tão rigoroso, tão impecável no trato, tão implacável na crítica. Os que o conhecem bem asseveram que não existe estudo, texto em prosa ou em verso invulnerável à sua visão arguta. Na mais inexpugnável construção do intelecto, descobre fissuras, pontos fracos, claudicâncias.

A todos os que o procuram caracterizar ecoa, antes de todas as outras, a palavra etérea da pureza.

Habituou-se a desconfiar da mudança e das novas ideias. Suspeita ser tudo ditado pela loucura do comércio.

Entre as opiniões menos convencionais, encontrámos os que afirmam ser impossível sobreviver Umberto ao seu próprio código de conduta. Outros limitam-se a suspirar: «É difícil ser Umberto».

segunda-feira, 9 de abril de 2012

10 - No dia em que as trombetas soaram

No dia em que as trombetas soaram, tudo parecia correr de feição. As crianças e os anciãos adiantaram-se a todos os outros no entusiasmo pré-festivo, as mulheres engrinaldaram-se com a antecedência estritamente necessária à manutenção do penteado, os de sangue azul colocaram opulentas coroas esmaltadas nas capas de veludo vermelho cor-de-sangue, o rio correu, como sempre, para sul. Falou-se também de impostos, de desemprego, de carestia, de estrangeiros, e todos fumavam, e todos bebiam e todos eram felizes.
Apenas os pobres continuavam sem ilusões patrióticas e de todos, os loucos, veriam tudo às avessas, as máscaras, o sangue e a fanfarronice invadir o mundo dos vivos. «É tempo de aprender a nadar companheiros, aprender a nadar!», diriam.